Vidro molhado.

    Noite de quase fim do outono, daquelas que contam com chuva suave; pingos, ao cair, umedeciam as pontas dos meus cabelos e, unidos à brisa anunciante do inverno, gelavam meu casaco e minhas mãos ao passo que dificultavam minha meta de fim do dia: desfrutar de um bom, e raro, Cohiba, às margens do Danúbio. Acrescento ainda que, naquele momento, mais do que nos últimos dias dessa minha conturbada semana, se é que isso era possível, o mesmo encontrava-se especialmente bonito. Fluía caudaloso e imponente, como naturalmente o é, eternizado em minha memória pelos enfeites das luzes amareladas que reluziam na correnteza, partindo das formosas pontes, cuja função, há tempos, é unir aqueles dois pedaços de terra que encontram-se em eterno desencontro. Era cena capaz de tirar o fôlego de qualquer um, em especial tratando-se de sujeito romântico, como eu pensava que o era e, verdadeiramente, ainda penso que o sou. Tal vista noturna tornava-se ainda mais ímpar graças à lua em seus tons de caramelo, que espiava a cidade por detrás das tímidas nuvens; estas quais anunciavam-se numerosas acima da montanhosa e elegante Buda, prometendo invadir a agitada e plana Peste. Estavam determinadas, então, a marcar o desenrolar da noite com chuva forte; daquelas que recaem também sobre a alma e permite-nos extravasar tudo aquilo que nos entope, e escorrer, assim, pra fora do corpo, todas as desnecessidades que alugam temporariamente um pedacinho da nossa mente, vez ou outra. 

    Ao caminhar só, pelas margens, durante uma boa hora - creio eu - na expectativa de fazer com que aquela noite se prolongasse eternamente, perdi a noção de distância, e já demasiado longe do pequeno hostel em que me hospedara estava quando tomei nota disso. O que me tirou do transe, de modo quase que instantâneo, me obrigando a finalmente desgrudar os meus então profundos e pensativos olhos daquela imensidão fluvial negra, foi um pequeno bar que se encontrava numa esquina do outro lado da avenida - a grande avenida, em homenagem a um professor, chamava-se Antall Jozséf, caso interesse ao leitor que por estas bandas já cá esteve ou que simplesmente possui alma curiosa por natureza -, reverberando, nas ruas que o circundava, um jazz instrumental extremamente cativante. Assim, mostrou-se paradeiro ideal para aquele meu fim de dia solitário. 
Solitário não, pois prometo aqui não carregar qualquer tom de melancolia excessiva; usarei então "introspectivo". Agora sim, deixemos de lado qualquer tipo de vazio que poderia em mim existir naquele momento e foquemos nesse lado do jovem eu que, por vezes, se via perdido nos seus universos internos. 

    Decerto, o tom artístico que se firmou entre o estilo musical do estabelecimento e a essência de tal noite, que vinha sendo tão contemplativa, para jovem piegas, prometia ser o cenário perfeito para o início de um arco de desenvolvimento do personagem principal que eu inventara para mim mesmo nessas passadas horas, e agora viam-se transformadas em filme na mente de elemento tão criativo e avoado como aquele que vos escreve. Seguindo, já devidamente servido no animado estabelecimento noturno, pus-me a encarar um quase vazio copo de Palinca; segurava-o em minhas mãos e o balançava, movendo aquele líquido translúcido à minha frente num ritmo hipnótico que me permitia realizar uma retrospectiva mental do que tinha ocorrido nessa agitada semana que passara na capital húngara. Como ciente está o leitor, nesta época era eu jovem tolo, mas mistério ainda se faz a razão pela qual estava eu onde estava. Bom, para já sanarei tal dúvida. 

    Já vos adianto que este parágrafo será, ou ao menos espero que seja - nunca lá fui muito bom com promessas - breve e sucinto, servindo apenas para compreender como cheguei até essa esquina movimentada numa noite de chuva em Budapeste. Sendo assim, revelo que em novembro daquele mesmo ano completara eu meu décimo quinto mês vivendo na Espanha. Cursava jornalismo na Universidade Complutense de Madrid. Mudei-me para a Europa há não mais que dois anos, quando meu pai recebeu proposta nova de emprego e de Recife tivemos que sair. Para já, antecipo que nunca fui muito preso àquela cidade, por vezes sinto falta de uma vista bela ou outra, mas é só. Dito isto, é de se imaginar que a adaptação à nova vida não fora difícil, e realmente não a foi. Meu pai e eu vivíamos juntos, sós, e, por sermos muito parecidos e darmo-nos bem, a vida seguia tranquila, como nunca. Por hora, é isso, sem mais. Foquemos, portanto, no porquê da Hungria. Já no meu primeiro período em jornalismo conheci Maikel, menino venezuelano, alto, com olhos leves que passavam uma sensação de confiança; pele negra e quente, senso de moda invejável, português impecável e caráter divertido como poucas as pessoas que já conheci possuíam. Sua família morava em Portugal havia pouco menos de três anos, num pequeno apartamento em Figueira da Foz, mas ele passava seus dias em um estúdio no Porto, onde licenciava-se em Cinema e Audiovisual na Universidade do Porto. No momento, passava em Madri os seis meses de seu intercâmbio durante o terceiro ano de curso. Foi em uma das minhas primeiras noites universitárias, em outubro daquele mesmo ano, que conheci Maikel. Conversamos, bêbados, durante uma festa em casa de já não sei eu mais quem - mas uma coisa vos digo que sei: era uma invejável casa, como nunca jamais vi, isso de fato era - e então estava feito: como resultado da espontaneidade vívida do mundo universitário, não éramos mais estranhos. No dia seguinte à festa, encontramo-nos na gráfica da Universidade e começamos a amigar-nos ali. Por vezes, estudávamos no café que havia perto da cantina e falávamos sobre a vida; geralmente ele sobre sua namorada, que o esperava em Lisboa, e eu sobre as diferentes aventuras amorosas que enfrentava mensalmente e, talvez, por isso, mesmo que com razões quase opostas, nunca tínhamos a mente sossegada e as conversas estendiam-se toda a vida. Muitas das vezes, o bate-papo mais parecia uma sessão de terapia, para ambos. Eu, com meu espírito despreocupado, o ajudava a distanciar-se daquilo que não estava sob seu alcance, e ele, com sua mente mais velha e, sem dúvidas, mais sábia e vivida que a minha, enchia-me de bons conselhos que me ajudaram, pontualmente, a manter meu pé mais no chão. Desse modo, acabamos por virar colegas. Relembro-os para já que Budapeste se passa na primeira semana de Dezembro, e meu coleguismo com Maikel surgiu em meados de Outubro. Logo em Novembro, meu hermano - como passamos a nos chamar depois de quase mês - decidiu me convidar para o Festival de Cinema de Língua Portuguesa, que aconteceria do dia nove ao dia treze do seguinte mês, na capital húngara. Contando com filmes portugueses, brasileiros e angolanos, prometia ser um evento bastante promissor ao meu colega da Venezuela, visto que grandes diretores lá estariam e poderia essa ser a sua chance de ter um maior contato com um deles. Seguindo nessa linha de argumentação, Maikel só conseguiu mesmo convencer-me quando disse-me que ia comprar as fotos que eu tirasse do evento e, ainda - essa parte foi bastante convincente, acentuo -, oferecer-me-ia um dos Cohibas que seu amigo da Venezuela conseguia regularmente com um primo cubano e enviava mês sim e mês não para Maikel, que costumava os vender a mim por não menos de cinquenta euros. Cada. Um absurdo, eu bem sei. Sendo assim, fui. Já agora noto que não muito mudou, o parágrafo provou-se gigante e minha questão com promessas segue ruim.

    Retornemos então ao momento temporal em que estávamos antes dessa desnecessariamente longa alegoria ao passado. Agora, já estando familiarizados, é momento oportuno para revelar que mais uma vez, nesse dia avoado que eu levava, meu transe foi quebrado, fazendo com que eu saísse do ciclo vicioso que estava com o copo e derrubasse o resto de minha bebida sobre a mesa. O culpado havia sido Maikel, que encontrara-me, sabe-se lá Deus como, naquela mesa de bar. O animado menino aspirante a cineasta chegou bagunçando meu cabelo por trás e, com tom cativante de animação, sentou-se na cadeira a minha frente, completamente encharcado pela chuva que se intensificara na cidade. Passou ali uns longos minutos a contar como havia sido as conversas com os produtores do evento, que duraram até aquele momento. Já era quase meia noite, vale acrescentar. Admito que consegui perceber muito pouco do que ele me dissera naquele bate-papo noturno, mas de uma coisa lembro-me bem: um diretor angolano havia pego seu contato de telefone e isso foi o suficiente para transformá-lo numa máquina produtora de serotonina imparável. Era cômico; bastante até. Fiquei feliz também; logo ele pagou-nos mais uma dose de palinca e seguimos conversando. Já quase uma da manhã era quando, no meio daquela agitação noturna, marcada com risadas, assuntos dos mais diversos e contagiante euforia, sinto meu celular vibrar no bolso de minha calça. Olhei a mensagem e Maikel notou, claramente, que aquilo havia mexido comigo de um jeito bom, era certo; aquele meu sorriso de canto de rosto, que revelara minha covinha esquerda, não permitiria dizer o contrário. Olhei para o celular, olhei para ele de novo e já assim sabíamos de tudo. Ele apenas me perguntou: "É ela?" e a mim, visivelmente inquieto, bastou acenar positivamente com a cabeça. Maikel pôs-se a rir na minha frente e logo depois, como quase que em um gesto comemorativo, encheu-nos os copos e virou de uma vez a palinca. Fiz o mesmo, como é claro. Já tendo, muito depressa, me despedido e pago minha parte da conta, saí titubeando pelas mesas do bar, empolgado, com rumo bem definido, e feliz. Ah, como estava feliz. Ainda, antes de sumir de vista, ouço Maikel gritar: "Goza un puyero!", sendo essa sua frase clássica para qualquer situação que implicasse maiores emoções. Sequer precisei me virar; minha risada, já um pouco sobre o efeito da bebida, foi ouvida pelo quarteirão, e sei que meu colega rira também, empolgado por mim. Aceitei a chuva que me consumia e segui em frente, aos saltos.

    Nota-se que naquele momento toda e qualquer possível melancolia, estado de reflexão, profundidade da vida, tristeza, ou até mesmo a mais leve das preocupações havia sumido do meu corpo. Talvez fosse esse o poder da tal chuva que recaía sobre Peste. Talvez fossem os hormônios. É, provável que fossem os hormônios, realmente. De todas as formas, espero que tenha sido paciente, atento leitor, pois a empolgação do momento acaba, vez ou outra, por consumir-me até os dias de hoje; os dedos tomam conta do trabalho, seguem por martelar as pequenas letras brancas do teclado e, quando vejo, faltei convosco. Dependendo da natureza daquele que agora lê, alimentei faminta curiosidade. Mas peço que não se enfade, pois trato já de elucidar-vos do que me havia passado.

    É verdade, descuidei-me na hora de contar-vos acerca da minha semana húngara. Foquei por demais no fim e deixei-vos carentes de informações. Mas tal descuido não é de todo o mal, confie naquele que redige este confuso, e longo, memorando. Sim, comi muito, bebi ainda mais, conversei com uma porção de gente que já nem recordo-me mais as nacionalidades; ri em demasia, diverti-me como não fazia havia tempo e, sem dúvidas, assisti a muitos filmes. Já vos adianto que de cinematografia entendo bulhufas. Os filmes eram bons, sim, achei, mas detalhes técnicos sou incapaz de vos prover. Entenda, caro leitor: o desfrute de uma boa viagem e um charuto foi, somente, o que me levou até ali. Os filmes eram um bônus. Mas, pra já, prometo que não me estenderei nesse assunto. Minto! Pois foi numa sessão específica, a primeira do festival, "Njinga - Rainha de Angola", que conheci Louise. Francesa, de cabelos longos, com leves ondulações, lindas, formosas, chamativas, cativantes, com tantas características que provam-se quase indescritíveis, pois careço de repertório linguístico suficiente para prover-vos de uma representação exata do que era aquela bela cor castanha, quente; como um ruivo, mas levemente mais escuro - Não! Chega! Termino por aqui esta triste tentativa de descrição capilar, pois serei incapaz de explicar toda aquela complexidade maravilhosa. Louise era charmosa, quente por si só, usava roupas vistosas, chamativas, e que provaram-se armadilha para jovem viciado em apaixonar-se como eu era. Louise era mais velha, devia já lá ter seus 25 anos, e eu seguia com meus 20. Louise me olhava de um jeito, me segurava de uma forma, mordia aqueles seus lábios grandes, marcados por um batom vermelho que faziam até mesmo eu, que não gostava lá muito de vermelho, querer me ver completamente carimbado por aquele escarlate. Era pura tentação, tesão, paixão, loucura. Louise me deixava desconcertado. O primeiro dia de sessão pra mim tinha cor, cara, nome e cheiro de Louise. Sobre o filme? Já não me lembro de patavinas. 

    Esse amor platônico - sim, platônico, pois Louise me deixou na vontade durante o festival inteiro - me consumia de uma forma, uma maneira, tão profunda, intensa, selvagem, corrosiva... Mas também vigorosa, chamuscada, ardente e arrebatadora, que me entreteve, assim, durante a semana inteira. Era um misto de expectativa com desilusão. Ela me atiçava e depois apagava. Acendia-me com um olhar, me abafava com um gesto. Louise foi a atriz principal naquele meu festival de cinema. Ah, como foi!

    Agora entende, paciente leitor, o porquê deste conto iniciar-se de maneira um bocado cabisbaixa? Estava eu desiludido! O festival se acabara e Louise sequer despediu-se, não permitiu que eu me aventurasse naquela formosura inigualável que comprimia-se em um metro e sessenta e sete de altura. Eu queria o beijo, as mordidas, os risos, os suspiros, queria fazer parte daquele espetáculo à parte. Ah! eu queria é muita coisa! 

       Não surpreenderia eu ninguém ao revelar que, sim, de fato, a mensagem era dela. Louise, a francesa que falava um básico de espanhol, dançava tango, amava tardes quentes aos pés do Reno e era fissurada em sorvete de requeijão com calda de figo - acrescento agora tais detalhes que haviam-se perdido no meio de tamanha empolgação impulsionada pela redação de tais lembranças-.  Aquela mulher havia lembrado de mim! Foi ela quem pôs-me a saltar pelas ruas encharcadas de Budapeste. Me chamara para conhecer seu quarto de hotel, tomar uma taça de vinho barato - Mont Blanc. Péssimo - e praticar seu espanhol. "Tudo isso às uma da manhã de uma sexta-feira chuvosa?", questiona-se, atento leitor? Bobo eu podia até ser, inocente nem tanto! Era noite de bonança. E era com Louise! Sim, Louise! Ah, mal podia eu crer, Louise...!

    Já um bocado ofegante, chego ao hotel de minha musa francófona. Adianto-lhes que não lembro-me do nome de tal espelunca - e digo espelunca pois verdadeiramente era de um mau senso de decoração e desleixo nunca antes contemplado por mim -, o qual me chocara de tal forma que se perguntasse a qualquer um, dos cerca de três cidadãos que se encontravam no saguão naquele momento, descreveriam a mim como uma barata tonta, olhando para os móveis degradados, encarando o carpete velho, rasgado, e com um nariz torto ao analisar os quatro cantos daquele recinto. Passado o choque, me informei com o menino que se encontrava no balcão e rapidamente, felizmente, cheguei à porta do quarto 1002B. Bati empolgadamente. O tempo até que eu fosse atendido, realmente, deve ter levado cerca de 10 segundos entrecortados por um leve "J'arrive!", mas, para mim, a quinta sinfonia de Beethoven foi capaz de tocar ininterrupta em minha mente por longos minutos enquanto eu encarava fixamente aquela maçaneta dourada com detalhes que remetiam a uma flor de lis, sonhando com o momento em que a mesma se moveria, dando-me o passe de entrada para a sessão mais esperada da semana.  

    A porta abriu-se! Louise estava lá, de roupão preto com brilhos prateados. O quarto era até bem jeitoso, por mais que simples, com uma cama de madeira enorme no meio, contando com uma vista cinematográfica provida pela janela que havia atrás da mesma. Eu me encontrei, por uns instantes, imóvel naquele chão carpetado, embasbacado com a cena que me deparava. Era Louise contornada com a mais bela vista de Budapeste que eu já me deparara. O dourado das luzes da cidade realçavam a beleza daquela mulher, que mesclava-se, graças aquele roupão, aos feixes de luz ondulados que se viam no Danúbio, intercalados pelos pingos de chuva que pintavam um belíssimo quadro pós-moderno -e digo isso pois era de uma complexidade que carecia de método específico, era único- na janela. Saí do transe, agarrei Louise e me atirei ao caminho da felicidade. "C'est la vie", não?

    Horas depois me pego nu, sentado na beira da cama. Aquela mulher escarlate, que vivera na minha mente ao longo deste festival, encontrava-se agora em profundo sono, embrulhada naquele enorme edredom que enroscava meu torso. Bem ali, já sem tanto encanto. Passou. Ao acender aquele meu cigarro noturno, viro minha atenção ao topo da janela enorme daquele escuro quarto. Gota descendente então prende minha atenção. Seja lá qual tenha sido a força natural que a desprendeu do caixilho, foi suficiente para traçar o rumo que aquela lágrima seguiria. Desprendeu-se de um ponto em específico, escorregou rapidamente, esbarrou-se em outra gota, resultando no reluzir de um feixe amarelo em meu olho, isso para em seguida unir-se e crescer, ganhando força; logo desprendendo-se e tomando outro rumo, tudo isso com uma velocidade variável que tornava impossível qualquer tentativa de previsão, traçando o caminho mais caótico imaginável, esbarrando em outras tantas gotas, até chegar em encontro com o caixilho inferior, que, de fato, era seu destino intransmutável desde o princípio, enfrentando assim o seu inevitável fim, e pingar; pingar até sabe-se lá onde, e transformar-se em outro elemento, onde quer que tenha caído. Minha visão embaça. Encontrava-me emocionado, nos confins de uma madrugada húngara chuvosa, ao comparar minha ínfima existência, até aquele ponto, com uma gota de chuva que escorrera sobre a janela. "Talvez esteja eu também fadado a esbarrar com tantas outras, me desprendendo e seguindo meu próprio caminho caótico, até encontrar um fim que, possivelmente, apesar de não ter sido ainda traçado, já possua final bem definido", pensava eu ao limpar a lágrima que havia caído sobre meu braço. Agora, dedicado leitor, me vejo carregando esse texto de forte melancolia, e por isso vos peço perdão por mais uma quebra de promessa que os havia feito. É um problema que carrego comigo.

    Engraçado, não? O impacto que pode ter um vidro molhado.


En Español:

 Vidrio Mojado.

    Noche de finales de otoño, de esas que tienen lluvias suaves; las gotas, al caer, humedecían las puntas de mi cabello y, junto con la brisa que anunciaba el invierno, me helaban el abrigo y las manos, dificultando mi objetivo al final del día: disfrutar de un buen, y raro, Cohiba, a orillas del Danubio. Añadiría también que, en aquel momento, más que en los últimos días de mi convulsa semana, si cabe, el se veía especialmente hermoso. Fluyó poderoso e imponente, como lo hace naturalmente, eternizado en mi memoria por los adornos de las luces amarillentas que brillaban en la corriente, a partir de los hermosos puentes, cuya función, desde hace algún tiempo, es unir esos dos pedazos de tierras que están eternamente en desacuerdo. Era una escena capaz de dejar sin aliento a cualquiera, especialmente cuando se trata de un chico romántico, como yo pensaba y, de verdad, sigo pensando que soy. Esta vista nocturna se volvió aún más singular gracias a la luna en sus tonos caramelo, que asomaba a la ciudad desde detrás de las tímidas nubes; éstas fueron anunciadas en gran número sobre la montañosa y elegante Buda, prometiendo invadir la agitada y llana Pest. Estaban decididas, pues, a marcar el curso de la noche con fuertes lluvias; aquellas que también caen sobre el alma y nos permiten desbordar todo lo que nos obstruye, y así drenar del cuerpo todas las cosas innecesarias que, de vez en cuando, alquilan temporalmente un pedacito de nuestra mente.

    Mientras caminaba solo, a lo largo de las orillas del río, durante una buena hora - creo - esperando que esa noche durara para siempre, perdí la noción de la distancia, y ya estaba demasiado lejos del pequeño albergue donde me hospedaba cuando tomé nota de él. Lo que me sacó de mi trance, casi instantáneamente, obligándome a apartar finalmente mis entonces profundos y pensativos ojos de aquella inmensidad del río negro, fue un pequeño bar que se encontraba en una esquina al otro lado de la avenida - la gran avenida, en homenaje a un maestro, se llamaba Antall Jozséf, por si interesa al lector que haya estado aquí antes o que simplemente tenga un alma curiosa por naturaleza -, reverberando, en las calles que lo rodeaban, un jazz instrumental sumamente cautivador. Por lo tanto, resultó ser un lugar ideal para ese final solitario de mi día. No digo solitario, ya que prometo aquí no llevar ningún tono de excesiva melancolía; luego usaré "introspectivo". Ahora, dejemos de lado cualquier tipo de vacío que pueda existir en mí en ese momento y centrémonos en ese lado del joven yo que, por momentos, se encontraba perdido en sus universos internos.

    Ciertamente, el tono artístico que se establecía entre el estilo musical del establecimiento y la esencia de tal noche, que había resultado tan contemplativa, para el sentimental joven, prometía ser el escenario perfecto para el inicio de un arco de desarrollo del personaje principal que me había inventado a mí mismo en aquellas horas pasadas, y ahora se transformaron en película en la mente de un elemento tan creativo y frívolo como el que te escribe. A continuación, ya debidamente servido en el animado establecimiento, me quedé mirando un vaso de Palinca casi vacío; lo sostuve en mis manos y lo estreché, moviendo ese líquido traslúcido frente a mí en un ritmo hipnótico que me permitió realizar una retrospectiva mental de lo sucedido durante esa agitada semana que había pasado en la capital húngara. Como sabe el lector, en ese momento yo era un joven tonto, pero la razón por la que estaba donde estaba sigue siendo un misterio. Bueno, de momento resolveré esa duda.

    Puedo decirles que este párrafo será, o al menos espero que lo sea - nunca he sido muy bueno con las promesas - breve y conciso, sirviendo simplemente para entender cómo llegué a esa concurrida esquina en una noche lluviosa en Budapest. Por ello, desvelo que en noviembre de ese mismo año cumplí mi decimoquinto mes viviendo en España. Estudiaba periodismo en la Universidad Complutense de Madrid. Me mudé a Europa hace no más de dos años, cuando mi padre recibió una nueva oferta de trabajo y tuvimos que dejar Recife. Por ahora les adelanto que nunca he tenido mucho apego a esa ciudad, a veces extraño una vista hermosa u otra, pero eso es todo. Dicho esto, uno podría imaginar que adaptarse a la nueva vida no fue difícil, y realmente no lo fue. Mi padre y yo vivíamos juntos, solos, y como éramos muy parecidos y nos llevábamos bien, la vida transcurría tan tranquila como siempre. Eso es todo por ahora, no más. Por tanto, centrémonos en el porqué de Hungría. Durante mi primera etapa en el periodismo conocí a Maikel, un chico venezolano, alto, de ojos claros que transmitían confianza; piel negra cálida, sentido de la moda envidiable, portugués impecable y un carácter divertido como pocas personas que he conocido poseían. Su familia vivía en Portugal desde hacía poco menos de tres años, en un pequeño apartamento en Figueira da Foz, pero él pasaba sus días en un estudio en Oporto, donde se licenció en Cine y Audiovisual en la Universidad de Oporto. En estos momentos estaba pasando los seis meses de su intercambio en Madrid durante su tercer año de carrera. Fue en una de mis primeras noches universitarias, en octubre de ese mismo año, cuando conocí a Maikel. Hablamos, borrachos, durante una fiesta en la casa de no sé quién, pero te digo una cosa que sé: era una casa envidiable, como nunca había visto - les juro -, y luego se hizo: como resultado de una vívida espontaneidad del mundo universitario, ya no éramos extraños. El día después de la fiesta nos encontramos en la imprenta de la Universidad y allí empezamos a nos hacer amigos. A veces estudiábamos en el café cerca de la cantina y hablábamos de la vida; generalmente él de su novia, que lo esperaba en Lisboa, y yo de las diferentes aventuras amorosas que afrontaba cada mes y, quizás por eso, aunque por motivos casi opuestos, nunca teníamos la mente tranquila y las conversaciones duraban a lo largo de nuestras vidas. Muchas veces, la charla se sentía más como una sesión de terapia para ambos. Yo, con mi espíritu desenfadado, le ayudé a distanciarse de lo que no estaba a su alcance, y él, con su mente más vieja y, sin duda, más sabia y experimentada que la mía, me llenó de buenos consejos que me ayudaron. en ocasiones, para mantener más el pie en el suelo. De esta manera terminamos convirtiéndonos en colegas. Os recuerdo ahora que Budapest tiene lugar la primera semana de diciembre, y mi amistad con Maikel comenzó a mediados de octubre. En noviembre, mi hermano -como empezamos a llamarnos después de casi un mes - decidió invitarme al Festival de Cine en Lengua Portuguesa, que se celebraría del nueve al trece del mes siguiente, en la capital húngara. Con películas portuguesas, brasileñas y angoleñas, prometía ser un evento muy prometedor para mi colega de Venezuela, ya que estarían allí grandes directores y esta podría ser su oportunidad de tener mayor contacto con alguno de ellos. Siguiendo esta línea argumental, Maikel sólo logró convencerme cuando me dijo que compraría las fotos que yo hiciera del evento y, además - esta parte fue bastante convincente, recalco -, me ofrecería uno de los Cohibas que su amigo de Venezuela los recibía regularmente de un primo cubano y se los enviaba cada dos meses a Maikel, quien me los vendía por nada menos que cincuenta euros. Cada. Absurdo, lo sé. Así que fui. Ahora me doy cuenta de que no ha cambiado mucho, el párrafo resultó ser enorme y mi problema con las promesas sigue siendo grave.

    Volvamos entonces al momento temporal en el que nos encontramos ante esta alegoría del pasado innecesariamente larga. Ahora, ya familiarizados con la historia, es un momento oportuno para revelar que una vez más, en ese día tan ocupado que estaba teniendo, mi trance se rompió, provocando que saliera del círculo vicioso en el que me encontraba mientras miraba el vaso y derramo el resto de mi bebida sobre la mesa. El culpable había sido Maikel, que me había encontrado, Dios sabe cómo, en aquella mesa del bar. El emocionado aspirante a cineasta llegó, revolviendo mi cabello por detrás y, con un cautivador tono de animación, se sentó en la silla frente a mí, completamente empapado por la lluvia que se había intensificado en la ciudad. Dedicó unos largos minutos a hablar de las conversaciones con los productores del evento, que se prolongaron hasta ese momento. Era casi medianoche, cabe añadir. Confieso que logré entender muy poco de lo que me había contado en aquella charla nocturna, pero una cosa recuerdo bien: un director angoleño le había cogido el contacto telefónico y eso fue suficiente para transformarlo en un imparable productor de serotonina, una máquina. Fue cómico; bastante. Yo también estaba feliz; al poco tiempo nos compró otra dosis de Palinca y seguimos hablando. Era casi la una de la madrugada cuando, en medio del bullicio de la noche, marcada por las risas, los temas más diversos y una euforia contagiosa, sentí vibrar mi celular en el bolsillo de mi pantalón. Miré el mensaje y Maikel notó claramente que me había conmovido en el buen sentido, eso seguro; esa sonrisa en mi rostro, que dejaba al descubierto mi hoyuelo izquierdo, no me permitía decir lo contrario. Miré mi celular, miré a Maikel y entonces supimos todo. Simplemente me preguntó: "¿Es ella?" y yo, visiblemente inquieto, me limité a asentir con la cabeza. Maikel se echó a reír delante de mí y poco después, casi como en un gesto de celebración, llenó nuestros vasos y arrojó la botella de una vez. Yo hice lo mismo, por supuesto. Ya me despedí muy rápido y pagué mi parte de la cuenta, salí tambaleándome entre las mesas del bar, emocionado, con una dirección clara y feliz. Oh, qué feliz estaba. Aún así, antes de desaparecer de la vista, escucho a Maikel gritar: "¡Goza un puyero!", siendo esta su frase clásica para cualquier situación que involucrara emociones mayores. Ni siquiera tuve que darme la vuelta; Mi risa, ya un poco bajo los efectos de la bebida, se escuchó alrededor de la cuadra, y sé que mi colega también se rió, emocionado por mí. Acepté la lluvia que me consumía y avancé saltando.

    Se puede ver que en ese momento había desaparecido de mi cuerpo cualquier posible melancolía, estado de reflexión, profundidad de la vida, tristeza o incluso la más mínima de las preocupaciones. Quizás ese fue el poder de la lluvia que cayó sobre Pest. Quizás fueron las hormonas. Sí, probablemente fueron las hormonas, en realidad. En cualquier caso, espero que hayas sido paciente, lector atento, ya que la emoción del momento termina, de vez en cuando, consumiéndome hasta el día de hoy; los dedos se adueñan del trabajo, siguen martillando las pequeñas letras blancas del teclado y, cuando lo veo, te extrañé. Según la naturaleza de quien ahora lee, alimento una curiosidad hambrienta. Pero les pido que no se enojen, ya que estoy tratando de explicarles lo que me pasó.

    Es verdad, me olvidé de contarles sobre mi semana húngara. Me concentré demasiado en el final y te dejé sin información, amado lector. Pero tal descuido no es del todo malo, confíe en quien escribe este memorando largo y confuso. Sí, comí mucho, bebí aún más, hablé con mucha gente cuyas nacionalidades ya no recuerdo; Me reí mucho, me divertí como hacía mucho tiempo que no lo hacía y, sin duda, vi muchas películas. Ya puedo decirles que entiendo tonterías sobre cinematografía. Las películas eran buenas, sí, pensé, pero no puedo proporcionarles detalles técnicos. Entienda, querido lector: el disfrute de un buen viaje y un cigarro fue justo lo que me llevó hasta allí. Las películas fueron una ventaja. Pero por ahora prometo no insistir en este tema. ¡Yo miento! Fue en una sesión específica, la primera del festival "Njinga - Reina de Angola", que conocí a Louise. Francesa, de pelo largo, con ligeras ondas, bella, hermosa, llamativa, cautivadora, con tantas características que resultan casi indescriptibles, ya que carezco de repertorio lingüístico suficiente para brindarles una representación exacta de lo que era ese hermoso color castaño, cálido; como una pelirroja, pero un poco más oscura - ¡No! ¡Ya está! Terminaré aquí este triste intento de descripción capilar, ya que no podré explicar toda esa maravillosa complejidad. Louise era encantadora, atractiva por derecho propio, vestía ropa llamativa y provocativa, lo que resultó ser una trampa para un joven adicto a enamorarse como yo. Louise era mayor, ella debía tener 25 años y yo todavía tenía 20. Louise me miró de cierta manera, me abrazó de cierta manera, mordió esos grandes labios suyos, marcados por un lápiz labial rojo que hacía que incluso yo, que no me gustaba mucho el rojo, queriendo verme completamente estampado con ese escarlata. Era pura tentación, excitación, pasión, locura. Louise me dejó desconcertado. El primer día de la sesión para mí tenía el color, la cara, el nombre y el olor de Louise. ¿Sobre la película? Ya no recuerdo las patas.

    Este amor platónico - sí, platónico, porque Louise me dejó con las ganas durante todo el festival - me consumió de una manera, de un modo, tan profunda, intensa, salvaje, corrosiva... Pero también vigorosa, abrasadora, ardiente y abrumadora, que me mantuvo entretenido así durante toda la semana. Fue una mezcla de expectativa y decepción. Ella me acendía y luego me apagaba. Me iluminó con una mirada, me apagó con un gesto. Louise fue la actriz principal en mi festival de cine. ¡Ah, cómo fue!

    ¿Entiendes ahora, paciente lector, por qué esta historia comienza un poco cabizbaja? ¡Estaba decepcionado! El festival terminó y Louise ni siquiera se despidió, no me permitió aventurarme en esa belleza inigualable que medía cinco pies de altura. Quería el beso, los mordiscos, las risas, los suspiros, quería ser parte de ese espectáculo. ¡Oh! ¡Quería muchas cosas!

    No sorprendería a nadie revelar que sí, efectivamente, el mensaje era de ella. Louise, la francesa que hablaba español básico, bailaba tango, amaba las tardes calurosas al pie del Rin y amaba el helado de queso crema con jarabe de higos - agrego ahora detalles que se habían perdido en medio de tanta emoción impulsada por la escritura de tales recuerdos -. ¡Esa mujer se había acordado de mí! Ella fue quien me hizo saltar por las calles mojadas de Budapest. Me invitó a ver su habitación de hotel y a tomar una copa de vino barato - Mont Blanc. Terrible -, y practicar tu español. “¿Todo esto a la una de la madrugada de un viernes lluvioso?”, preguntas, lector atento? ¡Tonto podría ser, inocente no tanto! Fue una buena noche. ¡Y fue con Louise! ¡Sí, Louise! ¡Oh, casi no lo podía creer, Louise...!

    Ya un poco sin aliento, llego al hotel de mi musa francófona. Les cuento que no recuerdo el nombre de ese antro - y digo antro porque verdaderamente tenía un mal sentido de decoración y descuido nunca antes visto por mí -, lo que me impactó tanto que si le preguntaba a alguien, alrededor de los tres ciudadanos que se encontraban en ese momento en el vestíbulo, me describirían como una cucaracha mareada, mirando los muebles destartalados, mirando la alfombra vieja y rota, y con la nariz torcida analizando los cuatro rincones de aquella sala. Después de que pasó el shock, verifiqué con el chico en el mostrador y rápidamente, afortunadamente, llegué a la puerta de la habitación 1002B. Llamé con entusiasmo. El tiempo hasta que me atendiera, realmente, debieron haber sido unos 10 segundos intercalados con un ligero "¡J'arrive!", pero, para mí, la quinta sinfonía de Beethoven pudo sonar ininterrumpidamente en mi mente durante largos minutos mientras yo miraba fijamente en ese pomo dorado con detalles que parecían una flor de lis, soñando con el momento en que se movería, dándome el pase de entrada a la sesión más esperada de la semana.

    ¡La puerta se abrio! Louise estaba allí, con una bata negra con destellos plateados. La habitación era bastante hermosa, aunque sencilla, con una enorme cama de madera en el medio, con una vista cinematográfica proporcionada por la ventana detrás. Me encontré, por unos momentos, inmóvil sobre aquel suelo alfombrado, atónito por la escena que me enfrentaba. Era Louise rodeada de la vista más hermosa de Budapest que jamás había visto. El oro de las luces de la ciudad resaltaba la belleza de aquella mujer, que se fundía, gracias a aquel manto, con los ondulantes haces de luz que se veían sobre el Danubio, intercalados con gotas de lluvia que pintaban un hermoso cuadro posmoderno - y digo esto porque era de una complejidad que carecía de un método específico, era único - en la ventana. Salí del trance, agarré a Louise y me lancé al camino de la felicidad. "C'est la vie", ¿no?

    Horas más tarde me encuentro desnudo, sentado en el borde de la cama. Esa mujer escarlata, que había vivido en mi mente durante todo este festival, ahora estaba en un sueño profundo, envuelta en ese enorme edredón que envolvía mi torso. Allí mismo, sin tanto encanto. Ocurrió. Cuando enciendo mi cigarrillo nocturno, dirijo mi atención a la parte superior del enorme ventanal de esa habitación oscura. Entonces la caída descendente de una gota atrae mi atención. Cualquiera que fuera la fuerza natural que la desprendió del marco, fue suficiente para trazar la dirección que seguiría el desgarro. Se soltó de un punto específico, se deslizó rápidamente, chocó con otra gota, resultando en un rayo amarillo brillando en mi ojo, que luego se juntó y creció, ganando fuerza; desprendiéndose pronto y tomando otra dirección, todo ello con una velocidad variable que imposibilitaba cualquier intento de predicción, trazando el camino más caótico imaginable, chocando con otras tantas gotas, hasta llegar al cuadro inferior, que, de hecho, era el suyo destino inmutable desde el principio, afrontando así su inevitable fin, y goteando; gotear hasta quién sabe dónde, y transformarse en otro elemento, dondequiera que caiga. Mi visión se vuelve borrosa. Me sentí emocionado, en los confines de un lluvioso amanecer húngaro, comparando mi pequeña existencia, hasta ese momento, con una gota de lluvia que había caído sobre la ventana. "Quizás yo también esté destinado a toparme con otros tantos, soltándome y siguiendo mi propio camino caótico, hasta encontrar un destino que, posiblemente, a pesar de no haber sido trazado aún, ya tenga un final bien definido", pensé mientras me limpiaba las lágrimas que habían caído sobre mi brazo. Ahora, lector dedicado, me encuentro llevando este texto con fuerte melancolía, y por eso te pido perdón por un nuevo incumplimiento de la promesa que te había hecho. Es un problema que llevo conmigo.

    ¿Gracioso, verdad? El impacto que puede tener un vidrio mojado.


In English:


Wet Glass


    It was an almost late autumn evening, one of those with soft rain; the drops moistened the ends of my hair and, together with the breeze that heralded winter, chilled my coat and my hands while making it difficult for me to achieve my goal at the end of the day: to enjoy a good, rare Cohiba on the banks of the Danube. I should also add that, at that moment, more than in the last few days of my troubled week, if that were possible, it was especially beautiful. It was flowing fast and imposingly, as it naturally does, eternalized in my memory by the decorations of the yellowish lights that glittered in the current, coming from the beautiful bridges, whose function has long been to unite those two pieces of land that are in eternal disagreement. It was a scene that could take anyone's breath away, especially if they were a romantic, as I thought I was and, truly, still think I am. This nocturnal view was made even more unique by the caramel-colored moon peeking over the city from behind the timid clouds, which loomed large above the hilly and elegant Buda, promising to invade the bustling and flat Pest. They were determined, then, to mark the course of the night with heavy rain; the kind that also falls on the soul and allows us to vent everything that clogs us up, and thus drain out of the body all the unnecessary things that temporarily rent a little piece of our mind, time and time again. 

    As I walked alone along the banks for a good hour - I think - hoping to make that night last forever, I lost track of the distance, and I was already too far away from the small hostel I'd stayed in when I realized it. What snapped me out of my trance, almost instantly, forcing me to finally tear my deep, thoughtful eyes away from that immense black river, was a small bar on a corner on the other side of the avenue - the large avenue, named after a professor, was called Antall Jozséf, in case it interests the reader who has been around here before or who simply has a curious soul by nature - reverberating with extremely captivating instrumental jazz in the surrounding streets. Thus, it proved to be the ideal place for my solitary end of the day. No, I won't say 'solitary', because I promise not to be too melancholy here; I'll use "introspective" instead. Yes. Now, let's put aside any kind of emptiness that might have existed in me at that moment and focus on that side of the young me that sometimes found itself lost in its inner universes. 

    Certainly, the artistic tone set by the establishment's musical style and the essence of the evening, which had been so contemplative, to the point of being cheesy, promised to be the perfect setting for the start of the main character's development arc that I had invented for myself in those past hours, and which had now been transformed into a movie in the mind of such a creative and flighty person as the writer truly is. Afterwards, having been served in the lively nightclub, I stared at an almost empty glass of Palinca; I held it in my hands and swirled it around, moving the translucent liquid in front of me in a hypnotic rhythm that allowed me to carry out a mental retrospective of what had happened during the hectic week I had spent in the Hungarian capital. As the reader is aware, I was a young fool at the time, but it's still a mystery why I was where I was. Well, I'll settle that now. 

    I will tell you now that this paragraph will be, or at least I hope it will - I've never been very good with promises - brief and succinct, serving only to help you understand how I got to this busy street corner on a rainy night in Budapest. So, in November of that same year, I completed my fifteenth month living in Spain. I was studying journalism at the Complutense University of Madrid. I moved to Europe no more than two years ago, when my father was offered a new job and we had to leave Recife. For now, I can tell you that I've never been very attached to that city. Sometimes I miss one beautiful view or another, but that's about it. Having said that, you'd think that adapting to a new life wouldn't have been difficult, and it really wasn't. My father and I lived together, and I had a lot of fun. My father and I lived alone together and, because we were very similar and got on well, life went on as smoothly as ever. That's it for now, without further ado. So let's focus on why Hungary. During my first period in journalism, I met Maikel, a tall Venezuelan boy with light eyes that gave off a sense of confidence; warm black skin, an enviable fashion sense, impeccable Portuguese and a fun character like few people I've ever met. His family had been living in Portugal for just under three years, in a small apartment in Figueira da Foz, but he spent his days in a studio in Porto, where he was studying for a degree in Cinema and Audiovisual at the University of Porto. At the time, he was spending the six months of his third-year exchange program in Madrid. It was on one of my first university nights, in October of that same year, that I met Maikel. We had a drunken chat during a party at the house of I don't know who - but I'll tell you one thing I do know: it was as enviable a house as I've ever seen, that's for sure - and then it was done: as a result of the vivid spontaneity of the university world, we were no longer strangers. The day after the party, we met at the university printing office and began to make friends there. Sometimes we studied in the café near the canteen and talked about life; usually he about his girlfriend, who was waiting for him in Lisbon, and I about the different love adventures I faced on a monthly basis, and perhaps that's why, even if for almost opposite reasons, we never had a quiet mind and the conversations lasted a lifetime. Often, the chat was more like a therapy session for both of us. I, with my carefree spirit, helped him to distance himself from what wasn't within his reach, and he, with his older mind and undoubtedly wiser and more experienced than mine, filled me with good advice that helped me to keep my feet on the ground. In this way, we ended up becoming colleagues. Let me remind you that Budapest takes place in the first week of December, and my friendship with Maikel began in mid-October. In November, my hermano - as we started calling each other after almost a month - decided to invite me to the Portuguese Language Film Festival, which was to take place in the Hungarian capital from the ninth to the thirteenth of the following month. Featuring Portuguese, Brazilian and Angolan films, it was bound to be a very promising event for my colleague from Venezuela, as there would be some great directors there and this could be his chance to have more contact with one of them. Following this line of argument, Maikel only really managed to convince me when he told me that he would buy the photos I'd take of the event and, in addition - this part was quite convincing, I must stress - he would offer me one of the Cohibas that his friend from Venezuela regularly got from a Cuban cousin and sent every other month to Maikel, who used to sell them to me for no less than fifty euros. Each. Absurd, I know. So I went. By the way, I notice that not much has changed, the paragraph proved to be too long and my issue with promises is still bad.

    So let's go back to the time we were in before this unnecessarily long allegory about the past. Now that we're familiar with each other, it's time to reveal that once again, on this crazy day I was having, my trance was broken, causing me to break out of the vicious cycle I was in with the glass and spill the rest of my drink on the table. The culprit had been Maikel, who had found me, God knows how, at that bar table. The lively aspiring filmmaker arrived messing up my hair from behind and, with a captivating tone of animation, sat down in the chair opposite me, completely soaked by the rain that had intensified in the city. He spent a few long minutes there telling me about his talks with the event's producers, which had lasted until that moment. It was almost midnight, I might add. I admit that I could understand very little of what he had told me in that late-night chat, but one thing I remember well: an Angolan director had taken his phone number and that was enough to turn him into an unstoppable serotonin-producing machine. It was quite comical. I was happy too; soon he bought us another shot of palinca and we carried on talking. It was almost one in the morning when, in the midst of the night's excitement, marked by laughter, the most diverse topics and contagious euphoria, I felt my cell phone vibrate in my pants pocket. I looked at the message and Maikel clearly noticed that it had touched me in a good way, that's for sure; that smile of mine at the corner of my face, which revealed my left dimple, wouldn't allow me to say otherwise. I looked at my cell phone, looked at him again, and that's how we knew everything. He just asked me: "Is that her?" and I, visibly uneasy, just nodded my head. Maikel laughed in front of me and then, almost as if in a celebratory gesture, he filled our glasses and turned the palinca over at once. I did the same, of course. Having very quickly said goodbye and paid my share of the bill, I left, wobbling around the tables of the bar, excited, with a clear direction, and happy. Oh, how happy I was. Just before I disappeared from sight, I heard Maikel shout: "Goza un puyero!", which used to be his classic phrase for any situation involving greater emotion. I didn't even have to turn around; my laughter, already a little under the influence of the drink, was heard around the block, and I know that my colleague laughed too, excited for me. I accepted the rain that was consuming me and carried on. 

    You could see that at that moment any possible melancholy, state of reflection, depth of life, sadness, or even the slightest of worries had vanished from my body. Perhaps that was the power of the rain that fell on Pest. Maybe it was the hormones. Yes, it was probably the hormones, really. In any case, I hope you've been patient, attentive reader, because the excitement of the moment has, time and again, consumed me to this day; my fingers take over the work, I keep hammering away at the little white letters on the keyboard and, the next thing I know, I've failed you. Depending on the nature of the person reading now, I have fed a hungry curiosity. But please don't get bored, because I'm already about to explain what happened to me.

    It's true, I neglected to tell you about my week in Hungary. I focused too much on the end and left you short of information. But such carelessness isn't all bad, trust the writer of this confusing and long memo. Yes, I ate a lot, drank even more, talked to a lot of people whose nationalities I can no longer remember; I laughed a lot, I had fun like I hadn't had in a while and, without a doubt, I watched a lot of movies. I'll tell you right now that I don't know a thing about cinematography. The movies were good, yes, I thought so, but I can't give you the technical details. Understand, dear reader: the enjoyment of a good trip and a cigar was the only thing that got me there. The movies were a bonus. But for now, I promise I won't dwell on that. I lie! It was at a specific screening, the first of the festival, "Njinga - Queen of Angola", that I met Louise. French, with long, slightly wavy hair, beautiful, stunning, striking, captivating, with so many characteristics that they are almost indescribable, because I don't have enough linguistic repertoire to provide you with an exact representation of what that beautiful was. Her hair was warm brown color like; like a redhead, but slightly darker - No! Enough! I'll end this sad attempt at a hair description here, as I won't be able to explain all that wonderful complexity. Louise was charming, hot in her own right, wearing flashy clothes that proved to be a trap for a young man as addicted to falling in love as I was. Louise was older, she must have been 25, and I was still in my 20s. Louise looked at me in a certain way, held me in a certain way, bit those big lips of hers, marked by a red lipstick that made even me, who didn't like red very much, want to see myself completely stamped by that scarlet. It was pure temptation, lust, passion, madness. Louise baffled me. For me, the first day of the screening had the color, face, name and smell of Louise. About the movie? I can't remember a thing about it. 

    This platonic love - yes, platonic, because Louise left me wanting for the entire festival - consumed me in a way that was so deep, intense, savage, corrosive... But also vigorous, scorching, fiery and ravishing, which kept me entertained for the whole week. It was a mixture of expectation and disappointment. She turned me on and then off. She would ignite me with a look, then smother me with a gesture. Louise was the main actress at my film festival. Oh, how she was!

    Now do you understand, patient reader, why this story starts off in a rather gloomy way? I was disappointed! The festival was over and Louise didn't even say goodbye, she didn't allow me to venture into that unparalleled beauty that was compressed into a height of one meter sixty-seven. I wanted the kisses, the bites, the laughter, the sighs, I wanted to be part of that separate spectacle. Oh, I wanted so much! 

       It wouldn't surprise anyone if I revealed that, yes, it was indeed her message. Louise, the Frenchwoman who spoke basic Spanish, danced the tango, loved hot afternoons at the foot of the Rhine and was a fan of curd ice cream with fig syrup - I'm adding these details now, which had been lost in the midst of all the excitement caused by writing down these memories. That woman had remembered me! She was the one who made me jump through the soggy streets of Budapest. She'd asked me to visit her hotel room, have a glass of cheap wine - Mont Blanc. Bad. - and practice her Spanish. "All this at one o'clock in the night on a rainy Friday?", wonders you, attentive reader? Silly I might have been, innocent not so much! It was a good night. And it was with Louise! Yes, Louise! Oh, I couldn't believe it, Louise...!

    Already a little breathless, I arrived at the hotel of my French-speaking muse. I'll tell you that I can't remember the name of this dump of a place - and I say dump because it truly had a bad sense of decoration and sloppiness that I'd never seen before - which had shocked me so much that if I asked any of the three or so people who were in the lobby at the time, they would describe me as a silly cockroach, looking at the dilapidated furniture, staring at the old, torn carpet and with a crooked nose as I analyzed the four corners of the room. After the shock wore off, I checked with the boy at the counter and soon, fortunately, reached the door of room 1002B. I knocked excitedly. The time before I was answered must have taken about 10 seconds, interspersed with a faint "J'arrive!", but for me, Beethoven's fifth symphony was able to play uninterruptedly in my mind for long minutes as I stared at that golden doorknob with its fleur de lis detailing, dreaming of the moment when it would move, giving me the entrance pass to the most awaited session of the week.  

    The door opened! Louise was there, wearing a black robe with silver sparkles. The room was very nice, but simple, with a huge wooden bed in the middle and a cinematic view from the window behind it. I found myself, for a moment, motionless on that carpeted floor, stunned by the scene before me. It was Louise surrounded by the most beautiful view of Budapest I had ever come across. The golden lights of the city highlighted the beauty of that woman, who, thanks to that robe, blended into the undulating beams of light that could be seen on the Danube, interspersed with the raindrops that painted a beautiful post-modern picture - and I say that because it was so complex that it needed no specific method, it was unique - on the window. I came out of my trance, grabbed Louise and threw myself into the path of happiness. "C'est la vie", no?

    Hours later, I found myself naked, sitting on the edge of the bed. That scarlet woman, who had lived in my mind throughout this festival, was now in deep sleep, wrapped in that huge comforter that wrapped around my torso. Right there, no longer so charming. It passed. As I lit my nightly cigarette, I turned my attention to the top of the huge window in that dark room. A descending drop then caught my eye. Whatever natural force detached it from the frame, it was enough to chart the course that tear would follow. It detached itself from a specific point, slipped quickly, bumped into another drop, resulting in a yellow beam glistening in my eye, only to unite and grow, gaining strength; then detaching itself again and taking another direction, all with a variable speed that made any attempt at prediction impossible, tracing the most chaotic path imaginable, bumping into so many other drops, until it met the lower frame, which, in fact, was its untransmutable destination from the beginning, thus facing its inevitable end, and dripping; dripping to who knows where, and turning into another element, wherever it fell. My vision blurs. I found myself moved, in the confines of a rainy Hungarian dawn, comparing my tiny existence, up until that point, to a drop of rain that had fallen on the window. "Perhaps I too am fated to bump into so many others, detaching myself and following my own chaotic path, until I find an end that, possibly, although it hasn't been mapped out yet, already has a well-defined ending," I thought as I wiped away the tear that had fallen on my arm. Now, dear reader, I find myself carrying this text of strong melancholy, and so I ask your forgiveness for yet another breach of promise. It's a problem I carry with me.

    Funny, isn't it? The impact a wet glass can have.









Comentários

  1. Simplesmente sensacional. Essa escrita permite que o leitor consiga sentir o ambiente e o contexto da história de perto e isso é genial!

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    1. Pô, me envaidece demais saber que conseguiu sentir tudo isso através do texto. Valeu, Torinha :)

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    1. Fico feliz em saber que consegui te transportar junto comigo, Célio. Abraços!

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  3. Bem interessante seguir a linha do seu pensamento… em um texto que flui e conduz ao inesperado… com riqueza de detalhes e conteúdo.
    Muito bom de ler e imaginar….

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