São João del-Rei. (pt.1)
As badaladas da Pilar, como eu a chamava, já haviam feito sua solene - e bastante pomposa - apresentação que se dava por ouvir em toda a São João. Com isso, não de maneira outorgada eu ia mais rápido que o rio das Mortes em tempo de borrasca, almejando livrar-me de toda a cacarejada da Dona Abreu, senhora ainda moça que não poupava esforços para agradar seu marido, o qual um viajante que se encontrava pelo mundo fazendo lá eu sei o quê. Dona Abreu era mulher curiosa, um tanto perfeccionista e, se ao leitor importa de algo a opinião de moço desprovido de norte como aquele que aqui vos escreve, rabugenta demais para quem desabrochou não há muito. Todavia, dentre as muitas características em sua posse, lhe faltava em especial a paciência, virando facilmente onça para cima daquele que ousasse descumprir compromisso com a senhora. Não digo com orgulho, confesso, mas já tive de enfrentar tal fera num bocado de ocasiões pontuais ao longo dessa minha vivência.
Com as bochechas coradas, graças a ofegante respiração, assim me encontrava momentos antes de adentrar o limiar da residência do Visconde e sua esposa, onde a mesma, Dona Abreu, me aguardava já ao pé da mureta com as sobrancelhas acentuadas em forma de reprovação. E assim seguiu ao passo que eu me pretextava de forma tão pobre que nem mesmo o mais parvo dos parvos seria capaz de cair em tal jogo de palavras. Como já era esperado, tive de ouvir toda aquela insustentável cacarejada - assim gostava de referir-me - da Dona, que ameaçava escrever grande carta a Seu António, seu marido e o também conhecido Visconde do Marçal, homem rico, generoso, mas também demasiado impaciente, dizendo que recusar-se-ia a lecionar-me o latim, entre outras diversas baboseiras que meus ouvidos já sabiam de cor e salteado.
- "Acalme-se Dona Abreu", dizia eu receoso da resposta que viria a receber. "A senhora, melhor do que ninguém sabe que é difícil para mim, morador de Bonfim, chegar cá em Colônia do Marçal, ainda mais em horário como esse em que muitos dos pássaros ainda dormem e meu corpo clama pelo conforto de minh´ cama!" - acrescentei visando amenizar os visíveis ânimos já acalorados da fera.
-"Pouco importa-me e tu bem sabes disso, José! Se queres aprender latim que esforce-se para tal! Já não o vejo tão empenhado nas classes como era de costume e para piorar ainda enche-me de lorotas a tentar justificar-se. Mais uma destas e já não serás mais bem-vindo nesta residência durante a ausência de António. Espero que estejas bem avisado." - retrucava nervosamente Inês, assim chamava-se Dona Abreu, com seu sotaque lusófono bem acentuado, como era de costume quando se via tomada pelo estresse.
Adentramo-nos à casa, mas diferentemente das outras tantas vezes, Dona Abreu de fato não estava disposta a lecionar-me coisa alguma. Dizia que eu não germinava interesses por tópico algum, que vivia das merrecas que lucrava ao escrever meia dúzia de contos de qualidade questionável ao jornal popular e que não passava eu de um fanfarrão sem ambições, quaisquer que as fossem. Nem mesmo para vagabundo ou oportunista eu serviria! A verdade é que não havia sido essa a primeira vez com que havia me deparado com tal gênero de discurso, principalmente vindo de Dona Abreu. Mas dessa vez, as palavras atingiram-me de maneira díspar. Não pelo seu conteúdo em si, pois tudo aquilo eu já realmente sequer questionava tanto. O que me desconsertou foi, sem a menor das dúvidas, o tom de tristeza com que as palavras saíam da boca da Dona, as quais pareciam tingir todo o enorme salão com uma cor fúnebre e um tom extremamente melancólico. Algo não ia bem no círculo pessoal daquela que proferiu tais palavras, e para grande alcoviteiro como eu, era este um prato cheio para entreter-me por toda a semana.
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