Mundo de Medrosos.

O medo talvez seja dessas coisas que consegue ser transversal a quase todos os seres sencientes. Como o prazer e o ódio, que tanto movem o mundo em meio a sua dualidade. Fatalmente, nos diz a biologia que o medo é uma variável interveniente entre diferentes conjuntos de estímulos, dependentes do contexto e capazes de gerar diferentes respostas comportamentais. Já a filosofia ‘sartreana’, explica que “Todos os homens têm medo. Quem não tem medo não é normal; isso nada tem a ver com coragem”, unindo-nos a todos num grupo de medrosos assumidos. Numa esfera mais pessoal, minha mãe sempre me alertou de que os medos estão sempre a um passo de nos alcançar e arrasar-nos e, por isso, nosso maior medo deveria ser ter medo. Explique-nos os biólogos, os existencialistas ou as progenitoras; no fim, todos sabemos da existência irredutível do medo. Nos é natural e, por vezes, pode nos moldar. Mas será que estamos tão cientes do quão presentes e ativos são os medos, os pavores e os terrores na sociedade em que compartilhamos?

Vivemos hoje, e julgo dizer que sempre, enquanto raça humana, com a existência do medo incrustado nas camadas mais profundas dos nossos seres, assim como nas instituições mais renomadas de nossos governos; ele está ali, de algum modo. “Ontem” mesmo, se levarmos em consideração a duração da história da humanidade, tivemos um exemplo claro de como o terror possui o poder de mudar o mundo. No dia 11 de Setembro de 2001, os Estados Unidos da América vivenciaram o episódio mais traumático da sua história recente. Os dois aviões que se chocaram contra as torres do World Trade Center, levaram consigo milhares de vidas, e deixaram enquanto legado uma mensagem de medo. Desde então, palavras como “terror”, “ameaça”, “medo”, “preocupação”, “terrorismo” e mais umas tantas outras, capazes de despertar pensamentos nefastos dentro de nós, tornaram-se cada vez mais comuns dentro do cotidiano. O “contra-terrorismo” tornou-se uma voz que não se calava, e a securitização da sociedade civil e internacional atingiu níveis jamais antes vistos. O século XXI nasce então traumatizado e assustado, vendo-se na necessidade de reformular algumas das suas bases e estruturas, fazendo com que a resposta imediata de muitos Estados fosse o aumento da securitização da esfera internacional, das viagens comerciais, dos sistemas de vigilância e proteção interna, tendo o terrorismo como novo inimigo definido. Por outro lado, já compreendemos que o medo nos abrange a quase todos, e portanto houve também uma resposta - mais orgânica do que qualquer outra coisa - da sociedade civil. Mas como isso se desenvolveu?

Não surpreenderia a mim se já na idade da pedra houvesse um indivíduo que “jurasse de pés juntos” que os mamutes nada mais eram que outros neandertais disfarçados, escondidos atrás de uma grande fantasia felpuda. De fato, as teorias da conspiração caminham lado a lado com a história humana desde que o mundo é mundo, havendo registros que datam do Império Romano, estando sempre presentes dentro da sociedade e exercendo diferentes tipos de papéis. Há teorias absurdas, como o ‘terraplanismo’ e há teorias que se comprovam, como é o caso do Watergate; mas em sua esmagadora maioria, tais conspiracionismos comprovam-se falsos. Isso não os impede de surgir, como bem observamos. Mas qual a razão pela qual esse fato se dá? Alguns estudiosos afirmam que as teorias da conspiração não parecem estar fundamentadas em processos mentais analíticos e controlados, mas sim argumentam que estes surgem a partir de processos emocionais e intuitivos. Portanto, o argumento que aqui se tenta construir é o de que um dos combustíveis principais para alimentar a máquina das conspirações é justamente o medo. Estas teorias, tão obscuras por vezes, podem ser vistas como uma resposta inconsciente do ser que se enxerga incapaz de lidar com a realidade, com o medo do incerto, o medo de estar sendo enganado e o medo de estar sozinho, e este último ponto de maneira ainda mais forte, pois acreditar em teorias da conspiração coloca o indivíduo ‘conspiracionista’ num status falacioso de “superioridade” na relação egoísta dele com os outros, pois se sente acima daqueles ditos “incapazes de entender” ao passo que são aplaudidos por aqueles que também acreditam nas falácias.  A sociedade civil, no 11 de Setembro desenvolveu mecanismos parecidos e as conspirações surgiram, numa ânsia compreensível, mas gerada no medo do incerto, de “saber uma verdade escondida” ou simplesmente como uma maneira de lidar com os traumas gerados. Afinal, “Bush did 9/11” ecoa até hoje no imaginário de muitos…

Em tempos de crescente ansiedade, incertezas políticas, embates culturais e polarizações generalizadas, o medo também cresce e, com ele, a necessidade de estar pronto para tudo, até mesmo para o inexistente. Vivemos num século cuja gênese, ao menos na sua esfera ocidental, veio do medo; e as teorias da conspiração já não são lá grande novidade para nós. Mas talvez, tentar entender suas motivações nos impeça de sermos os próximos a crer em alguma, cegamente. Eu sou fruto dessa sociedade do medo e também aderi às teorias da conspiração. A minha favorita é a de que tudo vai dar certo.


En Español:


El miedo es quizás una de esas cosas que logra ser transversal a casi todos los seres sintientes. Como el placer y el odio, que tanto conmueven al mundo en medio de su dualidad. Fatídicamente, la biología nos dice que el miedo es una variable interviniente entre diferentes conjuntos de estímulos, dependiente del contexto y capaz de generar diferentes respuestas conductuales. La filosofía ‘sartriana’ explica que “Todos los hombres tienen miedo. Los que no tienen miedo no son normales; esto no tiene nada que ver con el coraje”, uniéndonos a todos en un grupo de gente temerosa. A un nivel más personal, mi madre siempre me advertía que los miedos siempre están a un paso de alcanzarnos y desgarrarnos, y por eso nuestro mayor miedo debe ser el miedo. Explícanos los biólogos, los existencialistas o los progenitores; al final, todos sabemos de la existencia irreductible del miedo. Es natural para nosotros y a veces nos puede moldear. Pero, ¿somos tan conscientes de cuán presentes y activos están los miedos, temores y terrores en la sociedad que compartimos?

Vivimos hoy, y creo decirlo siempre, como raza humana, con la existencia del miedo incrustado en las capas más profundas de nuestro ser, así como en las más renombradas instituciones de nuestros gobiernos; él está allí, de alguna manera. “Ayer”, si tenemos en cuenta la duración de la historia humana, tuvimos un claro ejemplo de cómo el terror tiene el poder de cambiar el mundo. El 11 de septiembre de 2001, los Estados Unidos de América vivieron el episodio más traumático de su historia reciente. Los dos aviones que se estrellaron contra las torres del World Trade Center se cobraron miles de vidas y dejaron como legado un mensaje de miedo. Desde entonces, palabras como “terror”, “amenaza”, “miedo”, “preocupación”, “terrorismo” y muchas otras, capaces de despertar en nosotros pensamientos nocivos, se han vuelto cada vez más comunes en la vida cotidiana. El “contraterrorismo” se convirtió en una voz que no fue silenciada, y la securitización de la sociedad civil e internacional alcanzó niveles nunca antes vistos. El siglo XXI nacía entonces traumatizado y atemorizado, viéndose en la necesidad de reformular algunas de sus bases y estructuras, haciendo que la respuesta inmediata de muchos Estados fuera el incremento de la securitización del ámbito internacional, los viajes comerciales, los sistemas de vigilancia y protección interna, con el terrorismo como el nuevo enemigo definido. Por otro lado, ya entendemos que el miedo nos afecta a casi todos, y por eso también hubo una respuesta - más orgánica que otra cosa - de la sociedad civil. Pero, ¿cómo se desarrolló?

No me sorprendería si en la edad de piedra hubiera un individuo que "jurara sobre sus pies" que los mamuts no eran más que otros neandertales disfrazados, escondidos detrás de un gran disfraz borroso. De hecho, las teorías de la conspiración caminan de la mano de la historia humana desde el comienzo del mundo, con registros que se remontan al Imperio Romano, estando siempre presente dentro de la sociedad y desempeñando diferentes tipos de roles. Hay teorías absurdas, como el 'terrallismo plano' y hay teorías que están comprobadas, como es el caso de Watergate; pero en su abrumadora mayoría, tales conspiraciones resultan ser falsas. Esto no impide que surjan, como hemos observado. Pero, ¿por qué ocurre este hecho? Algunos académicos argumentan que las teorías de la conspiración no parecen basarse en procesos mentales analíticos y controlados, sino que estos surgen de procesos emocionales e intuitivos. Por tanto, el argumento que aquí se intenta es que uno de los principales combustibles para alimentar la máquina conspirativa es precisamente el miedo. Estas teorías, a veces tan oscuras, pueden ser vistas como una respuesta inconsciente del ser que se ve incapaz de enfrentarse a la realidad, al miedo a la incertidumbre, al miedo a ser engañado y al miedo a estar solo, y este último punto en una forma aún más fuerte, ya que creer en teorías conspirativas coloca al individuo 'conspiracionista' en un falso estatus de “superioridad” en su relación egoísta con los demás, ya que se siente por encima de los que se dice que son “incapaces de entender” mientras son aplaudidos por aquellos. que también creen las falacias. La sociedad civil, el 11 de septiembre, desarrolló mecanismos similares y surgieron conspiraciones, en un comprensible afán, pero generado en el miedo a la incertidumbre, a “conocer una verdad oculta” o simplemente como una forma de enfrentar los traumas generados. Después de todo, "Bush did 9/11" todavía resuena en la mente de muchos...

En tiempos de creciente zozobra, incertidumbres políticas, choques culturales y polarizaciones generalizadas, crece también el miedo y, con él, la necesidad de estar preparados para todo, incluso para lo inexistente. Vivimos en un siglo cuya génesis, al menos en su ámbito occidental, vino del miedo; y las teorías de la conspiración ya no son tan nuevas para nosotros. Pero quizás, tratar de entender sus motivaciones evitará que seamos los próximos en creer ciegamente en una. Soy producto de esta sociedad del miedo y también me suscribí a las teorías de la conspiración. Mi favorita es que todo saldrá bien.



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