Sra. Cattaneo.
Geovanna Cattaneo foi mulher, esposa e mãe. Dos conhecimentos da vida, tinha muitos; e os levava consigo, revestidos sob um domo dourado - como o colar que carregava, desde muito antes das cores serem inventadas -, forte e imponente, sendo por vezes confundido, pela percepção daqueles que pensavam que a conheciam, com impaciência e brutidão.
Aos seus cinquenta e três anos, ou cinquenta e três primaveras, como preferia referir-se - talvez por vaidade, talvez por graça -, os pensamentos de Geovanna transbordavam, lotando a mais vazia das salas com as suas dúvidas e incertezas. "L'amore", dizia, ao permitir vazar, pelo canto da boca, o seu resquício de sangue italiano, foi das maiores insatisfações que vivenciara em sua vida. Havia aprendido que o amor vinha da família. Lá nunca teve boa relação com os pais. Outrora, lhe disseram que o amor de homem é elixir capaz de reerguer uma mulher. Aos cinquenta e um, enfrentou divórcio movido por indiferença de seu companheiro. Mas, haviam lhe dado a certeza de que o amor vinha dos filhos. Sim, ela amava-a, mas a maneira de sua filha em preparar afeto não tinha lá o gosto que Geovanna imaginava que o amor tinha. Doce, triunfante, verdadeiramente sápido e cítrico também, tudo na medida certa, era esse o sabor do amor de Geovanna.
Dona Cattaneo, como meus filhos costumavam referir-se à mesma, veio passar o feriado em casa minha, em Artigas, ao norte do Uruguai. Fazia frio, época de geada, em que os casacos se mesclam com o corpo, e cada espirro vem atrelado a um apelo divino para afastar o menor dos resfriados. Tal visita foi necessária. Geovanna, sim, estava doente, da cabeça e dos sentidos; "L'amore,", gemia melancólica, "se é isso mesmo, fui enganada minha vida toda. Ou enganei-me. Pouco importa. Estou mal", dizia a mim, repetidas vezes, durante nossas longas conversas, sentados, juntos e virados para o sol, no quintal. Era verdade, Geovanna não sabia o que era amor, pois sua visão de amor não condizia com aquilo que experimentou por toda sua vida. Sentia dificuldade em consolá-la, pois no fundo eu sabia exatamente o gosto daquilo que minha amiga jamais experimentara. Sabia com cada papila gustativa da minha língua e com toda a fibra do meu coração.
Dava-me desgosto, admito. Sua filha era soberba, impaciente e desdenhava da mãe, tudo isso com um ar muito gracioso, confundindo os espectadores, que achavam graça. Talvez a menina fosse jovem por demais; de todo modo, Geovanna não merecia o tratamento. A filha também alimentava desgosto pelo pai, nunca havia conhecido o avô, e durante toda a sua vida, nunca soube distinguir o afeto, a carência e a dependência. Essa realidade não se parecia nada com as histórias que Geovanna cresceu lendo em Sorrento, sua cidade natal. Seu rosto cada vez mais se amargurava.
Como amigo de longa data, me doía muito tudo aquilo. Conversava incansavelmente com Geovanna, dia sim, e dia sim, de novo. Suas angústias chegavam a mim como novelos de lã, por anos enroscando-se profundamente; eu era incapaz de ajeitá-los. Por vezes, um nó ou outro era desfeito, mas o novelo de Geovanna, assim como tudo em sua vida, não era comum, era infinito.
Surpreendentemente, durante sua estadia em minha casa, Geovanna parecia revigorada. Mesmo adultos, pegávamo-nos como jovens, deitados, cada um virado em uma ponta do sofá, rindo, deleitando-se e trocando incontáveis histórias juntos. Me fazia bem. Fazia bem à Geovanna. É raro, com a nossa idade, preservar amizades tão juvenis como essa.
Um dia, jogávamos baralho, incessantemente, juntamente com nossos filhos, madrugada a dentro, ouvindo música, encasacados, e aquecendo-nos também com risadas. O rádio, que tocava bravamente ao longo de toda noite, questionou-a, quase que despercebido por mim; completamente imperceptível para os jovens, mas capaz de perfurar a mente de Geovanna. No meio do alvoroço, em inglês, a pergunta se espalha pelo salão: "Are you ready for love?", na voz do britânico piegas, Elton John. Depois disso, vi uma cena que me doeu profundamente; dores dessas que remédio nenhum sara, e jamais sarará. Geovanna perdeu-se. Tal música, que sempre fora animada aos nossos ouvidos, era agora motivo de choro. Seus olhos foram-se. Segurei em sua mão, acariciei-a, levemente, e chamei sua atenção para o jogo. Geovanna seguiu, mas a pergunta somou-se com o veneno da insegurança, que corria em suas veias italianas, e chegando ao fim do jogo, sua face sucumbiu ao medo.
Talvez Geovanna nunca tenha sabido o que foi o amor. Ao menos não a sua ideia de amor. Mas eu a amei. Foi a maior das amigas que tive. Possivelmente, partiu sem apreciar o gosto d'amore, mas sei que tive a sorte de experimentar um pouquinho dessa receita tão única que ela, sem nunca ter se dado conta, distribuía consigo, por onde andava.
Depois de sua visita a mim, em Artigas, o último encontro com Geovanna Cattaneo foi em seu sepultamento, 4 anos depois. Morreu de morte morrida mesmo. Foi o que disseram-me. 15 de Julho de 1996; para sempre o dia em que parte da vida perdeu o palato triunfante, e amargou-se. Geovanna apresentava, petrificado agora, o mesmo olhar daquela noite, entregue ao terror. Dei-lhe um último beijo, e, até hoje, espero ainda que tenha sido capaz de fazê-la sentir, por fim, o gosto da única lágrima que derramei naquele dia, que os juro, não era salgada, mas sim
doce.
En Castellano:
Geovanna Cattaneo fue mujer, esposa y madre. De los conocimientos de la vida, tenía muchos; y los llevó consigo, revestidos bajo una cúpula dorada - como el collar que portaba, mucho antes de que se inventaran los colores -, fuertes e imponentes, siendo a veces confundido, por la percepción de quienes creían conocerla, con impaciencia y brutalidad.
A sus cincuenta y tres años, o cincuenta y tres primaveras, como prefería decirse a sí misma -quizás por vanidad, quizás por gracia-, los pensamientos de Geovanna se desbordaron, llenando las habitaciones más vacías con sus dudas e incertidumbres. "L'amore", decía, mientras dejaba escapar por la comisura de su boca un rastro de sangre italiano, era una de las mayores insatisfacciones que había experimentado en su vida. Había aprendido que el amor venía de la familia. Allí nunca tuvo una buena relación con sus padres. Una vez la dijeron que el amor de un hombre es un elixir capaz de levantar a una mujer de nuevo. A los cincuenta y un años, se enfrentó al divorcio por la indiferencia de su pareja. Pero le habían dado la certeza de que el amor sí viene de los niños. Sí, la amaba, pero la forma en que su hija preparaba el afecto no sabía exactamente como Geovanna imaginaba que sabría el amor. Dulce, triunfante, verdaderamente sápida y también cítrica, todo en su justa medida, ese era el sabor del amor de Geovanna.
Doña Cattaneo, como la llamaban mis hijos, vino a pasar las vacaciones a mi casa, en Artigas, al norte de Uruguay. Era la estación del frío, de las heladas, cuando los pelajes se confunden con el cuerpo, y cada estornudo está ligado a un llamado divino para ahuyentar el más pequeño de los catarros. Tal visita era necesaria. Geovanna, sí, estaba enferma, tanto de la cabeza como de los sentidos; "L'amore", gimió melancólicamente, "si eso es lo que es, me han engañado toda mi vida. O me engañé. No importa. Estoy en mal estado", me dije, una y otra vez, durante nuestras largas conversaciones, sentados juntos y de cara al sol, en el patio trasero de mi casa. Era cierto, Geovanna no sabía lo que era el amor, porque su visión del amor no coincidía con lo que había experimentado toda su vida. Me resultó difícil consolarla, porque en el fondo sabía exactamente lo que mi amiga nunca había probado. Lo sabía con cada papila gustativa en mi lengua y cada fibra de mi corazón.
Me disgustaba, lo reconozco. Su hija era arrogante, impaciente y desdeñosa con su madre, todo eso con un aire muy agraciado, confundiendo a los espectadores, que lo encontraban divertido. Quizás la niña era demasiado joven; de todos modos, Geovanna no se merecía el trato. A la hija también le desagradaba su padre, nunca había conocido a su abuelo, y a lo largo de su vida nunca supo distinguir entre afecto, necesidad y dependencia. Esta realidad no se parecía en nada a las historias que Geovanna creció leyendo en Sorrento, su ciudad natal. Su rostro se volvió cada vez más amargo.
Como amigo de toda la vida, me dolió mucho. Hablé incansablemente con Geovanna, día tras día, otra vez. Sus ansiedades me llegaron como ovillos de lana, enredándose profundamente durante años; No pude arreglarlos. A veces, se deshacía un nudo u otro, pero el ovillo de Geovanna, como todo en su vida, no era común, era infinito.
Sorprendentemente, durante su estadía en mi casa, Geovanna parecía renovada. Mismo adultos, nos pillábamos de jóvenes, tumbados, cada uno girado sobre un extremo del sofá, riendo, divirtiéndose e intercambiando juntos innumerables historias, me hizo bien. Era bueno para Geovanna. Es raro, a nuestra edad, conservar amistades tan juveniles como esta.
Un día, jugamos a las cartas, sin cesar, junto con nuestros hijos, hasta altas horas de la noche, escuchando música, con abrigos y también calentándonos con risas. La radio, que sonó con valentía durante toda la noche, la interrogó, casi desapercibida para mí; completamente imperceptible para los jóvenes, pero capaz de atravesar la mente de Geovanna. En medio del alboroto, en inglés, la pregunta se extiende por la sala: "Are you ready for love?", en la voz del cursi británico, Elton John. Después de eso, vi una escena que me dolió profundamente; dolores como ese que ninguna medicina cura, y nunca lo hará. Geovanna se perdió. Aquella música, que siempre había sido viva a nuestros oídos, era ahora motivo de llanto. Sus ojos se fueron. Tomé su mano, la acaricié ligeramente y llamé su atención hacia el juego. Geovanna la siguió, pero la pregunta se sumó al veneno de inseguridad que corría por sus venas italianas y, al final del juego, su rostro sucumbió al miedo.
Tal vez Geovanna nunca supo lo que era el amor. Al menos no tu idea del amor. Pero la amaba. Ella era la mejor de las amigas que tenía. Posiblemente se fue sin apreciar el gusto de amor, pero sé que tuve la suerte de probar un poco de esta receta única que ella, sin darse cuenta, repartía con todos por donde pasaba.
Luego de su visita a Artigas, el último encuentro con Geovanna Cattaneo fue en su entierro, 4 años después. La mismo murió de una muerte muerta. Eso es lo que me dijeron. 15 de julio de 1996; para siempre el día en que parte de la vida perdió su paladar triunfante, y se volvió amarga. Geovanna tenía, ahora petrificada, la misma mirada de aquella noche, rendida al terror. Le di un último beso y, hasta el día de hoy, sigo esperando poder hacerla sentir, por fin, el sabor de la única lágrima que derramé ese día, que te juro que no fue salada, sino
dulce.
In English:
Geovanna Cattaneo was a woman, a wife and a mother. She had a great deal of life's knowledge, and she carried it with her, clad in a golden dome - like the necklace she had been wearing since long before colors were invented - strong and imposing, sometimes mistaken for impatience and brutishness by those who thought they knew her.
At the age of fifty-three, or fifty-three springs, as she preferred to refer to herself - perhaps out of vanity, perhaps out of grace - Geovanna's thoughts overflowed, filling the emptiest of rooms with her doubts and uncertainties. "L'amore", she said, as she allowed her remnants of Italian blood to leak out of the corner of her mouth, was one of the greatest dissatisfactions she had experienced in her life. She had learned that love came from family. She never had a good relationship with her parents there. She had once been told that a man's love is the elixir that can lift a woman up. At fifty-one, she faced divorce due to her partner's indifference. But she had been assured that love came from her children. Yes, she loved her, but her daughter's way of preparing affection didn't have the taste that Geovanna imagined love had. Sweet, triumphant, truly savory and citrusy too, all in the right measure, that was the taste of Geovanna's love.
Mrs. Cattaneo, as my children used to refer to her, came to spend the holiday at my house in Artigas, in the north of Uruguay. It was cold, frosty season, when coats blend in with the body and every sneeze is accompanied by a divine appeal to ward off the slightest of colds. Such a visit was necessary. Geovanna, yes, she was ill, in her head and in her senses; "L'amore," she moaned wistfully, "if that's what it is, I've been deceived all my life. Or I've been deceived. It doesn't matter. I'm in a bad way" she said to me over and over again during our long conversations, sitting together in the backyard facing the sun. It was true, Geovanna didn't know what love was, because her vision of love didn't match what she had experienced all her life. I found it hard to console her, because deep down I knew exactly what my friend had never tasted. I knew it with every taste bud on my tongue and with every fiber of my heart.
It pained me, I admit. Her daughter was haughty, impatient and scornful of her mother, all with a very graceful air, confusing the onlookers, who thought it was funny. Perhaps the girl was too young; in any case, Geovanna didn't deserve the treatment. The daughter also disliked her father, had never met her grandfather, and throughout her life had never been able to distinguish between affection, need and dependence. This reality was nothing like the stories Geovanna grew up reading in her hometown of Sorrento. Her face became increasingly bitter.
As a long-time friend, I was very hurt by it all. I talked to Geovanna tirelessly, day in and day out. Her anguish came to me like balls of yarn, tangled for years and I was unable to straighten them out. Sometimes a knot or two would come undone, but Geovanna's skein, like everything else in her life, was not ordinary, it was infinite.
Surprisingly, during her stay at my house, Geovanna seemed invigorated. Even as adults, we found ourselves as youngsters, lying down, each on one end of the sofa, laughing, enjoying ourselves and exchanging countless stories together. It was good for me. It was good for Geovanna. It's rare, at our age, to preserve friendships as youthful as that.
One day, we played cards incessantly, with our children, into the late hours of the night, listening to music, wrapped up warm and laughing. The radio, which played bravely throughout the night, questioned her, almost unnoticed by me; completely imperceptible to the children, but capable of piercing Geovanna's mind. In the midst of the uproar, in English, the question spread through the room: "Are you ready for love?", in the voice of the cheesy Brit, Elton John. After that, I saw a scene that hurt me deeply; pain like that which no medicine can heal, and never will. Geovanna was lost. This music, which had always been lively to our ears, was now a reason to cry. Her eyes were gone. I took her hand, stroked it lightly and drew her attention back to the game. Geovanna followed, but the question added to the poison of insecurity coursing through her Italian veins, and as the game drew to a close, her face succumbed to fear.
Perhaps Geovanna had never known what love was. At least not her idea of love. But I loved her. She was the greatest friend I ever had. She may have left without enjoying the taste of love, but I know that I was lucky enough to try a little bit of this unique recipe that she, without ever realizing it, distributed with herself wherever she went.
After her visit to me in Artigas, the last time I met Geovanna Cattaneo was at her funeral, four years later. She really did die. That's what they told me. July 15, 1996; forever the day when part of life lost its triumphant palate, and became bitter. Geovanna now had the same petrified look in her eyes as in that night, filled with terror. I gave her one last kiss and, to this day, I still hope that I was able to make her finally taste the only tear I shed that day, which I swear was not salty, but
sweet.
Texto lindo demais!
ResponderExcluir:D
Excluirincrível!!
ResponderExcluirFico feliz que tenha lido, Najla :))
ExcluirMuito bom, filho!
ResponderExcluirObrigado pelo apoio, pai!
ExcluirMuito bom, garoto. Muito bonito.
ResponderExcluirObrigado pelo comentário!
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