Carta à Marta.

    Cedo ainda era quando cruzava, aflito, a Praça de Cagancha. As manhãs carregam consigo um ar leve que costumam me encantar, confesso. Creio que isso se dê devido ao fato de que não tenho o hábito de as vivenciar, então, quando assim faço, vejo um novo lado de Montevideo que certamente me fascina.

 Mas, dessa vez, o encanto tinha um saber amargo; estava eu tenso, com pressa - aflito, digo. Pensava ser resultado da má noite de sono que tive. Preguei os olhos às quatro e dezenove da manhã, isso dito de modo consciente, pois meu relógio de cabeceira foi minha única companhia noturna. Recordo-me bem de finalmente adormecer quando o ponteiro dos minutos quase sobrepôs-se perfeitamente sob o ponteiro das horas. A insônia por vezes me alcança, isso é um fato, mas esta noite a rua fazia-se distintamente barulhenta, mesmo incômoda. 

Acumulando um total de quatro horas de sono, meu relógio marcava nove horas e vinte e três minutos no exato momento em que acendia o terceiro cigarro. O fumo me traz a falsa sensação de controle de algo, ou talvez me faça apenas lidar melhor com a incontrolabilidade das consequências de minhas decisões. Ainda não estou certo, entenda. 

    O gosto amargo na boca e a sensação constante da queda de pressão sobressaíam-se nessa manhã. É assim no início dos meus dias ruins. Não por tratar-se de fato comprovado, nem mesmo por meus dias serem geralmente maus, não, isso não seria de todo verdade, devo reconhecer. É apenas uma coincidência - penso eu - que costumo assumir como verdade imutável. De todo modo, o que sei é da súbita vontade de tomar um café quando isso me ocorre; vêm com a falsa promessa, na minha mente, de curar o mal-estar dos cigarros matinais. Mas, a resposta de tal auto-sabotagem costuma ser apenas picos de ansiedade, sim. Enfim, assim é o comportamento auto-destrutivo daquele que perde o tato com o agora.

   Interrompendo meu quinto trago, um jovem moço que vendia jornais me para na Avenida 18 de Julio, agarrando meu braço, com um olhar profundo, que me fez o encarar, curioso, sim; quase anulando a leve irritação que senti ao ser abordado dessa forma. 

- Não tenho interesse, amigo - Digo, apressado, levemente atordoado por se tratar da minha primeira interação social desde que levantei da cama. Não tinha tempo para entregar a um rapaz. Não fosse o dia de hoje, talvez a manhã tivesse me cativado a ouvir aquilo que o jovem, tão impacientemente, tentava me dizer. Por isso, me virei e segui, sem grandes remorsos.

   - Espere, por favor! - Dizia o menino segurando a manga de minha camisa. Ao sentir aquele toque, uma raiva tomou conta de mim e me virei, com um ar verdadeiramente odioso.

- Sinto muito, senhor, mas preciso mesmo de ajuda. Esse é o último jornal que tenho de vender. Por favor! - suplicou o jovem garoto.

    Traguei fundo o cigarro. Fiz questão de baforar aquele fumo de Coronado na cara do rapaz, justamente para vê-lo incomodado. Encarei-o por cinco segundos e me acalmei. A pressa já tomava conta do meu corpo novamente, até que olho, de relance, a manchete daquele jornal, onde lia-se: "Bordaberry dissolve o Parlamento e suspende a Constituição", em sinistras letras garrafais. 

    Meu corpo gelou. Lia e relia aquela manchete incontáveis vezes, num espaço de três longos segundos. O menino, com um novo semblante no rosto, agora ocupando ele o papel de curioso, me apressava: "São 5 pesos, senhor. Por favor, é o último". Reforçava, com aquele tom de voz súplice que ecoava na minha mente, em transe nesse momento. 

    Sem retirar os olhos daquela capa de jornal, ornada com as imagens de homens trajados, podres e desprezíveis, busco por todos os bolsos que tenho por moedas. Sinto algumas em minha mão, não as conto, retiro-as de minha calça e estendo-as ao jovem. Eu seguia horrorizado pelo que lia. Quando finalmente retomei os sentidos, me senti sozinho, com medo. Não via mais o garoto.  Guardei aquele jornal, às pressas, apertei o passo, traguei fundo o resto daquele cigarro e me assustei: Montevideo havia perdido algo, e minhas mãos, ainda com a sensação do jornal entre elas, umedeciam, como resposta fisiológica esperada da tensão que sentia, dando-me a impressão de estarem sujas, mergulhadas em sangue.

    Ao contrário do que pôde subentender-se, não era eu cidadão de me envolver com política, não. Mantinha-me antenado nos assuntos, verdade. Sempre gostei de ler. Fossem colunas ou artigos, ouvir ao rádio era parte de minha rotina, sendo lei tê-lo por perto antes, durante e depois do jantar. Era quase um ritual. Sentia um dever de estar ciente do que acontecia na política de meu país, sendo participar ativamente da mesma outra seara já muito distante para mim. Mas não, não era apenas o fator de ser eu um uruguaio antenado que me levou da Terra ao Inferno naqueles instantes, claramente não. Se aquele menino tivesse me fitado no fundo dos olhos quando o entreguei as benditas moedas, os juro que o mesmo não teria visto apenas o medo materializando-se em um olhar. Não. Teria visto também Marta Carrato, condenada e estática, sofrendo nas amarras de minhas pupilas.

    Marta era cor. Marta era som. Marta era traço. De fato, Marta era arte. Marta, muitas vezes, pra mim, é como um quadro. Eu a pinto como desejo, a partir da forma como a vejo, ou como a quero ver, sim. Marta geralmente era ciano, ouvia-se melódica e traçava-se provocantemente. Mas Marta era muita coisa. Nunca coube no meu ateliê, confesso. Também, que a verdade seja dita: quando a conheci, não era eu possuidor de um grande ateliê. Ainda não tenho certeza se hoje o sou, veja bem. Sendo assim, retomo ao dizer que minha camaleoa agora via-se vermelha, grave e rabiscada. No momento do desespero, tudo era borrado. Sou assim, temo. A família Carrato, envolvida na política uruguaia, era oposição à Bordaberry. Mesmo a cerca de cinco quarteirões de distância, podia eu quase sentir o cheiro de sangue. Via-a em escarlate, sim. Temia muito naquele instante. Meus passos já não sentiam-se, apenas eram. Desespero tomava conta. E eu corria.

   Montevideo tornara-se sombria. Meus sentidos, neste percurso, dissiparam-se. Minha visão estava a cinco metros de mim, com ânsia de chegar a sua casa, ao passo que as pequenas lojas e as grandes árvores curvavam-se sobre a minha cabeça. O concreto do chão sentia-se mais frágil, as pessoas convertiam-se em borrões e o céu, por um momento, deixou de existir. Meu tato ansiava pelo teu rosto, indignado, empurrando o vento na esperança de te encontrar. Sentia o cheiro podre daquela manhã, cheiro ferroso, enjoadamente hemático, em cada um por quem eu esbarrava, desesperado e ensurdecido pelas minhas próprias mil 'pré-ocupações' que badalavam, ininterruptamente, de um modo verdadeiramente dolorido dentro da minha cabeça. Eu juro que podia sentir o gosto dos teus lábios naquele momento. Juro. 

   Ao chegar à Rua Gaboto, vi a casa de Marta. Ali se encontrava, como sempre esteve. Neste momento já estava eu aos prantos, a gritar por ela, enquanto recuperava os sentidos e concentrava-me em berrar e bater à sua porta, com um certo desespero notável. Mas, nada. Não obtive resposta. Olhei as janelas, fechadas. O portão da frente, trancado. Lembrei-me de procurar as chaves embaixo do vaso de planta esquerdo em frente à porta. Não estavam lá. Nesta hora, parei. Encontrava-me imóvel. Completamente estático, a olhar a maçaneta da porta, grande, dourada, frouxa e marcada com o rosto de um leão. Não soube o que fazer, é verdade. 

"Está morta", engasguei, em desespero. "Aqueles desgraçados a pegaram, eu tenho certeza. Imundos!", bradei só, enquanto andava em círculos. Eu precisava de informações, precisava entender o que de fato acontecia. Certamente, eu já sabia do perigo que existia, mas sempre fui um descrente. Marta me advertiu, explicou-me algumas quantas vezes sobre a situação política delicada que a sua família vivia. "Mas eu não imaginava que algo assim de fato aconteceria, compreende?", dizia eu, ao falar comigo mesmo, num pífio intento de me consolar a alma. Eu necessitava de respostas. O golpe já havia acontecido, a casa dos Carrato já não era nada, e eu estava parado, com lágrimas nos olhos e de estômago vazio. Ali me senti sozinho, pela segunda vez.

    Este talvez tenha sido o dia em que descobri o significado da palavra 'desespero'. Unido ao sentimento de solidão, precisava encontrar alguém naquele momento. Precisava de respostas, precisava de um ser capaz de me ouvir e dizer qualquer coisa que fosse, mesmo certo de que eu próprio não escutaria uma só palavra. Era incapaz. 

Assim, fui em direção ao apartamento de Jorge. Sujeito amargo, amigo e usualmente desocupado. Essas são as únicas descrições que sou capaz de dar agora, sinto. De todas formas, fui. Durante o caminho, havia eu metamorfoseado em uma criatura apática, um objeto andante, inexpressivo, pesado e gélido. O sol parecia querer me agredir, as vozes das pessoas me soavam fúnebres e cinzentas; era incapaz de mover meu olhar. Experienciei ali uma sorte de sentimentos obscuros; senti ódio daquele país, raiva daqueles indivíduos sujos, medo por Marta e, talvez o mais baixo de todos: senti pena de mim mesmo. Pena, sim, pois me sentia injustiçado, deixado de lado, sozinho, vulnerável e sem possuir sequer a mínima ideia de como resolver aquele pesadelo.  

    Depois de utilizar todos os meus esforços para chamar a Jorge, cujo interfone de casa encontrava-se avariado há 6 meses, chego em seu apartamento. Era um imóvel não muito grande, repleto de pequenos ornamentos e enfeites - dessas breguices pelas quais Jorge sempre se fascinou - com um ar um pouco escuro, empoeirado e verdadeiramente velho. Ao abrir a porta, depois de confundir-se entre os mais de 7 cadeados que guardavam aquele calabouço, sinto, antes mesmo de fitar seu rosto, um cheiro intenso de tabaco fundido com o ar empoeirado que saía de dentro. 

"Abri-te a porta já, veja bem! Poupe-me dos comentários maldosos e irônicos, homem", recepcionou-me ele com um ar levemente amigável, mas também sério. Era sua passivo-agressividade em estado mais pleno, sim. Em situações mais normais, teria eu dado uma resposta à altura, ou apenas feito os comentários de sempre e ignorado sua advertência prévia. Mas, naquele momento, isto não se deu. Encarei-o, calado por um tempo; entrecortando o silêncio com um humilhante "preciso de ajuda".

 Adentramos na sala, Jorge ofereceu-me um vinho e sentamo-nos em suas poltronas verdes, que encontravam-se sempre estrategicamente postas ao lado de uma pequena mesa, que possuía em sua superfície um grande cinzeiro dourado, tendo a forma de um caranguejo com suas garras abertas e ameaçadoras. Breguices, como bem adverti. Ao sentar-me, mal pude dizer qualquer coisa e desabei em choro. Talvez este tenha sido o primeiro dos meus erros naquele momento. O segundo, sem dúvida, foi não ter ido embora naquele mesmo instante. Jorge foi frio. Olhou-me nos olhos, enquanto fumava seu murcho cigarro, e mandou-me "parar de merdas", com um tom seco e impaciente, como nunca antes havia feito. Nesta hora, estive atônito. Encarei-o de volta, com um olhar certamente desagradável, e comecei a tentar explicá-lo a situação. Mal pude terminar e Jorge me cortou a fala, adiantou-me que não estava ele tão bem no momento também, assumindo-se, dissimuladamente, como incapaz de me ajudar, alegando precisar de um espaço próprio e finalizando, de maneira infeliz, com um comentário que me enfureceu profundamente. "...e além do mais, nunca lá fui também com a cara desta tal de Marta". Canalha. Levantei, fervente, agarrei aquele nojento crustáceo dourado e arremessei-o pela sala, atingindo um relógio na parede. "Você é baixo, sujo. Verme!", gritei em sua direção, enquanto olhava o seu rosto incrédulo, verdadeiramente atordoado. Saí, em passos largos, arrematando sua porta no processo. 

    Havia me permitido ao luxo da fragilidade. Acreditei piamente que haveria alguém capaz de me consolar naquele momento, mas não. Estava mesmo só, já que o dito amigo encontra-se fatalmente louco, ou apenas mostrava a sua verdadeira face. Andava agora nas ruas, substituindo a tristeza por raiva. Caminhava em direção à praça próxima de casa, para buscar um pouco de lucidez e me permitir apenas digerir aquele início de dia, que mais parecia fim de vida. 

Nas ruas, agora um pouco mais atento, percebia movimentos estranhos. Todos tinham jornais em suas mãos, ouvia-se muito burburinho, principalmente nos cafés e nas bancas. Era um sentimento de confusão, mesclado com medo e decepção. Aquela doença programada, que alastrava-se por toda a América Latina, havia realmente dado as caras no Uruguai. Lembrava-me de Marta, quando tachava-me de ingênuo, julgando a profundidade dos meus conhecimentos políticos, e dizia que era apenas questão de tempo, dizia mesmo que "aquelas grandes garras, escuras como a morte, eram tão grandes, mas tão grandes, que também alcançariam o sol dourado do sul, e banhariam o azul em vinho". Esta paixão de Marta pela política, seu conhecimento sobre o próprio país e suas impressionantes capacidades metafóricas me alucinavam, e eu, mesmo que nem sempre entendendo, amava ouvi-las. Essa, por um acaso, acabava de entender. 

    Agora, já sentado num banco na praça Juan Pedro Fabini, dava-me um outro luxo. Permiti-me respirar por um momento. Olhei para o alto, fitando aquele céu incolor, feio e sem graça, enquanto inspirava fundo, com força, um pouco de oxigênio. Dizem que isso alimenta o cérebro. "Curioso", pensei. Cedendo às súplicas do meu pescoço, decidi olhar à frente. Via muito verde, folhas caídas, guimbas de cigarro granuladas pelo chão e pássaros, que interagiam com aquele ambiente, exalando, despreocupadamente, toda a sua natureza de ser inconsciente; simplesmente ser. 

Percebo, e quase invejo, os seus movimentos em torno de um aglomerado de folhas mortas. Pulavam, alçavam pequenos voos, sustentados pelas suas patas tão desproporcionalmente pequenas e alavancados pelas suas asas tão desproporcionalmente grandes. 'Que criaturas mais disformes', pensei. Mas o que iniciou-se como uma observação inocente logo transformou-se em leve curiosidade. 

Já tinham uma pequena gangue formada por quatro pequenas aves, que pareciam esforçarem-se para destruir por completo aquelas folhas desinteressantes. Bicavam, piavam e giravam em torno daquele objeto indistinto, quase que de maneira desesperada. Não aguentei. Parei, pensei um pouco e olhei ao redor do parque. Não havia ninguém. Levantei, fui ver que artefato tão enigmático era esse, que me permitiu esquecer de tudo por um momento. Ao notarem a minha aproximação, aqueles quatro pequenos seres se dissiparam. Olhei para baixo e dei um pequeno pontapé na dita folha buscando revelar o que se escondia. Banhado em prata, pulseira em couro e cristal completamente partido; o que se revelara foi um relógio de pulso. Reparei nos vários pequenos cacos transparentes espalhados ao redor daquela cena, a qual eu analisava calmamente no meio de tanto caos. Era um relógio bonito, não fosse o estado em que se encontrara. Vi que os ponteiros não funcionavam e pensei na lástima que era, podia eu fazer bom uso de um daqueles. 

Continuei encarando com pesar aquele objeto, até que reparei que os ponteiros marcavam estaticamente quatro e dezenove. Arregalei os olhos e confesso que meu coração passou a palpitar mais forte. Lembrei-me da noite de sono péssima que tive, do dia caótico que levara, mas principalmente lembrei-me também do meu relógio-amigo e lembrei-me de casa. Percebi que não fazia ideia das horas, não sabia há quanto tempo estava fora e ao recordar-me disso, logo lembrei também da minha caixa de correio, cuja eu cometi o infeliz erro de não abrir hoje. "Más noites de sono de fato me destroem", pensei enquanto me despedia do objeto destroçado. 

    Ao retornar à casa, alimentando diversas promessas lúdicas que me aguardariam atrás daquela pequena porta de madeira retentora de mistérios, me iludia profundamente. Permitia-me subtrair todo o crescente alvoroço que parecia tomar conta de Montevideo ao longo do dia. Esquivava-me das multidões que passavam, marchava meus pés com pressa frente aos policiais, evitava o olhar com as viaturas militares que cruzavam as ruas e mantinha-me fixo na ideia triunfante de obter algum tipo de resposta ao chegar em casa. 

Acendi mais um cigarro, dei-o três tragos e o larguei. Minha visão turvou-se e lembrei-me da única refeição que fiz ao longo do dia: um ovo estrelado e uma fatia de pão logo antes de sair de casa. Lembrei também do infeliz Jorge. Me senti fraco, esforcei-me por não deixar cair na rua, tudo me desequilibrava e a calçada parecia girar à minha volta. Fechei os olhos, apertei ainda mais o passo e segui. Não pude aguentar. Segurei-me num poste, respirei por um tempo. Pus a mão em minha testa e percebi que suava, suava frio; estava nojento: meu cabelo ensopado e meu rosto sentia-se ensebado. Tive nojo de mim mesmo, me perguntava como havia-me deixado chegar a tal ponto. 

Durante este momento de recuperação física, mental e quiçá o único de lucidez que tivera até então, escuto uma porta abrir-se num pequeno casebre a cinco metros de mim. Desvio a minha atenção àquele evento, distraindo-me novamente, enfim. Vejo um jovem, talvez uns 10 anos mais novo que eu, creio. Segurava, em suas mãos, duas malas de couro, fechadas com pequenos cadeados cor de prata; já em seu rosto, segurava mesmo lágrimas. A mulher, à sua frente, cuja julgo dizer sua mãe, já havia falhado na segunda tarefa. Vejo-os despedirem-se, com forte pesar, e acompanho com o olhar aquele jovem menino entrar num carro e sumir. Some, em seguida, a senhora atrás daquela porta. O bater do metal me dispersou. Tudo parecia muito estranho naquele dia, sentia-me enlouquecer. Confesso que sucumbi à tristeza ao ver aquela cena, e utilizei-me deste sentimento para seguir em frente, esforçando-me para apenas olhar adiante e caminhar os dois quarteirões que me restavam.

    Ao chegar naquele pequeno prédio de quatro andares em que vivia, corri para as caixas de correio, que encontravam-se colocadas ao lado das escadas. Estas quais eu teria de enfrentar em breve para chegar ao meu apartamento. Ofegante, fucei os bolsos de minha calça e, com certo esforço, consegui pegar aquela minúscula chave que havia posto no fundo do bolso esquerdo, embaixo da minha carteira. Olhei bem o pequeno elemento metálico, dei um leve suspiro e comecei a abrir a irritante portinha de madeira. Ao lograr, meu coração pulou uma batida, os juro. Via ali, em cima de umas outras tantas cartas, um pequeno papel, branco, novíssimo, um pouco amassado e dobrado ao meio. Colocado ali às pressas, seguramente. Já não tinha apenas esperança, eu tinha certeza. Havia sido Marta. Desdobrei aquele maravilhoso papel e, agora, curioso leitor, vos transcrevo o que dizia tal carta, que guardo comigo até hoje:

"26/06/1973

Montevideo, Uruguay

Ao meu amor, 

Ao ler esta carta, espero que lembre-se do som que as ondas do mar faziam ao encontrar as pedras, no dia em que nos conhecíamos. Que a sensação de paz que vem à mim quando lembro deste fenômeno te tranquilize, assim como espero que me tranquilize em meio ao caos que viverei a partir de hoje. Se está lendo este bilhete, significa que logrei em deixá-lo à sua porta antes de ir-me nesta madrugada. 

Sabes que eu já lhe havia advertido deste momento desde que nos conhecemos. Sei que não me dava a devida atenção quando lhe advertia, mas compreendo serem cegueiras de amor. Essa cegueira hoje farar-se curar forçadamente diante de si, temo. Saio hoje em direção à Madrid, durante a madrugada, acompanhando meus pais no exilo político em que terão de se submeter. Não sei quanto tempo ficarei longe, apenas espero que seja breve. 

Encho-me de um certo sentimento de impotência ao escrever-te, uma vez que não posso te dar informações sobre onde estarei, nem como me contatar; e não o faço não por falta de vontade, mas pela razão de que eu mesma ainda não sei. Mas prometo-lhe que farei o que puder para mantê-lo comigo, e encontrá-lo. Ainda não sei como, mas te encontrarei, lhe juro. 

Vou-me agora, deixando parte de mim em Montevideo, em sua casa, em tua cama, em teus cabelos e em teu peito. Sei que jamais me completarei novamente, sem estas partes tão essenciais minhas que hoje fazem parte de quem sou. Quero que nunca te esqueças do meu beijo, dos meus abraços e das minhas palavras. Quando lhe chamava meu em meio ao teu quarto e teus braços, que mais se pareciam com o mundo inteiro, é verdade. 

Deixo-lhe como lembrança este bilhete, com este pequeno presente e este cheiro, que sempre me confessou que o apaixonara, meu amor.

Até logo,

Marta."

    Tal presente, cúmplice leitor, trata-se de uma única pétala murcha de girassol, colada com uma fita adesiva no canto inferior direito da carta; e o cheiro: seu perfume borrifado.. Vos juro que até hoje conservo tal resquício de flor e ainda sou capaz de sentir aquele odor, por mais que o evite fazer, pois não suporto o peso da memória sensorial, de todo. Vos pouparei da minha reação ao ler tal bilhete por primeira vez, pois creio que não faz-se difícil imaginar. Todavia, sinto que seria grande quebra terminar este conto sem dar-vos mais informações do que sucedeu após este evento.

    Verdadeiramente, creio que estaria mentindo se dissesse que passei menos de seis meses sentindo uma dor de perda, pontadas agudas no meio do peito e o desespero real de quem forçadamente livrou-se da cegueira, como Marta bem escreveu. Com o tempo, tive de esconder este bilhete, pois era incapaz de não relê-lo diariamente. Sim, os primeiros meses foram dignos de pesadelos. Tentei encontrá-la, buscar informações. Contatei diversas pessoas e perguntava sobre os Carratos aos quatro cantos de Montevideo, mas os que sabiam não tinham coragem de dizer uma sequer palavra; um número que fosse. Durante cerca de sete anos, não recebi nenhuma informação de Marta.

    Durante este tempo vivi, é verdade. Pois ainda padeço da condição imutável de ser humano. Vivi romances, saí às ruas, vi o sol nascer em outros endereços, chorei outras lágrimas e padeci de umas tantas outras dores que nem sempre diziam respeito à Marta. Segui trabalhando, criei uma nova rotina, passei a ouvir notícias de Madrid com mais atenção, e assim foi. Tive momentos em que odiei a doença que os apaixonados chamam de 'saudades', cuja me arrebatava. Em outros, amei estar doente. Seguiu-se assim: ela estava lá, mesmo não estando. Depois de um certo tempo, tive de aceitar a sólida realidade que se impunha diante de mim como uma muralha inquebrantável.

   Confesso agora que, apesar de ter sido capaz de manter a vida a seguir, implantei uma atividade nova à minha rotina. Na situação de não saber o paradeiro de Marta, não podia eu contentar-me, desde o início, em simplesmente manter tudo que estava dentro de mim reservado à mim. Precisei escrever. Com isso, a única solução lógica que encontrei foi escrever à Marta de qualquer modo. Escrevi incontáveis cartas ao longo destes anos e, na posição de não ter endereço fixo aonde enviá-las, segui quase semanalmente enviando-as à embaixada do Uruguai em Madrid, com a esperança de que um dia chegassem a ela. A última que escrevi, inconsolável leitor, transcrevo-a já:

"23/02/1985.

Montevideo, Uruguay

Carta à Marta,

Ainda te vejo pintada por luzes alaranjadas, como no dia em que verdadeiramente te conheci. Vejo-te no edredom amassado em minha cama, ao acordar. Sinto-te em meu peito quando só em minha casa. Faço-te presente quando padeço de saudades. Sonho com o dia em que estarei consigo uma vez mais.

Não sei se recebes estas cartas que te envio, incessantemente, e também não sei se tentas me escrever. Sei que guardo comigo os mesmos sentimentos com que me deixou, há doze anos. Conservo as partes tuas que deixastes aqui, espalhadas, com muito cuidado. Sempre. Seja na cadeira da sala em que costumava sentar-se, seja no modo em que meus dedos fluíam entre os seus cabelos. Ainda está tudo aqui.

Hoje, trago-lhe boas notícias, creio. Já não posso mais com essa vida no Uruguay. Nada é como uma vez foi, e talvez tenha levado mais tempo que desejara em me aperceber disto. 

Pois bem, ontem recebi notícia da empresa em que trabalho. Aceitei. Serei transferido para Madrid, em dois meses. A princípio, não soube muito bem como reagir a esta informação. Parte de mim queria pular de alegria, já a outra acanhou-se. Não sei como será explorar este novo Velho Mundo. Não sei se lhe encontrarei, nem sei se isso será possível. De todo modo, aí estarei. 

Queria, num alento de apaixonado, dizer-te que morreria de amor caso não a encontrasse. Mas a verdade é que após tantos anos, um homem acostuma-se. Sinto não ser tão melodramático como pedem as convencionais cartas de amor. Mas, apesar disso, ainda conservo também uma curiosidade em saber como todos estes anos te trataram, e se foram mais benevolentes contigo do que comigo. 

Por fim, queria dizer-lhe que estou muito animado com esses novos ares. E dizer-te ainda que espero lograr o jackpot uma vez mais ao estar na mesma cidade em que você.

Eu te levo dentro, até a raiz.

Com amor jovem,

Tomás Cruces"

Até hoje, aguardo resposta. 

 

En Español: 


    Aún era temprano cuando cruzé, ansiosamente, la plaza de Cagancha. Las mañanas traen consigo un aire ligero que suele encantarme, lo confieso. Creo que esto se debe a que no tengo la costumbre de vivirlas, entonces cuando lo hago veo una cara nueva de Montevideo que sin duda me fascina. Pero esta vez, el hechizo tenía un sabor amargo; estaba tenso, apurado, angustiado, digo. Pensé que era el resultado de la mala noche que tuve. Cerré los ojos a las cuatro y diecinueve de la mañana, lo digo conscientemente, ya que el reloj de mi mesilla de noche era mi único compañero nocturno, y recuerdo bien que finalmente me quedé dormido cuando el minutero se superpuso casi perfectamente a la manecilla de las horas. A veces me invade el insomnio, eso es un hecho, pero esta noche la calle estaba claramente ruidosa, incluso incómoda. Acumulando un total de cuatro horas de sueño, mi reloj marcaba nueve horas y veintitrés minutos en el momento exacto en que encendí mi tercer cigarrillo. Fumar me da una falsa sensación de control sobre algo, o quizás simplemente me hace afrontar mejor la incontrolabilidad de las consecuencias de mis decisiones. Todavía no estoy seguro, entiéndelo.

    El sabor amargo en la boca y la sensación constante de bajada de la presión sanguínea fueron prominentes esa mañana. Es así al comienzo de mis días malos. No porque sea un hecho comprobado, ni siquiera porque mis días sean generalmente malos, no, eso no sería cierto en absoluto, debo admitirlo. Es sólo una coincidencia - creo yo - que tiendo a asumir como una verdad inmutable. En cualquier caso, lo que conozco son las ganas repentinas de tomar un café cuando se me ocurren; en mi opinión, vengo con la falsa promesa de curar el malestar causado por los cigarrillos matutinos, pero la respuesta a tal autosabotaje suele ser sólo picos de ansiedad, sí. En última instancia, éste es el comportamiento autodestructivo de quienes pierden el contacto con el ahora.

    Interrumpiendo mi quinto trago, un joven que vendía periódicos me detuvo en la Avenida 18 de Julio, agarrándome del brazo, con una mirada profunda, que me hizo mirarlo, curioso, sí; casi anulando la ligera irritación que sentí al ser abordado de esta manera.

    - No me interesa, amigo - digo apresuradamente, un poco aturdido porque esta es mi primera interacción social desde que me levanté de la cama. No tuve tiempo de entregárselo a un niño. Si no fuera por hoy, tal vez la mañana me hubiera cautivado para escuchar lo que el joven, con tanta impaciencia, intentaba decirme. Entonces me di la vuelta y lo seguí, sin mucho remordimiento.

    - ¡Espere por favor! - Dijo el chico, sosteniendo la manga de mi camisa. Al sentir ese toque, la ira se apoderó de mí y me di la vuelta, luciendo verdaderamente odioso.

    - Lo siento señor, pero realmente necesito ayuda. Este es el último periódico que tengo para vender. ¡Por favor! - suplicó el joven.

    Di una profunda calada al cigarrillo. Me propuse inhalar el humo de Coronado en la cara del chico, sólo para verlo incómodo. Lo miré fijamente durante cinco segundos y me calmé. Las prisas ya volvían a apoderarse de mi cuerpo, hasta que eché un vistazo al titular de aquel periódico, que decía: "Bordaberry disuelve el Parlamento y suspende la Constitución", en siniestras letras negritas.

    Mi cuerpo se congeló. Leí y releí ese titular innumerables veces, en el espacio de 3 largos segundos. El chico, con una nueva expresión en su rostro, ahora haciendo el papel de curioso, me apuró. "Son 5 pesos señor. Por favor, es el último.", reforzó con ese tono de voz suplicante que resonó en mi mente, en trance en ese momento.

    Sin quitar la vista de esa portada de periódico, adornada con imágenes de hombres vestidos, podridos y despreciables, busco monedas en todos los bolsillos que tengo. Siento algunas en mi mano, no las cuento, las saco del pantalón y se las ofrezco al joven. Todavía estaba horrorizado por lo que leí. Cuando finalmente recobré la conciencia, me sentí solo, asustado. Ya no vi al niño. Guardé aquel periódico, apresuradamente, apuré el paso, di una calada profunda al resto de aquel cigarrillo y me asusté: Montevideo había perdido algo, y mis manos, aún con la sensación del periódico entre ellas, se humedecieron, como respuesta fisiológica esperada ante la tensión que sentía, dándome la impresión de que estaban sucias, bañadas en sangre.

    Al contrario de lo que se podría entender, yo no era ciudadano para involucrarme en política, no. Me mantuvía al tanto de las cosas, es cierto; Siempre me gustó leer, ya fueran columnas o artículos, escuchar la radio era parte de mi rutina y era ley tenerla cerca antes, durante y después de la cena. Era casi un ritual. Sentía el deber de estar al tanto de lo que pasaba en la política de mi país, pero ser un participante activo en el mismo campo, ya era muy lejano para mí. Pero no, no fue sólo el hecho de ser un uruguayo bien informado lo que me llevó de la Tierra al Infierno en esos momentos, claramente no. Si ese chico me hubiera mirado profundamente a los ojos cuando le entregué las benditas monedas, juro que no habría visto el miedo materializándose en una mirada. No. También habría visto a Marta, condenada, estática, sufriendo en las ataduras de mis pupilas.

    Marta era color, Marta era sonido, Marta era líneas. De hecho, Marta era arte. Marta, para mí, muchas veces es como un cuadro. La pinto, como quiero, según como la veo, o como quiero verla, sí. Marta era generalmente cian, se escuchaba melódicamente y se dibujaba provocativamente. Pero Marta era muchas cosas, nunca encajó en mi estudio, lo confieso. Además, la verdad es que cuando la conocí no tenía un estudio grande. Todavía no estoy seguro de tenerlo hoy, entienda. Por eso vuelvo a decir que mi 'camaleona' ahora se veía roja, seria y áspera. En el momento de desesperación, todo se volvió borroso. Así soy yo, me temo. La familia Carrato, involucrada en la política uruguaya, se oponía a Bordaberry. Incluso a unas cinco cuadras de distancia, casi podía oler la sangre, verla vestida de escarlata, sí. Tuve mucho miedo en ese momento. Mis pasos ya no se sentían, simplemente eran. La desesperación se apoderó de mi. Y corrí.

    Montevideo se había vuelto oscura. Mis sentidos, en este viaje, se disiparon. Mi visión estaba a cinco metros de mí, ansiosa por llegar a su casa, mientras los pequeños comercios y los grandes árboles se inclinaban sobre mi cabeza, el piso de concreto se sentía más frágil, la gente se convertía en borrones y el cielo, por un momento, dejaba de existir. Mi tacto anhelaba tu rostro, indignado, empujando el viento con la esperanza de encontrarte. Podía oler el olor podrido de esa mañana, un olor ferroso, nauseabundo y hemático, en todos los que encontraba, desesperado, ensordecido por mis mil "preocupaciones" que resonaban, ininterrumpidamente, de manera verdaderamente dolorosa dentro de mi cabeza. Juro que pude saborear tus labios en ese momento. Juro.

    Cuando llegué a la Rua Gaboto, vi la casa de Marta. Allí estaba, como siempre. En ese momento ya estaba yo llorando, llamándola a gritos, mientras recobraba el sentido y me concentraba en gritar y tocar su puerta, con cierta desesperación notable. Pero nada. No obtuve respuesta. Miré las ventanas; cerradas. La puerta principal; cerrada con llave. Me acordé de buscar las llaves debajo de la maceta izquierda frente a la puerta. Ellas no estaban allí. En este punto me detuve. Me encontré inmóvil. Completamente estático, mirando el pomo de la puerta, grande, dorado, suelto y marcado con la cara de un león. No sabía qué hacer, es verdad. "Ella está muerta", dije con desesperación. "Esos cabrones la atraparon, estoy seguro. ¡Sucios!", grité solo, mientras caminaba en círculos. Necesitaba información, necesitaba entender lo que realmente estaba pasando. Por supuesto, ya sabía el peligro que existía, pero siempre fui incrédulo. Marta me advirtió, me explicó un par de veces sobre la delicada situación política que vivía su familia. "Pero no me imaginaba que algo así realmente pasaría, ¿sabes?", dije hablando solo, en un débil intento de consolar mi alma. Necesitaba respuestas. El golpe ya había sucedido, la casa Carrato ya no era nada, y yo estaba parado, con lágrimas en los ojos y el estómago vacío. Allí me sentí solo, por segunda vez.

    Quizás este fue el día en que descubrí el significado de la palabra "desesperación". Combinado con el sentimiento de soledad, necesitaba encontrar a alguien en ese momento, necesitaba respuestas, necesitaba a alguien capaz de escucharme y decir cualquier cosa, aunque estaba seguro de que no escucharía una sola palabra. Era incapaz. Entonces, me dirigí hacia el apartamento de Jorge. Chico amargado, amigable y generalmente desocupado. Creo que esas son las únicas descripciones que puedo dar en este momento. Así que fui. En el camino, me había metamorfoseado en una criatura apática, un objeto andante, inexpresivo, pesado y frío. El sol parecía querer atacarme, las voces de la gente sonaban fúnebres, grises; No pude mover la mirada. Allí experimenté una variedad de sentimientos oscuros; Sentí odio por ese país, rabia por esos sucios individuos, miedo por Marta y, quizás lo más bajo de todo: sentí lástima de mí mismo. Es una pena, sí, porque me sentí agraviado, dejado de lado, solo, vulnerable y sin tener ni la más mínima idea de cómo solucionar esa pesadilla.

    Después de hacer todos mis esfuerzos para llamar a Jorge, cuyo intercomunicador de casa llevaba 6 meses averiado, llegué a su apartamento. Era una propiedad no muy grande, llena de pequeños adornos y decoraciones - esas cosas cursis que siempre fascinaron a Jorge - con un aspecto un poco oscuro, polvoriento y verdaderamente viejo. Cuando abrió la puerta, después de confundirse entre los más de 7 candados que custodiaban aquel calabozo, sentí, antes siquiera de mirarle a la cara, un intenso olor a tabaco fusionado con el aire polvoriento que salía del interior. "¡Abrí la puerta ahora, hombre! Ahórrame los comentarios maliciosos e irónicos.", me recibió él con un aire un poco amistoso pero también serio. Fue su pasivo-agresividad en su máximo estado, sí. En situaciones más normales, habría dado una respuesta adecuada o simplemente habría hecho los comentarios habituales e ignorado su advertencia previa. Pero, en ese momento, esto no sucedió. Lo miré fijamente, en silencio, durante un rato; intercalando el silencio con un humillante “necesito ayuda”. Entramos al salón, Jorge me ofreció un vino y nos sentamos en sus sillones verdes, que siempre estaban estratégicamente colocados junto a una mesita, que tenía en su superficie un gran cenicero dorado, con forma de cangrejo, con su boca abierta y amenazantes garras. Cursi, como advertí. Cuando me senté, apenas pude decir nada y rompí a llorar. Quizás este fue el primero de mis errores en ese momento. El segundo, sin duda, fue no haber marchado en ese mismo momento. Jorge fue frío. Me miró a los ojos, mientras fumaba su cigarrillo descolorido, y me dijo "dejáte de mierdas", con un tono seco e impaciente, como nunca antes lo había hecho. En ese momento, quedé atónito. Le devolví la mirada, con un aire ciertamente desagradable, y comencé a intentar explicarle la situación. No pude terminar cuando Jorge me interrumpió, diciéndome que él tampoco estaba muy bien en ese momento, asumiendo disimuladamente que era incapaz de ayudarme, alegando que necesitaba su propio espacio y terminando, lamentablemente, con un comentario que me enojó profundamente. "...y además nunca fui allí con esa tal Marta tampoco." Sinvergüenza. Me levanté furioso, agarré ese asqueroso crustáceo dorado y lo lancé por la habitación, golpeando un reloj en la pared. "Eres bajito, sucio. ¡Gusano!", grité en su dirección, mientras miraba su cara de incredulidad, verdaderamente atónita. Salí dando largas zancadas y derribando su puerta en el proceso.

    Me había permitido el lujo de la fragilidad. Realmente creí que habría alguien capaz de consolarme en ese momento, pero no. Realmente estaba solo, ya que dicho amigo está fatalmente loco, o simplemente estaba mostrando su verdadera cara. Ahora caminaba por las calles, reemplazando mi tristeza por ira. Caminé hacia la plaza cercana a mi casa, para buscar un poco de lucidez y permitirme apenas digerir ese comienzo del día, que más parecía el final de la vida. En las calles, ahora un poco más atento, noté movimientos extraños. Todo el mundo tenía periódicos en la mano y había mucho revuelo, sobre todo en cafés y quioscos. Era un sentimiento de confusión, mezclado con miedo y decepción. Esa enfermedad programada, que se está extendiendo por toda América Latina, realmente hizo su aparición en el Uruguay. Me acordé de Marta, cuando me llamó ingenuo, juzgando la profundidad de mis conocimientos políticos, y dijo que era sólo cuestión de tiempo, incluso dijo que "esas garras grandes, oscuras como la muerte, eran tan grandes, tan grandes, que alcanzarían también el sol dorado del sur, y bañaría el azul en vino". La pasión de Marta por la política, su conocimiento de su propio país y sus impresionantes capacidades metafóricas me alucinaban, y aunque no siempre las entendía, me encantaba escucharlas. Esta, por casualidad, acabo de entender.

    Ahora, sentado en un banco de la plaza Juan Pedro Fabini, me concedía otro lujo. Me permití respirar por un momento. Miré hacia arriba, mirando ese cielo incoloro, feo y opaco, mientras tomaba una profunda y fuerte bocanada de oxígeno. Dicen que alimenta el cerebro. "Curioso", pensé. Cediendo a las súplicas de mi cuello, decidí mirar hacia adelante. Vi mucho verde, hojas caídas, colillas esparcidas por el suelo y pájaros, que interactuaban con ese ambiente, exudando, descuidadamente, toda su naturaleza inconsciente; simplemente ser. Noto, y casi envidio, sus movimientos alrededor de un montón de hojas muertas. Saltaban, realizaban pequeños vuelos, sostenidos por sus desproporcionadamente pequeñas piernas y apalancados por sus desproporcionadamente grandes alas. 'Qué criaturas deformes', pensé. Pero lo que empezó como una observación inocente pronto se convirtió en una leve curiosidad. Ya tenían una pequeña pandilla formada por cuatro pequeños pájaros, que parecían estar esforzándose por destruir por completo esas hojas poco interesantes. Picotearon, gorjearon y dieron vueltas alrededor de ese objeto confuso, casi desesperadamente. No pude soportarlo. Me detuve, pensé un poco, miré alrededor del parque. No habia nadie. Me levanté y fui a ver qué enigmático artefacto era este, lo que me permitió olvidarme de todo por un momento. Al notar mi acercamiento, esos cuatro pequeños seres se disiparon. Miré hacia abajo, le di una pequeña patada a la hoja, tratando de revelar lo que estaba escondido. Bañado en plata, correa de cuero y cristal completamente roto; lo que resultó ser un reloj de pulsera. Noté los varios pequeños fragmentos transparentes esparcidos alrededor de esa escena, los cuales analicé con calma. Era un reloj precioso, si no fuera por el estado en el que se encontraba. Vi que las manecillas no funcionaban y pensé que lástima era, podría aprovechar una de esas. Continué mirando ese objeto con pesar, hasta que noté que las manecillas mostraban estáticamente cuatro y diecinueve. Abrí mucho los ojos y confieso que mi corazón empezó a latir más rápido. Recordé la terrible noche de sueño que tuve, el día caótico que había tenido, pero principalmente también recordé mi reloj-amigo y recordé mi casa. Me di cuenta de que no tenía idea de qué hora era, no sabía cuánto tiempo había estado fuera y cuando recordé eso, pronto también recordé mi buzón, el cual cometí el desafortunado error de no abrir hoy. "Las malas noches de sueño realmente me destruyen", pensé mientras me despedía del objeto destruido.

    Mientras regresaba a mi casa, albergando varias promesas lúdicas que me aguardarían detrás de esa pequeña puerta de madera que guardaba misterios, me sentí profundamente engañado. Me permitía restar todo el creciente bullicio que parecía apoderarse de Montevideo a lo largo del día. Esquivaba las multitudes que pasaban, marchaba a toda prisa delante de la policía, evitaba mirar los vehículos militares que cruzaban las calles y permanecía fijo en la triunfante idea de obtener algún tipo de respuesta cuando llegara a casa. Encendí otro cigarrillo, di tres caladas y lo dejé. Se me nubló la visión y recordé mi única comida de ese día: un huevo frito y una rebanada de pan justo antes de salir de casa. También me acordé del desgraciado Jorge. Me sentí débil, intenté con todas mis fuerzas no dejarme caer en la calle, pero todo me desequilibraba y la acera parecía girar a mi alrededor. Cerré los ojos, aceleré aún más el paso y lo seguí. No pude soportarlo. Me aferré a un poste y respiré un rato. Me puse la mano en la frente y me di cuenta que estaba sudando, estaba sudando frío; Era asqueroso, tenía el pelo empapado y sentía la cara grasosa. Me sentí disgustado conmigo mismo, me pregunté cómo había llegado a tal punto. Durante ese momento de recuperación física y mental y quizás el único de lucidez que había tenido hasta entonces, escuché abrirse una puerta en una pequeña choza a cinco metros de mí. Desvío mi atención hacia ese evento, distrayéndome finalmente nuevamente. Veo a un joven, tal vez 10 años menor que yo, creo; En sus manos sostenía dos maletas de cuero, cerradas con pequeños candados plateados; Ya en su rostro, intentaba sostenir las lágrimas. La mujer frente a él, que creo que era su madre, ya había fallado en la segunda tarea. Los veo despedirse, con mucha tristeza, y observo como ese joven sube a un auto y desaparece. Luego desaparece la dama detrás de esa puerta. El golpe de ese metal me dispersó. Todo parecía muy extraño ese día, sentí que me estaba volviendo loco. Confieso que sucumbí a la tristeza al ver esa escena, y aproveché ese sentimiento para seguir adelante, haciendo un esfuerzo por solo mirar hacia adelante y caminar las dos cuadras que me quedaban.

    Al llegar a ese pequeño edificio de cuatro pisos donde vivía, corrí hacia los buzones, que estaban colocados al lado de las escaleras, que pronto tendría que afrontar para llegar a mi apartamiento. Jadeando, rebusqué en los bolsillos de mi pantalón y, con algo de esfuerzo, logré sacar esa pequeña llave que había colocado en el fondo de mi bolsillo izquierdo, debajo de mi billetera. Miré bien ese pequeño elemento metálico, di un leve suspiro y comencé a abrir esa molesta puertecita de madera. Cuando lo logré el corazón me dio un vuelco, lo juro. Vi allí, encima de tantas otras cartas, un pequeño trozo de papel, blanco, nuevo, un poco arrugado y doblado por la mitad, colocado allí, apresuradamente, con seguridad. Ya no sólo tenía esperanza, estaba seguro. Había sido Marta. Desdoblé aquel maravilloso papel y ahora, lector curioso, te transcribo lo que decía aquella carta, que conservo conmigo hasta el día de hoy:

"A mi amor,

Cuando leas esta carta, espero que recuerdes el sonido que las olas del mar hacían sobre las rocas, el día que nos conocimos. Que el sentimiento de paz que me llega al recordar este fenómeno te tranquilice, así como espero que me tranquilice a mí en medio del caos que viviré a partir de hoy. Si estás leyendo esta carta, significa que logré dejarla en tu puerta antes de irme esta mañana.

Sabes que ya le había advertido sobre este momento desde que nos conocimos. Sé que no estabas prestando la debida atención cuando te lo advertí, pero entiendo que es ceguera del amor. Esta ceguera será curada por la fuerza hoy ante ti, me temo, amor mío. Salgo hoy hacia Madrid, a primeras horas de la mañana, acompañando a mis padres en el exilio político que tendrán que sufrir. No sé cuánto tiempo estaré fuera, sólo espero que sea breve.

Me llena un cierto sentimiento de impotencia al escribirte, ya que no puedo darte información sobre dónde estaré, ni cómo contactarme; y no lo hago no por falta de voluntad, sino porque ni yo mismo lo sé. Pero te prometo que haré lo que pueda para mantenerte conmigo y encontrarte. Aún no sé cómo, pero te encontraré, lo prometo.

Me voy ahora, dejando una parte de mí en Montevideo, en tu casa, en tu cama, en tu cabello y en tu pecho. Sé que nunca volveré a completarme sin estas partes esenciales de mí que ahora son parte de quien soy. Quiero que nunca olvides mis besos, mis abrazos y mis palabras. Cuando lo llamé mío en medio de tu habitación y de tus brazos, que más se parecían al mundo entero, es verdad.

Te dejo esta nota como recuerdo, con este pequeño regalo y este olor, que siempre me confesaste que te encantaba.

Hasta luego,

Marta.

26/06/1973"

   Este regalo, lector cómplice, era un único pétalo de girasol marchito, pegado con cinta adhesiva en la esquina inferior derecha de la carta; y el olor: tu perfume rociado en medio de la carta. Les juro que hasta el día de hoy conservo ese resto de flor y todavía puedo oler ese olor, por mucho que lo evite, ya que no puedo soportar en absoluto el peso de la memoria sensorial. Les ahorraré mi reacción al leer una nota así por primera vez, ya que creo que no es difícil de imaginar. Sin embargo, siento que sería un gran descanso terminar esta historia sin brindarles más información sobre lo que sucedió después de este evento.

     En verdad, creo que mentiría si dijera que estuve menos de seis meses sintiendo el dolor de la pérdida, las punzadas en medio del pecho y la verdadera desesperación de quien se ve obligado a liberarse de la ceguera, como Marta bien escribió. Tuve que ocultar esta carta, ya que no podía no releerla todos los días. Sí, los primeros meses fueron una pesadilla. Intenté buscarla, buscar información, contacté a varias personas, pregunté por los Carrato en las cuatro esquinas de Montevideo, pero los que sabían no tuvieron el valor de decir una sola palabra; cualquier número que fuera. Durante unos siete años no recibí ninguna información de Marta.

    Durante este tiempo viví, es verdad. Porque todavía sufro la condición inmutable de ser humano. Viví romances, salí a la calle, vi salir el sol en otros domicilios, lloré otras lágrimas y sufrí muchos otros dolores que no siempre decían respeto a Marta. Seguí trabajando, creé una nueva rutina, comencé a escuchar con más atención las noticias de Madrid y ya estaba. Tuve momentos en los que odié la enfermedad que los amantes brasileños llaman 'saudades', que me arrastraba. En otros, me encantaba estar enfermo. Fue así: ella estaba allí, no estando. Después de un tiempo, tuve que aceptar la sólida realidad que se alzaba ante mí como un muro inamovible.

    Confieso ahora que, a pesar de haber podido mantener mi vida, introduje una nueva actividad en mi rutina. Ante la situación de no saber el paradero de Marta, no podía contentarme, desde el principio, con simplemente reservar para mí todo lo que había dentro de mí. Necesitaba escribir. Con eso, la única solución lógica que encontré fue escribirle a Marta de todos modos. Escribí innumerables cartas a lo largo de los años y, al no tener una dirección fija a la que enviarlas, seguí enviándolas casi semanalmente a la embajada de Uruguay en Madrid, con la esperanza de que algún día llegaran hasta allí. La última que escribí, lector inconsolable, la transcribo ahora:

"Carta a Marta,

23/02/1985

Todavía te veo pintada por esas luces naranjas, como el día que te conocí de verdad. Te veo en el edredón arrugado de mi cama cuando me despierto. Te siento en mi pecho cuando estoy solo en mi casa. Te hago presente cuando te extraño. Sueño con el día en que estaré contigo una vez más.

No sé si recibes estas cartas que te envío, sin cesar, y tampoco sé si intentas escribirme. Sé que llevo conmigo los mismos sentimientos con que tú me dejó hace doce años. Guardo las partes tuyas que dejaste aquí, extendidas, con mucho cuidado, siempre. Ya sea en la silla de la habitación donde solías sentarte o en la forma en que mis dedos pasaban por tu cabello. Todo sigue aquí.

Hoy te traigo una buena noticia, creo. Ya no puedo vivir esta vida en Uruguay. Ya nada es igual que antes y tal vez me llevó más tiempo del que me hubiera gustado darme cuenta de ello. Bueno, ayer recibí noticias de la empresa para la que trabajo. Yo acepté. Me trasladarán a Madrid en dos meses. Al principio no sabía muy bien cómo reaccionar ante esta información. Una parte de mí quería saltar de alegría, la otra era tímida. No sé cómo será explorar este nuevo Viejo Mundo. No sé si te encontraré, ni sé si eso será posible. De todos modos, estaré allí.

Quería, apasionadamente, decirte que me moriría de amor si no la encontraba. Pero la verdad es que después de tantos años un hombre se acostumbra. Lamento no ser tan melodramático como requieren las cartas de amor convencionales. Pero a pesar de esto, todavía tengo curiosidad por saber cómo te trataron todos estos años y si fueron más benévolos contigo que conmigo.

Para finalizar quería comentarte que estoy muy entusiasmado con estas cosas nuevas. Y decirte también que espero volver a sacarme el premio gordo estando en la misma ciudad que tú.

Te llevo hacia dentro, hasta la raíz.

Con amor joven,

Tomás Cruces"

A día de hoy sigo esperando una respuesta.


In English:

Letter to Marta.


    It was still early when I crossed the Plaza de Cagancha in distress. Mornings have a lightness about them that usually enchants me, I confess. I think this is because I'm not in the habit of experiencing them, so when I do, I see a new side of Montevideo that certainly fascinates me. But this time, the charm had a bitter aftertaste; I was tense, in a hurry - distressed, I mean. I thought it was the result of the bad night's sleep I'd had. I looked up at the clock at 4:19 a.m., that is to say consciously, because my bedside clock was my only nighttime companion, and I well remember finally falling asleep when the minute hand almost perfectly overlapped the hour hand. Insomnia sometimes gets to me, that's a fact, but tonight the street was distinctly noisy, even annoying, which certainly helped it. 

    With a total of four hours of sleep, my watch was striking nine hours and twenty-three minutes as I lit my third cigarette. Smoking gives me a false sense of control over something, or maybe it just makes me better at dealing with the uncontrollability of the consequences of my decisions. I'm not sure yet, you see. 

    The bitter taste in my mouth and the constant sensation of falling blood-pressure stood out that morning. It's like that at the start of my bad days. Not because it's a proven fact, or even because my days are generally bad - no, that wouldn't be true at all, I have to admit. It's just a coincidence - I think - that I tend to take for granted. In any case, what I do know is the sudden urge to have a coffee when it occurs to me; it comes with the false promise, in my mind, of curing the malaise of morning cigarettes, but the response to such self-sabotage is usually just spikes of anxiety, yes. In short, such is the self-destructive behavior of those who lose touch with the present moment.

   Interrupting my fifth puff, a young man selling newspapers stopped me on Avenida 18 de Julio, grabbing my arm with a deep look that made me stare at him, curious, yes; almost canceling out the slight irritation I felt at being approached in this way. 

- "I'm not interested, buddy," I said hurriedly, slightly stunned that this was my first social interaction since getting out of bed. I didn't have time to give to a guy. If it hadn't been for today, perhaps the morning would have enticed me to listen to what the young man was so impatiently trying to tell me. So I turned around and followed my path, without much remorse.

   - "Wait, please!" - The boy said, grabbing the sleeve of my shirt. When I felt that touch, a rage came over me and I turned around, looking truly hateful.

- "I'm sorry, sir, but I really need your help. This is the last paper I have to sell. Please!" - pleaded the young boy.

    I took a deep drag on my cigarette. I made a point of blowing that Coronado smoke in the boy's face, just to make him uncomfortable. I stared at him for five seconds and calmed down. The rush was already taking over my body again, until I glanced at the headline of that newspaper, which read: "Bordaberry dissolves Parliament and suspends the Constitution", in ominous block letters. 

    My body froze. I read and reread that headline countless times, in the space of three long seconds. The boy, with a new countenance on his face, now occupying the role of the curious one, hurried me along. "It's 5 pesos, sir. Please, it's the last one," he said in that pleading tone of voice that echoed in my mind, which was in a trance at that moment. 

    Without taking my eyes off that newspaper cover, adorned with images of rotten, despicable men in suits, I searched every pocket I had for coins. I feel some in my hand, I don't count them, I take them out of my pants and hand them to the young man. I continued to be horrified by what I was reading. When I finally came to my senses, I felt alone, afraid. I couldn't see the boy anymore.  I hurriedly put the newspaper away, took a deep drag on the rest of that cigarette and felt startled: Montevideo had lost something, and my hands, still with the feeling of the newspaper between them, were moistening, as an expected physiological response to the tension I was feeling, giving me the impression that they were dirty, soaked in blood.

    Contrary to what might be implied, I wasn't a citizen who got involved in politics. However, I always liked to read, whether it was columns or articles. Listening to the radio was part of my routine, and it was a law to have it on before, during and after dinner. It was almost a ritual. I felt a duty to be aware of what was happening in my country's politics, and taking an active part in it was another area that was already very distant to me. But no, it wasn't just the fact that I was an up-to-date Uruguayan what took me from Earth to Hell in that moment, clearly not. If that boy had looked deep into my eyes when I handed him the blessed coins, I swear he wouldn't have seen only fear materializing in a look. No. He would also have seen Marta, condemned, static, suffering in the grip of my pupils.

    Marta was color, Marta was sound, Marta was trace. In fact, Marta was art. Marta is often like a painting to me. I paint her, as I wish, from the way I see her, or how I want to see her, yes. Marta was usually cyan, melodic and provocatively drawn. But Marta was too much, she never fit in my studio, I confess. Also, let the truth be told: when I met her, I didn't own a large studio. I'm still not sure if I do today, you see. So I'll go back to saying that my chameleon lady was now red, serious and scribbled on. At the moment of despair, everything was blurred. That's me, I'm afraid. The Carrato family, involved in Uruguayan politics, was opposed to Bordaberry. Even five blocks away, I could almost smell the blood, I could see her in scarlet, yes. I was very afraid at that moment. My footsteps could no longer be felt, they just were. Despair took over. And I ran.

   Montevideo had become dark. My senses dissipated along the way. My vision was five meters away from me, eager to reach her home, while the small stores and large trees bent over my head, the concrete of the ground felt more fragile, the people became blurs and the sky, for a moment, ceased to exist. My touch yearned for her face, indignant, pushing the wind in the hope of finding her. I could smell the rotten smell of that morning, a ferrous, nauseatingly hematic smell, on everyone I bumped into, desperate, deafened by my own thousand 'pre-occupations' that were chirping non-stop in a truly painful way inside my head. I swear I could taste her lips at that moment. I swear it. 

   When I reached Gaboto Street, I saw Marta's house. The house was there, as it always was. But now I was in tears, screaming for her, while I regained my senses and concentrated on shouting and knocking on her door, with a certain remarkable desperation. But no one came. There was no answer. I looked at the windows, closed. The front gate, locked. I remembered to look for the keys under the plant pot left in front of the door. They weren't there. At this point, I stopped. I was motionless. Completely static, staring at the door handle, which was large, golden, flimsy and marked with the face of a lion. I didn't know what to do, it's true. "She's dead," I choked out in despair. "Those bastards got her, I'm sure of it. Filthy bastards!" I shouted to myself as I ran around in circles. I needed information, I needed to understand what was really going on. I certainly knew about the danger, but I had always been a non-believer. Marta had warned me, explained to me a few times about the delicate political situation her family was in. "But I didn't imagine that something like this would actually happen, you know?" I said, talking to myself in a feeble attempt to console my soul. I needed answers. The coup had already happened, the Carrato house was nothing, and I was standing there with tears in my eyes and an empty stomach. There I felt alone for the second time.

    This was perhaps the day I discovered the meaning of the word 'despair'. Together with the feeling of loneliness, I needed to find someone at that moment, I needed answers, I needed a being capable of listening to me and saying anything, even though I was sure I wouldn't hear a word myself. I was incapable. So I went to Jorge's apartment. Bitter, friendly and usually unoccupied. Those are the only descriptions I can give right now, I feel. So off I went. Along the way, I had metamorphosed into an apathetic creature, a walking object, inexpressive, heavy and icy. The sun seemed to want to hit me, people's voices sounded funereal, gray; I was unable to move my gaze. I experienced all sorts of dark feelings there; I felt hatred for that country, anger at those dirty people, fear for Marta and, perhaps the lowest of all: I felt sorry for myself. Pity, yes, because I felt wronged, left out, alone, vulnerable and without even the slightest idea of how to solve this nightmare.  

    After using all my efforts to call Jorge, whose home intercom had been broken for six months, I arrived at his apartment. It wasn't very big, full of little cheesy ornaments and decorations - the kind that Jorge has always been fascinated by - and it looked dark, dusty and really old. When he opened the door, after being confused by the more than seven padlocks that guarded the dungeon, I could smell, before I even looked at his face, an intense smell of tobacco fused with the dusty air coming from inside. "I opened the door for you now, look! Spare me the nasty and ironic comments, man," he greeted me with a slightly friendly but also serious air. It was his passive-aggressiveness at its fullest, yes. In more normal situations, I would have responded appropriately, or just made the usual comments and ignored his warning. But at that moment, it didn't happen. I stared at him, silent, for a while, breaking the silence with a humiliating "I need help". We entered the room, Jorge offered me a wine and we sat down in his green armchairs, which were always strategically placed next to a small table, which had a large golden ashtray on its surface, in the shape of a crab, with its claws open and threatening. Cheesy, as I warned. When I sat down, I could barely say anything and burst into tears. Perhaps this was the first of my mistakes at that moment. The second, without a doubt, was not leaving at that very moment. Jorge was cold. He looked me in the eye as he smoked his withering cigarette and told me to "cut the crap", in a dry and impatient tone, as he had never done before. At that moment, I was stunned. I stared back at him, with a look that was certainly unpleasant, and began to try to explain the situation to him. I barely finished and Jorge cut me off, telling me that he wasn't doing so well at the moment either, covertly assuming that he was incapable of helping me, claiming that he needed his own space and ending, unhappily, with a comment that deeply angered me. "...and what's more, I've never really liked this Marta". Bastard. I stood up, boiling, grabbed that disgusting golden crustacean and threw it across the room, hitting a clock on the wall. "You're low, dirty. Worm!", I shouted in its direction, while looking at its incredulous, truly stunned face. I stormed out, smashing his door in the process. 

    I had allowed myself the luxury of fragility. I firmly believed that there would be someone there to console me at that moment, but no. I was really alone, as this friend was either fatally insane, or just showing his true face. I was now walking the streets, replacing my sadness with anger. I was walking towards the square near my house, trying to find a bit of clarity and just allow myself to digest that beginning of a day, which seemed more like the end of my life. In the streets, now a little more attentive, I noticed strange movements. Everyone had newspapers in their hands and there was a lot of noise, especially in cafés and newsagents. It was a feeling of confusion, mixed with fear and disappointment. That programmed disease, which was spreading throughout Latin America, had really made its presence felt in Uruguay. I was reminded of Marta, when she used to call me naïve, judging the depth of my political knowledge, and said that it was only a matter of time, even saying that "those great claws, dark as death, were so big, but so big, that they would also reach the golden sun of the south, and bathe the blue in wine". Marta's passion for politics, her knowledge of her own country and her impressive metaphorical abilities were mind-blowing to me, and even though I didn't always understand them, I loved listening to them. This one, by chance, I just understood. 

    Now, sitting on a bench in Juan Pedro Fabini Square, I allowed myself another luxury. I allowed myself to breathe for a moment. I looked up at the colorless, ugly and dull sky, while I took a deep, deep breath of oxygen. They say it feeds the brain. "Curious", I thought. Giving in to my neck's pleas, I decided to look ahead. I saw lots of greenery, fallen leaves, cigarette butts littering the ground and birds interacting with the environment, nonchalantly exuding all their nature as unconscious beings; simply being. I noticed, and almost envied, their movements around a cluster of dead leaves. They jumped, they took small flights, supported by their disproportionately small legs and leveraged by their disproportionately large wings. 'What shapeless creatures,' I thought. But what began as an innocent observation soon turned into mild curiosity. They already had a small gang made up of four small birds, who seemed to be striving to completely destroy those uninteresting leaves. They pecked, chirped and circled that indistinct object, almost desperately. I couldn't stand it. I stopped, thought for a moment, looked around the park. There was no one there. I got up and went to see what this enigmatic artifact was, which allowed me to forget everything for a moment. As soon as they noticed me approaching, those four little beings dissipated. I looked down and gave the leaves a little kick, trying to reveal what they were hiding. Silver-plated, with a leather strap and completely broken crystal, what had been revealed was a wristwatch. I noticed the many small transparent shards scattered around the crystal, which I calmly analyzed. It was a beautiful watch, except for the state it was in. I saw that the hands didn't work and thought what a shame it was since I could make good use of one of those. I continued to stare at the object with pity, until I noticed that the hands were statically marking 4:19. I widened my eyes, and I admit that my heart was pounding harder. I remembered the bad night's sleep I'd had, the chaotic day I'd had, but above all I also remembered my watch-friend and I remembered home. I realized that I had no idea what time it was, I didn't know how long I'd been away and when I remembered that, I also remembered my mailbox, which I'd made the unfortunate mistake of not opening today. "Bad nights' sleep really destroy me," I thought as I said goodbye to the destroyed object. 

    As I returned to my house, indulging in various playful promises that would await me behind that small wooden mailbox retaining mysteries, I was deeply deluding myself. I allowed myself to avoid all the growing hustle and bustle that seemed to take over Montevideo throughout the day. I dodged the passing crowds, marched my feet hurriedly in front of the policemen, avoided glancing at the military vehicles that crossed the streets and remained fixed on the triumphant idea of getting some kind of answer when I got home. I lit another cigarette, took three puffs and put it down. My vision blurred and I remembered my only meal of the day: a fried egg and a slice of bread just before I left the house. I also remembered the unfortunate Jorge. I felt weak, I tried not to fall in the street, everything was throwing me off balance and the sidewalk seemed to be spinning around me. I closed my eyes, stepped even tighter and kept going. I couldn't keep going. I held on to a light post and breathed for a while. I put my hand to my forehead and realized that I was sweating, cold sweating; it was disgusting, my hair was soaked and my face felt soggy. I was disgusted with myself, wondering how I had let myself get to this point. During this moment of physical and mental recovery, and perhaps the only moment of lucidity I'd had so far, I heard a door open in a small shack five meters from me. I turned my attention to that event, finally distracting myself again. I see a young man, maybe 10 years younger than me, I think. He is holding two leather suitcases in his hands, locked with small silver padlocks, while holding tears in his face. The woman in front of him, his mother I think she was, had already failed in the second task. I saw them say goodbye, with great regret, and I watched as that young boy got into a car and drove away. Then the lady behind that door disappeared. The pounding of that metal door scattered me. Everything seemed so strange that day, I felt like I was going mad. I confess that I succumbed to sadness when I saw that scene, and I used that feeling to move on, trying to just look ahead and walk the two blocks I had left.

    When I arrived at the small four-storey building where I lived, I ran to the mailboxes, which were next to the stairs that I would soon have to take to get to my apartment. Gasping, I rummaged through my trouser pockets and, with some effort, managed to get hold of that tiny key that I had put at the bottom of my left pocket, underneath my wallet. I took a good look at the little metal element, sighed slightly and began to open the annoying little wooden door. As I reached for it, my heart skipped a beat, I swear. I saw there, on top of a few other letters, a small piece of paper, white, brand new, a little crumpled and folded in half, placed there in a hurry, surely. I no longer just hoped, I was sure. It had been Marta. I unfolded that wonderful piece of paper and now, curious reader, I'll transcribe for you what the letter said, which I've kept with me to this day:

"To my love, 

As you read this letter, I hope you remember the sound the waves made on the rocks the day we met. May the feeling of peace that comes over me when I remember this phenomenon reassure you, just as I hope it will reassure me in the midst of the chaos I will experience from today onwards. If you're reading this note, it means that I managed to leave it on your doorstep before I left this morning. 

You know that I had warned you about this moment since we first met. I know you didn't pay enough attention to me when I warned you, but I understand that you are blinded by love. That blindness will be forced out of you today, I'm afraid, my love. I'm leaving to Madrid at dawn today, to accompany my parents on the political exile they'll have to undergo. I don't know how long I'll be away, I just hope it's short. 

I feel a certain sense of helplessness when I write to you, since I can't give you any information about where I'll be, or how to contact me; and I'm not doing it because I don't want to, but because I don't know it myself. But I promise you that I will do what I can to keep you with me and find you. I don't know how yet, but I will find you, I swear it. 

I'm leaving now, leaving part of me in Montevideo, in your house, in your bed, in your hands and on your chest. I know that I will never be complete again without these essential parts of you that are now part of who I am. I want you to never forget my kisses, my hugs and my words. When I called you mine in the middle of your room and in your arms, which were more like the whole world, it's true. 

I leave you this note as a souvenir, with this little gift and this smell, which you always confessed to me that you had fallen in love with.

See you later,

Marta.       

26/06/1973"

    That gift, reader, is a single wilted sunflower petal, taped to the bottom right-hand corner of the letter; and the smell: her perfume sprayed in the middle of the letter. I swear to you that to this day I still have that remnant of a flower and I can still smell it, however much I avoid it, because I can't bear the weight of sensory memory at all. I'll spare you my reaction when I read that note for the first time, because I don't think it's hard to imagine. However, I feel it would be a great shame to end this story without giving you more information about what happened after this event.

    Truly, I think I would be lying if I said that I spent less than six months feeling the pain of loss, sharp pangs in the middle of my chest and the real despair of someone who has been forced out of blindness, as Marta rightly wrote. I had to hide this note, as I couldn't help but reread it every day. Yes, the first few months were nightmarish. I tried to find her, I tried to get information, I contacted various people, I asked all over Montevideo about the Carratos, but those who knew didn't have the courage to say a word, even a number. For about seven years I didn't receive any information from Marta.

    During this time I lived, it's true. For I still suffer from the immutable condition of being human. I lived other romances, went out on the streets, saw the sun rise at other addresses, cried other tears and suffered from many other pains that didn't always concern Marta. I carried on working, created a new routine, started to listen more carefully to the news from Madrid, and so it went on. There were times when I hated the illness that lovers call 'longing', which gripped me. At other times, I loved being ill. It went on like this: she was there, and also not there. After a while, I had to accept the solid reality that stood before me like an immovable wall.

   I confess now that, although I was able to keep going, I added a new activity to my routine. In the situation of not knowing Marta's whereabouts, I couldn't be content from the start with simply keeping everything that was inside me to myself. I had to write. So the only logical solution I found was to write to Marta anyway. I wrote countless letters over the years and, as I had no fixed address to send them to, I continued to send them almost weekly to the Uruguayan embassy in Madrid, hoping that one day they would reach her. The last one I wrote, inconsolable reader, I'll transcribe now:

"Letter to Marta,

23/02/1985.

I still see you painted in those orange lights, just like the day I really got to know you. I see you in the crumpled comforter on my bed when I wake up. I feel you on my chest when I'm alone in my house. I see you when I miss you. I dream of the day when I'll be with you once again.

I don't know if you receive these letters that I send you incessantly, and I don't know if you try to write to me either. I know that I keep the same feelings with which you left me twelve years ago. I keep the parts of you that you left here, scattered around, very carefully, always. Whether it's the chair in the living room where you used to sit, or the way my fingers flowed through your hair. It's all still here.

Today I bring you good news, I think. I can't live this life in Uruguay any more. Nothing is as it once was, and perhaps it took me longer than I wanted to realize this. Well, yesterday I received news from the company I work for. I accepted. I'm being transferred to Madrid in two months' time. At first, I wasn't sure how to react to this information. Part of me wanted to jump for joy, while the other shied away. I don't know what it will be like to explore this new Old World. I don't know if I'll find you, and I don't know if it will be possible. In any case, I'll be there. 

I'd like to tell you that I'd die of love if I don't find you. But the truth is that after so many years, a man gets used to it. I'm sorry I'm not as melodramatic as conventional love letters demand. But despite this, I'm still curious to know how time have treated you after all these years, and whether it has been more kind to you than to me. 

Finally, I wanted to tell you that I'm very excited about these new surroundings. And to tell you that I hope I hit the jackpot once again by being in the same city as you.

I carry you deep inside me, into my roots.

With young love,

Tomás Cruces"

To this day, I'm still waiting for a reply.










Comentários

  1. Cada escrita sua me relembra como você é incrível, meu amigo! Muito feliz em poder estar perto dos seus sentimentos através da sua criatividade expressa em palavras. Você vai continuar indo muito longe, sempre aqui pra comemorar suas aventuras!

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    1. Obrigado por sempre estar me acompanhando! Vamos longe, juntos! <3

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  2. Cada vez mais visceral! Muito bom, meu filho!

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