A Existência de Deus.
Conto hoje a história de um indivíduo que conheceu a divindade, cuja chamamos corriqueiramente Deus; em um encontro nada menos que atípico e instigante. Conheceu-a em suas diferentes nuances, indo desde as leis escritas a ferro e fogo até seus abraços e consolos de Mãe, que tanto pune quanto afaga.
Porém, quiçá pela abstração do Divino ou - argumentariam outros - sua fé mal fundamentada, nosso objeto de análise, jovem menino de 14 anos, custou bastante a entender, crer e sentir tal figura tão impositiva e onipresente. Há os que dizem que justamente por esta razão da dúvida e dificuldade, o menino permitiu-se mesmo a receber a dádiva suprema a qual apelidaram 'liberdade'; outros diriam que, exatamente pelas mesmas razões, o mesmo nunca foi capaz de verdadeiramente conhecer a 'liberdade' por Deus prometida.
Não me proponho aqui a explicar as multifaces de tal termo que até os dias de hoje parece insistir em ser um obstáculo aos dicionários que se publicam mundo afora. De todo. Meu desejo aqui é contar uma história, seguramente longe de ser das mais astutas peripécias deste personagem, datada de muitos anos, traçada em outros tempos, mas que teima em conservar-se tão bem até o momento em questão.
Do mesmo modo que a escutei pela primeira vez, transcrevo-a já neste breve conto. Foi episódio singular, que para ser realmente compreendido urge por contexto pessoal acerca do objeto que o experienciou. Sinto não ser capaz de prover dados estritamente precisos acerca da temporalidade deste conto, mas tenho a noção de que se construiu em meados da década de cinquenta, por volta de 1957, creio; todavia, os meses, as semanas e os dias sinto haverem-se perdido com o passar dos ponteiros que nos carregaram até hoje e, portanto, careço dos mesmos. Por esta exata razão, peço perdão ao curioso leitor pela imprecisão histórica dos fatos, mas gosto de pensar que tal fatalidade não se impõe enquanto obstáculo para entender o que nestes tempos remotos sucedeu. Por isso, vamos adiante de uma vez.
A história desenvolve-se nos subúrbios do Rio de Janeiro, em época que o Brasil ainda era chamado de Estados Unidos do Brasil e na bandeira ausentavam-se quatro estrelas. No bairro de Pilares, marcado à época pelo seu forte comércio e atuação da associação chamada Centro de Comércio e Indústria de Pilares, ou CCIP, destacava-se, escondida em meio àquele enxame de pessoas, a família do nosso relaxado personagem.
Família de raízes portuguesas, constituída na região norte da então capital do país, era fortemente hierárquica, marcada pela presença do pai forte, a mãe que o acompanhava, e seus 4 filhos, desses quais nosso indivíduo, o único varão dentre suas três irmãs. Este status lhe garantiu uma série de benefícios e cobranças e, diz-se que quando tomou nota disso conheceu a inflexibilidade de Deus e seus determinismos tão inabaláveis, por primeira vez. As responsabilidades, as exigências e as benesses deste fardo - ou dádiva - de se descobrir o futuro patriarca da família, tão jovem, estiveram presentes com o menino desde muito cedo, e eram constantemente reafirmadas, relembradas e reclamadas por seu pai, quem apelava ao fogo e ao ferro de Deus para garantir que o primogênito jamais esquecera de suas obrigações.
Não muito tempo depois disso, mas somando-se a tal, padeceu da terrível condição de ter nascido canhoto e, então, presenciou em sua vida, justo diante de si e em si, o embate entre o Céu e o Inferno, Deus e o Diabo, o Sagrado e o Profano. Estava tudo errado; ele mesmo todo errado, havia nascido amaldiçoado, beijado pela Besta e condenado a escrever com a sua torpe mão esquerda. Obviamente, os determinismos de Deus jamais permitiriam uma blasfêmia destas proporções seguir impune, e através de seu pai e seus tutores do Colégio foi forçado a abandonar tal prática satânica e viu o poder de Deus por segunda vez. Palmatórias, castigos e desaforos foram alguns dos remédios sagrados receitados ao nosso jovem, quem os tomou, agradecendo-os e fazendo-se entender que sofria de uma patologia muito grave: foi desgraçado pela Fera com a imperdoável condição de canhoto, é verdade. "Maldito!", pensava toda vez que um leve impulso de utilizar aquele membro nefasto surgia. Hoje, dizem que por falta de disciplina, por coragem ou por rebeldia, utiliza conscientemente a sua suja e irreverente mão esquerda.
O que digo aqui e a partir de agora não possui outra confirmação além de minhas próprias suposições e imaginações errantes. Digo então que creio ter sido neste momento, anteriormente descrito, a gênesis do abraço de nosso protagonista com o duvidoso, com o contraditório e o turvo. Filho - chamamo-os assim, por enquanto -, descobriu neste momento que existiam coisas dentro de si que não eram tão sagradas. Não digo que sentia-se orgulhoso por isso, pois tendo muito a pensar que realmente não o agradava dar-se conta de tal condição hipócrita de ser humano: ser tão sagrado, criação divina e, mesmo assim, exposto tão cruamente às vontades e desejos do Mal. Mas, já assim, desde cedo, abandonava a dualidade maniqueísta do bem e do mal, do branco e do preto, e seguia sua vida num tom e em passos cinzentos. "Como reagiria o onipotente face a tal afronta?", talvez possamos nos perguntar, como o mesmo fez-se.
A verdade é que tais preocupações tão divinas, exotéricas e, por muitas vezes, abstratas, passavam-se, suponho eu, desapercebidas corriqueiramente pelo jovem menino. Filho foi um garoto inquieto, arteiro, engenhoso, inteligente e galanteador, tudo isso desde muito mancebo, sim. Possuía uma tara inexplicável pelo estudo; passava horas trás horas com sua cabeça atolada em livros, alimentando famintas curiosidades que iam desde às revoltas republicanas até às variáveis de uma função, é verdade. Chegou a ser conhecido entre seus companheiros de classe como o "C.D.F" - ou "Cu De Ferro" para aqueles que não são lá grandes aficionados por siglas, como era aquele que um dia me contou esta anedota -, definição mais que bem cabida para um elemento capaz de ficar sentado horas à fio naquelas gélidas cadeiras de madeira de seu Colégio. Cabe adiantar-vos já que este tal Colégio virá a ser palco de uma grande descoberta profana de nosso astuto protagonista; sendo o mesmo uma figurinha de destaque neste meio estudantil. Uniformes impecáveis, constituídos por elegantes camisas brancas, ostentando quatro formosos botões negros, calças azuis cor de oceano - ou saias, como sempre bem fez questão de reparar nosso personagem - e, no lado esquerdo do peito, o símbolo da instituição que levava consigo o nome do primeiro, e único, diga-se, Imperador verdadeiramente brasileiro - Não que tal título diga assim muita coisa fora das abstrações irreais que criam-se dentro destes meios, muito afogados em suas próprias fantasias monárquicas, adiciono despretensiosamente aqui eu -. Assim desfilavam os alunos do Colégio Pedro II, elegantemente, como jovens brilhantes; os diversos futuros da nação, ao largo da avenida Marechal Floriano, dia após dia, embelezando a cidade do Rio de Janeiro. Decerto, transcrevo com quase as exatas palavras com que me fora descrita tal cena, acentuo. Mas passada a descrição deste cenário jovial, vívido e agitado que se desenhava no Centro da cidade carioca, retomemos ao nosso pequeno menino, que apesar de confundir-se em meio à tal multidão de indivíduos charmosos, encontraria-se face a uma grande descoberta neste mesmo dia.
O dia havia amanhecido límpido, abençoado - pode-se dizer -, com um céu azul, cheiro a pó de café pela casa, e bem-te-vis a bem ver tudo janela à fora. Com efeito, já nem tão cedo se fazia assim. Filho despertava às nove horas, usualmente tomado por uma preguiça arrematadora e uma vontade quase nula de começar o dia. Sabia que suas aulas davam-se religiosa e rigorosamente ao meio-dia e devia estar, pontualmente, às dez, frente à estação do bonde elétrico que o levava até o fervo da cidade, se não quisera sofrer ele mesmo outra punição: as temidas palmatórias, que em casos como esse de indisciplina eram aplicadas democraticamente às suas duas mãos; sem distinções! Já é-se de imaginar que a pressa e o sentimento de urgência eram o que moviam nosso garoto pela casa; buscando os sapatos ali no canto do quarto, ainda sem as meias nos pés; abotoando a camisa enquanto escovava os dentes; tomando seu café baixo ao som desesperado dos gritos da mãe, quem tentava - sem grandes êxitos - pôr algum tipo de ordem naquela habitual desordem. Penteava os cabelos do menino momentos antes que saísse, enquanto rezava-o um Pai Nosso, censurava-o por segurar a xícara do café com a mão pútrida e alertava-o sobre o que diria seu pai se estivesse em casa pelas manhãs e visse aquele escarcéu tremendo. "Já não fazias toda esta cena vexaminosa, pois não?", lançava sobre ele. Filho já era bacharel em filtrar as falas da mãe; beijava-a na testa, pedia sua usual benção e saía, desordenadamente em direção ao bonde amarelo, carregando seus utensílios numa exageradamente grande bolsa de couro marrom e então adentrava naquele transporte; este cujo Filho nunca deixou de fascinar-se por sua tamanha engenhosidade e praticidade, confessou-me o mesmo umas quantas vezes.
O menino costumava-se sentar sempre ao lado esquerdo do bonde, grudado à janela, levado a isso por sua fissura insaciável de vislumbrar e tentar agarrar um pouquinho de toda a imensidão desta cidade que ele explorava desde sempre. A viagem até o Colégio era um tanto quanto longa, cerca de uma hora e alguns minutos quebrados, se lembro-me bem dos detalhes providos; tempo esse tomado muitas vezes por uma introspecção jovial e frívola que o permitia viajar por muitos pensamentos ao largo do trajeto. Neste dia, tão bonito, Filho esticou bem sua mão esquerda para fora da janela para executar uma brincadeira quase atemporal: fingia ser sua mão um pássaro, que voava e planava por aquela imensidão de gente, de prédio, de verde, de azul e de estranheza, sim. Mas dessa vez, como em muitas outras, foi engatado no meio dos pensamentos ao desgraçadamente tomar-se nota de que mais uma vez desfrutava, verdadeiramente, daquele seu membro indigno. Sacou a mão para dentro do transporte, fitou-se com um certo ar melancólico, olhou para o lado umas quantas vezes e perguntou-se: "Quiçá Deus estaria um bocado mais feliz se me sentara do outro lado". Entristecia-se ao ver todos os assentos ocupados e questionava-se, indelicadamente - dirão certamente uns ou outros -, qual teria sido a razão de tal punição tão boçal que lhe impôs o Pai de Todos. Na realidade, isso acabou desencadeando, nesta mesma viagem, uma série de pensamentos bastante profundos para um jovem como aquele. Primeiro, voltou-se à janela esquerda e quase rendeu-se ao estímulo impulsivo de pôr a maldita mão para fora outra vez, mas desta vez reprimiu-a, agarrou bem as duas mãos juntas, pressionando com bastante força a 'proibida', com uma certa raiva - quase rancor, poderia dizer-se. Neste momento, como para manter-se concentrado no ato repressivo, fitava bastante sério o chão e começava a reparar em si próprio, com uma atenção singular. Olhou bem aqueles sapatos, aquela calça anil, vislumbrou rapidamente o pequeno maço de cigarro que levava escondido para impressionar seus jovens companheiros de classe e acabou por assumir uma face perigosamente autoconsciente, medrosa. Percebia-se então enquanto um adulto de quatorze anos, e assim vinham à tona as obrigações sacras de futuro patriarca; as calças faziam-o sentir-se preso naquele momento, questionava-se até mesmo do por quê utilizava-as meio ao calor que fazia, e deu-se conta uma vez mais de que a explicação era tão rasa e débil quanto a de não poder escrever com a canhota. Logo, já um pouco desnorteado, fitou uma vez mais o maço de cigarros e uma náusea tomou conta de si; lembrava-se da surra que seu pai havia lhe dado na vez que descobriu tal displicência, e neste momento quase viu-se desmaiar. O bonde então atraca abruptamente e ele de longe vê a imensidão de criaturazinhas, como ele, de azul e branco, caminhando em bando, e logo retoma à realidade e salta rua à fora.
Ao deparar-se próximo à fachada do monumental Colégio Pedro II, às onze horas e alguns minutos mais, suponho, Filho atraca-se com seu mútuos, com um sorriso leve, mas débil; distribui e cautelosamente acende cigarros a alguns dos jovens metidos à velhacos que chamavam-o de amigo, gastando seus últimos cinco minutos antes de adentrar o edifício. Sentiam-se sérios neste momento. Falavam do dia, dos planos futuros, das jovens moças com quem andam se enamorando por aí e partilham suas dificuldades e desafios com respeito às exigências do instituto. Muitos pedem conselhos à Filho, o interrogam, tentam pôr as mãos em algumas das respostas dos deveres do dia, coisas essas que geralmente costumavam resultar; mas não hoje. Filho, jovem confuso, fumava aquele sujo cigarro com dessabor. Na verdade, ainda não tinha escapado totalmente do emaranhado de questões que se impusera anteriormente, e seguia com um olhar bastante sério, encarando, desapercebidamente, o terço que carregava o companheiro frente a si. Contudo, não tardou muito para que o sino do colégio bradasse eloquentemente e dispersasse a todos ali. Chegava a hora de começar a rotina colegial, adentrar aquele universo à parte e tentar deixar de lado ao menos uma fração dessas preocupações desnorteadoras. Marcham assim, cheios de uma certa pompa, em direção às portas de entrada, sempre muito disputadas neste momento.
As classes hoje começavam diferente para o nosso personagem. Não por tratar-se de qualquer tipo de evento mirabolante ou surpreendente, senão pelo fato de ser o dia de aula experimental no laboratório de química. A verdade é que o nosso C.D.F. empolgava-se tremendamente com as visitas regulares ao laboratório. Para tal, aquele universo parecia o mais avançado possível, o modernismo expressando-se vividamente diante de si, era a materialização completa do futuro, da excelência e do progresso. O momento caótico de chegada ao laboratório mais sentia-se como uma grande aventura. Caminhando por aqueles largos corredores de ladrilho, cor de bege, com suas infinitas estantes de madeira, exibindo, como num museu, uma infinitude de tubos de ensaio, beckers, erlenmeyers, balanças, elementos químicos, tabelas diversas e outras multiplicidades de objetos que apenas sonhara em quiçá um dia descobrir. A verdade é que tudo aquilo parecia de outro mundo, e aquilo fascinava o jovem rapaz que deleitava-se por aquele universo tão complexo, regido por nenhuma outra lei se não as leis exatas, dos cálculos, das medições e dos mais puros métodos positivistas de se fazer ciência; "fazer-se o verdadeiro conhecimento", pensava o menino. Já menos atordoado pelos encantos do laboratório, Filho encontrava-se já sentado, esperando o relógio, no topo do quadro negro, marcar exatamente meio dia e meia. Nem mais nem menos um minuto, essa era a pontualidade de seu professor. Como esperado, o relógio anuncia o horário em questão e precisamente a porta da classe abre-se. Adentra o professor. Levantam-se os alunos. "Bom dia, Senhor Doutor Professor Haroldo", exclamam em conjunto. Voltam-se a sentar. E o silêncio toma conta da sala.
O Senhor Doutor Professor Haroldo era uma figura de extrema controvérsia. Nesta época de tradições tão rígidas, conservadorismo pujante, religiosidade sacra e quase unanimemente praticada, adorada, respeitada e exigida por todos, Haroldo se posicionava firmemente enquanto um ateu. Era um escândalo! Todos usualmente comentavam sobre este fato, nos cantos, às vezes sussurrando, outrora apenas com olhares. A verdade é que ele não fazia a menor questão de esconder isso e, enquanto professor, homem letrado, senhor das ciências e indiscutivelmente respeitado, lograva fazer isso com êxito. Para Filho, esta posição do doutor sempre o pareceu escandalosa, uma verdadeira afronta a tudo aquilo que ele conhecia, desde os modos da casa, até o modo de como pensava acerca de si mesmo, até a forma como se organizava a sociedade em que vivia. Mal podia esperar que neste mesmo dia, Haroldo, quiçá o indivíduo mais 'cinzento', em termos maniqueístas, conhecido pelo nosso personagem, viria a estremecer bases tão consolidadas no âmago próprio de Filho.
Passado cerca de uns três minutos em completo silêncio, encarando toda a sala, Haroldo levantou-se. Cumprimentou a turma, voltou-se sobre uma enorme mesa que se encontrava diante de si, dividindo-o entre ele mesmo e os alunos, quem assistiam-no como num espetáculo, e começou a escrever calmamente com seu giz o seguinte ditado: "A Existência de Deus". Como esperado, pasmaram-se todos os alunos, mas silenciosamente. Filho trocou olhares com seus amigos, deu um leve riso, que o escapou pelo canto da boca, e não pôde deixar de deliciar-se com tamanha afronta, era um verdadeiro escárnio e, por isso, tão entretido estava. Haroldo era um homem muito esperto, isso é fato, e neste dia decidiu utilizar-se disso para chocar sua platéia, atenta como nunca antes. A aula, verdadeiramente, era sobre termodinâmica, mais especificamente sobre o processo de eletrólise da água. Mas Haroldo não planejava dá-la de forma convencional, de maneira alguma. Começou então a pegar, dentre aquelas infinitas prateleiras ornadas com os mais mirabolantes objetos, alguns artifícios necessários para esse experimento - Fatalmente, não sou eu químico para prover-vos os detalhes mais sórdidos desta peripécia magistral, mas tento contá-la com o mesmo vislumbre de como a mim foi contada -. Foi-me dito que esta figura tão imponente que verdadeiramente era o Professor Haroldo, colocou sobre a sua enorme mesa experimental um grande compartimento de vidro, alguns pequenos recipientes metálicos, uma espécie de bateria elétrica e alguns tubos de plástico; toda uma série de objetos que mais pareciam ter vindo de alguma espécie de conto antigo sobre os misteriosos alquimistas.
- "Hoje todos aqui conhecerão Deus. É verdade, não se espantem. Prestem bastante atenção, pois O Todo Poderoso não costuma dar-se ao luxo de fazer aparições como esta tão usualmente. Não sabem o esforço tremendo que tive de fazer para conseguir esse encontro. Espero um mínimo de gratidão.", exclamava, diante de seus pupilos, com um ar fortemente irônico, o grande Senhor Doutor Professor Haroldo.
Começou então por encaixar umas peças aqui, outro tubo ali, ligou a bateria em algum lado e exitou. Estava tudo pronto para o experimento, mas sentia que precisava tornar aquilo tudo um pouco mais dramático e exigiu a atenção dos alunos. Nosso impactado menino realmente chegava quase a temer algo neste momento. Não entendia muito bem o que estava prestes a acontecer e, chegava a recear que Deus reconhecesse-o ali e punisse-o frente a todos os seus amigos. Esteve ele ainda hoje bem enfadado com o Senhor e tinha certeza de que Ele saberia disso, pois Ele sabia de tudo que era possível saber! Suou um pouco enquanto o professor dava os retoques finais, chegou a sentir uma pequena tremedeira na sua mão esquerda e sabia que aquilo iria entregá-lo. "É claro que Ele vai ver que sou canhoto!", desesperou em silêncio o menino. Sem muito bem saber o que fazer, sentou-se em cima de sua própria mão, num intento pífio de neutralizá-la e escondê-la, e assim manteve-se. O professor então exigiu atenção e disse que "agora era o momento". Pediu a todos que abrissem muito bem os olhos, olhassem profunda e atentamente dentro daquele compartimento de cristal e não deixassem escapar aos olhos tal encontro tão único. Juro, creio mesmo que Filho foi incapaz de piscar neste momento. O professor ligou então as ferramentas, iniciou-se a química; dentro daquele cubo de vidro, cheio de gás hidrogênio, um processo de combustão deu-se, revelando enquanto resultado uma luz e um calor intenso, para logo dar espaço a um vapor, que nada mais era do que água. Sim, Haroldo, de um recipiente de vidro, aparentemente vazio, havia produzido água. Neste momento, os sentimentos de estupefação da turma não foram contidos, seria impossível. Gritos de inquietação, surpresa, descrença, ânimo e incredulidade se dissiparam ao largo do laboratório. Filho ria-se, não podia acreditar no que acabara de experienciar. Havia visto a criação da água, a partir do nada, justo diante dos seus olhos. Mas ria-se, verdadeiramente, pois havia entendido o jogo irônico do docente. Apesar do susto, tinha tido a decepcionante noção de que Deus não havia passado ali, não. E foi justamente isso que começou a explicar Haroldo momentos após a normalização dos ânimos na classe. O mestre não contentava sua ironia, voltou-se ao quadro negro, apagou o "A" que havia escrito, reescreveu-o um pouco mais à esquerda e adicionou, em maiúsculas um "NÃO", entre aquela frase, que agora lia-se: A NÃO Existência de Deus. Estupefatos, todos, seguiram até o fim a aula do professor, que rapidamente se voltou aos termos mais técnicos e assim desenvolveu-se aquela aula sobre termodinâmica.
Filho, neste mesmo dia, voltou à casa ainda em choque. Passou a questionar-se sobre tudo ao seu redor. Esta volta, que quando ida havia sido marcada por um certo deslumbramento quase ingênuo, agora enquanto retorno marcava-se por uma série de questionamentos mais brutos, de teor naturalista e cientificista, verdadeiramente. Pensava, determinadamente, em quantos outros fenômenos ainda mais complexos do que a existência e o surgimento da água em si poderiam ser explicados por termos tão engenhosos quanto "eletrólise", ou "termodinâmica", e passou grande parte do dia orbitando ao redor dessas questões. Com seu temperamento já atiçado, com ânimos à flor da pele, havia decidido que, ao chegar em casa, confrontaria o pai com estes conhecimentos que havia adquirido e, sonhava, com isso, conseguir a alforria de sua mão, de seu destino e de seu modo de ver e perceber o mundo. Ia mesmo fazer isso, e assim o fez.
Mário Filho empiricamente percebeu que Haroldo não passava de um ilusionista catedrático. A existência de Deus provou-se outra vez ali mesmo, de modo menos gracioso, mágico e impressionante. Foi derrubado de seu pedestal pedante e insolente, em que seu professor o havia posto. Após primeiramente sentir o determinismo de aço do Senhor ao descobrir-se primogênito, seguindo então ao seu segundo encontro ao deparar-se frente à intempérie d'Ele face ao seu membro sombrio; viu-se neste dia diante do Pai de Todos por terceira vez, desta vez sobre a forma de seu próprio pai biológico, quem fez questão de dar-lhe uma lição ainda mais completa do que aquela que presenciou mais cedo no Colégio. Assim, fez-se verdade então, frente aos seus olhos e em si mesmo, em sua pele, a fúria divina. Ali descobriu a incontestável materialidade da vida, que pouco - ou nada - se importava com as fórmulas matemáticas que um pode escrever com giz. Deus existia, pois ele sentia-o, dura fosse esta realidade, gostasse ele ou não. Diz-se então, até hoje, que verdadeiramente foi neste dia, nos longínquos anos de 1950, que Mário descobriu a existência de Deus.
En Español:
La Existencia de Dios
Hoy les cuento la historia de un individuo que conoció a la divinidad que comúnmente llamamos Dios, en un encuentro nada menos que atípico y curioso. Lo conoció en todas sus diferentes formas, desde las leyes escritas en hierro y fuego hasta sus abrazos y consuelos de Madre, que tanto castigan como acarician. Sin embargo, tal vez debido a la abstracción del Divino o - otros argumentarían - a su fe mal fundada, nuestro objeto de análisis, un joven de 14 años, costó entender, creer y sentir una figura tan imponente y omnipresente. Hay quien dice que fue precisamente por ese motivo de duda y dificultad por lo que el muchacho se permitió recibir el don supremo que llamaron "libertad"; otros dirían que, exactamente por las mismas razones, nunca pudo conocer de verdad la "libertad" prometida por Dios. No me propongo explicar aquí las múltiples facetas de este término, que a día de hoy parece insistir en ser un obstáculo en los diccionarios que se publican en todo el mundo. En absoluto. Mi deseo aquí es contar una historia, ciertamente lejos de ser una de las más astutas aventuras de este personaje, que se remonta a muchos años atrás, rastreada en otros tiempos, pero que se mantiene obstinadamente tan bien hasta el momento en cuestión.
Tal como lo escuché por primera vez, lo transcribo en este breve relato. Fue un episodio singular que, para ser realmente comprendido, requiere un contexto personal sobre el objeto que lo vivió. Me temo que no puedo aportar datos estrictamente precisos sobre el marco temporal de esta historia, pero tengo la idea de que se pasó a mediados de los años cincuenta, como 1957, creo; sin embargo, los meses, semanas y días siento que se han perdido con el paso de los relojes que nos han llevado hasta hoy, y por eso me faltan. Por eso mismo, pido disculpas al lector curioso por la inexactitud histórica de los hechos, pero me gusta pensar que tal fatalidad no es obstáculo para comprender lo que sucedió en estos tiempos remotos. Así que sigamos adelante de una vez.
La historia ocurrió en los suburbios de Río de Janeiro, en una época en que Brasil aún se llamaba Estados Unidos de Brasil y a la bandera le faltaban cuatro estrellas. En el barrio de Pilares, marcado en la época por su fuerte comercio y las actividades de la asociación llamada Centro de Comércio e Indústria de Pilares, o CCIP, la familia de nuestro relajado personaje destacaba, escondida entre el enjambre de gente. Familia de raíces portuguesas, formada en la región norte de la entonces capital del país, estaba fuertemente jerarquizada, marcada por la presencia de un padre fuerte, una madre que lo acompañaba y sus cuatro hijos, entre ellos nuestro personaje, que era el único varón entre sus tres hermanas. Este status le garantizaba una serie de beneficios y exigencias, y se dice que, cuando se dio cuenta de ello, experimentó por primera vez la inflexibilidad de Dios y su inquebrantable determinismo. Las responsabilidades, imposiciones y frutos de esta carga - o regalo - de descubrirse como futuro patriarca de la familia a tan temprana edad estuvieron presentes en el niño desde muy pequeño, y fueron constantemente reafirmadas, recordadas y demandadas por su padre, que apelaba al fuego y al hierro de Dios para que el primogénito nunca olvidara sus obligaciones. No mucho después, pero además, sufrió la terrible condición de haber nacido zurdo, y así presenció en su vida, delante de él y en él, el enfrentamiento entre el Cielo y el Infierno, Dios y el Diablo, lo Sagrado y lo Profano. Todo estaba mal; él mismo estaba todo mal, había nacido maldito, besado por la Bestia y condenado a escribir con su torpe mano izquierda. Obviamente, el determinismo de Dios nunca permitiría que una blasfemia de estas proporciones quedara impune, y a través de su padre y sus tutores en el Instituto se vio obligado a abandonar esta práctica satánica y vio el poder de Dios por segunda vez. Azotes, castigos e insultos fueron algunos de los sagrados remedios prescritos a nuestro joven, que los tomó, agradeciéndolos y haciéndose a la idea de que padecía una patología muy grave: estaba deshonrado por la Bestia con la imperdonable condición de ser zurdo, es cierto. "¡Maldito sea!", pensaba cada vez que le surgía un leve impulso de utilizar ese nefasto miembro. Hoy dicen que, por falta de disciplina, por coraje o por rebeldía, utiliza conscientemente su sucia e irreverente mano izquierda.
Lo que digo aquí y a partir de ahora no tiene más confirmación que mis propias suposiciones e imaginaciones errantes. Así que diré que creo que ese momento, descrito más arriba, fue la génesis del abrazo de nuestro protagonista con lo dudoso, lo contradictorio y lo turbio. Filho - le llamaremos así por ahora - descubrió en ese momento que había cosas en su interior que no eran tan sagradas. No diré que estaba orgulloso de ello, porque tiendo a pensar que realmente no le agradaba darse cuenta de una condición tan hipócrita del ser humano: ser tan sagrado, una creación divina, y sin embargo estar tan cruelmente expuesto a las voluntades y deseos del Mal. Pero incluso entonces, desde muy joven, abandonó la dualidad maniquea del bien y el mal, del blanco y el negro, y continuó su vida en un tono y un ritmo grises. "¿Cómo reaccionaría el omnipotente ante semejante afrenta?", podríamos preguntarnos, como hizo él.
La verdad es que tales preocupaciones divinas, exotéricas y a menudo abstractas, as veces pasaban desapercibidas para el joven muchacho. Filho era un muchacho inquieto, artero, ingenioso, inteligente y galante, todo esto desde muy pequeño, sí. Tenía una afición inexplicable por el estudio; pasaba horas y horas con la cabeza enfrascada en los libros, alimentando sus hambrientas curiosidades que iban desde las revueltas republicanas hasta las variables de una función matemática, es cierto. Llegó a ser conocido entre sus compañeros como el "C.D.H." - o "Culo De Hierro" para los que no son tan aficionados a las siglas, como fue el que una vez me contó esta anécdota -, una definición más que adecuada para un elemento capaz de permanecer sentado horas y horas en aquellas frías sillas de madera de su instituto. Vale la pena contarles que esta escuela será el escenario de un gran descubrimiento impío por parte de nuestro astuto protagonista, quien es una figura prominente en este medio estudiantil. Uniformes impecables, consistentes en elegantes camisas blancas con cuatro hermosos botones negros, pantalones azules color océano - o faldas, como nuestro personaje siempre se empeñaba en señalar - y, en el lado izquierdo del pecho, el símbolo de la institución que llevaba el nombre del primer, y único, todo sea dicho, verdadero Emperador brasileño - no es que tal título diga mucho fuera de las abstracciones irreales que se crean dentro de estos círculos, muy ahogados en sus propias fantasías monárquicas, añado aquí sin pretensiones -. Así desfilaban, elegantes, como jóvenes brillantes, los alumnos del instituto Colegio Pedro II; los diversos futuros de la nación, por la Avenida Marechal Floriano, día tras día, embelleciendo la ciudad de Río de Janeiro. Estoy seguro de estar transcribiendo con palabras casi exactas con las que me describieron esta escena, subrayo. Pero después de describir esta escena jovial, viva y agitada que se desarrollaba en el centro de la ciudad de Río, volvamos a nuestro pequeño, que, a pesar de estar confundido en medio de semejante multitud de individuos encantadores, se encontró aquel mismo día ante un gran descubrimiento.
El día había amanecido despejado, bendecido - podría decirse - con un cielo azul, olor a café en polvo por toda la casa y pájaros observando todo por la ventana. De hecho, ya ni siquiera era tan temprano. Filho se levantaba a las nueve, normalmente dominado por una pereza que se apoderaba de él y casi sin ganas de empezar el día. Sabía que sus clases tenían lugar religiosa y estrictamente a mediodía y que tenía que estar puntualmente a las diez frente a la estación del tranvía eléctrico que lo llevaba al bullicio de la ciudad, si no quería sufrir él mismo otro castigo: los temidos azotes, que en casos como éste de indisciplina se aplicaban democráticamente en ambas manos; ¡sin distinción! Ya se pueden imaginar que las prisas y el sentido de la urgencia eran lo que movía a nuestro chico por la casa; buscar los zapatos en un rincón de la habitación, aún sin calcetines; abrocharse la camisa mientras se cepillaba los dientes; tomarse el café al son desesperado de los gritos de su madre, que intentaba - sin mucho éxito - poner algo de orden en el desorden habitual. Peinó al niño unos instantes antes de que saliera, mientras le rezaba el padrenuestro, le recriminaba que sostuviera la taza de café con su mano pútrida y le advertía sobre lo que diría su padre si estuviera en casa por la mañana y viera aquella escena desordenada. "Ya no harías esas cosas vejatorias, ¿verdad?", le decía. Filho ya era experto en filtrar los comentarios de su madre; le daba un beso en la frente, le pedía su bendición habitual y se alejaba desordenadamente en dirección al tranvía amarillo, llevando sus utensilios en una bolsa de cuero marrón exageradamente grande, y luego se subía a él; este tranvía, cuyo Filho nunca dejaba de estar fascinado por su ingenio y practicidad, me lo confesó unas cuantas veces.
El chico solía sentarse siempre en el lado izquierdo del tranvía, pegado a la ventanilla, impulsado a ello por su insaciable deseo de vislumbrar e intentar captar un poco de toda la inmensidad de esta ciudad que siempre había explorado. El trayecto hasta el Instituto era bastante largo, cerca de una hora y algunos minutos entrecortados, si no recuerdo mal los detalles; un tiempo a menudo ocupado por una introspección jovial y frívola que le permitía recorrer muchos pensamientos a lo largo del camino. En este hermoso día, Filho estiró la mano izquierda por la ventana para jugar a un juego casi atemporal: simulaba que su mano era un pájaro, volando y planeando por la vasta extensión de gente, edificios, verde, azul y extrañeza. Pero esta vez, como tantas otras, se quedó absorto en sus pensamientos al darse cuenta tristemente de que, una vez más, estaba disfrutando de verdad de aquel indigno miembro suyo. Sacó la mano del carruaje, se miró con cierto aire melancólico, apartó la vista varias veces y se preguntó: "Quizá Dios estaría un poco más contento si yo me sentara al otro lado". Se entristeció al ver todos los asientos ocupados y se preguntó, indelicadamente - dirán algunos -, cuál era la razón de tan tonto castigo que le había impuesto el Padre de Todos. De hecho, en el mismo viaje, esto acabó desencadenando una serie de pensamientos bastante profundos para un joven como él. En primer lugar, se volvió hacia la ventanilla izquierda y casi se rindió al impulso de volver a sacar la maldita mano, pero esta vez la reprimió, agarró con fuerza las dos manos juntas, presionando con bastante fuerza la "prohibida", con cierta rabia - casi resentimiento, se podría decir -. En ese momento, como para mantenerse concentrado en el acto represivo, miró al suelo con bastante seriedad y empezó a fijarse en sí mismo con singular atención. Observó detenidamente aquellos zapatos, aquellos pantalones añiles, echó un rápido vistazo al pequeño paquete de cigarrillos que escondía para impresionar a sus jóvenes compañeros y acabó adoptando un rostro peligrosamente cohibido y temeroso. Entonces se dio cuenta de que era un adulto de catorce años, y así las sagradas obligaciones de un futuro patriarca pasaron a primer plano; los pantalones le hicieron sentirse atrapado en ese momento, incluso se preguntó por qué los llevaba con el calor que hacía, y se dio cuenta una vez más de que la explicación era tan superficial y débil como la de no poder escribir con la mano izquierda. Entonces, ya un poco desconcertado, se quedó mirando una vez más el paquete de cigarrillos y las náuseas se apoderaron de él; recordó la paliza que le había dado su padre la vez que descubrió semejante descuido, y en ese momento estuvo a punto de desmayarse.Pronto, el tranvía se detiene bruscamente y ve, a lo lejos, la inmensidad de criaturitas, como él, de azul y blanco, caminando en manadas, y entonces vuelve a la realidad y salta a la calle.
Cuando se encontró cerca de la fachada del monumental Colégio Pedro II, a las once y unos minutos más tarde, supongo, Filho se acercó a sus amigos comunes con una leve, pero débil, sonrisa. Repartió cigarrillos y los encendió con cautela para algunos de los jóvenes buscavidas que le llamaban amigo, pasando sus últimos cinco minutos antes de entrar en el edificio. En ese momento se sentían serios. Hablaban del día, de sus planes de futuro, de las jóvenes de las que se estaban enamorando y compartían sus dificultades y retos con respecto a las exigencias del instituto. Muchos pedían consejos a Filho, le interrogaban, intentaban hacerse con algunas de las respuestas a los deberes del día, cosas que normalmente funcionaban, pero hoy no. Filho, un joven confuso, fumaba aquel sucio cigarrillo con desagrado. En realidad, aún no se había librado del todo de la maraña de preguntas que se había impuesto antes, y seguía con el semblante bastante serio, sin que nadie se diera cuenta, mirando fijamente el rosario que su compañero llevaba delante. Sin embargo, no pasó mucho tiempo antes de que la campana de la escuela sonara elocuentemente y dispersara a todos los allí presentes. Era hora de comenzar la rutina escolar, de entrar en ese universo aparte y tratar de dejar de lado al menos una fracción de esas desconcertantes preocupaciones. Así que marcharon, llenos de cierta pompa, hacia las puertas de entrada, siempre muy disputadas en este momento.
Hoy la clase ha empezado de forma diferente para nuestro personaje. No porque fuera algún tipo de acontecimiento milagroso o sorprendente, sino porque era el día de una lección experimental en el laboratorio de química. La verdad es que nuestro "C.D.H." se quedaba tremendamente entusiasmado con sus visitas al laboratorio. Aquel universo le parecía lo más avanzado posible, el modernismo se expresando vivamente ante él, era la materialización completa del futuro, de la excelencia y del progreso. El caótico momento de llegar al laboratorio le pareció más bien una gran aventura. Recorrer aquellos amplios pasillos de baldosas de color beige, con sus interminables estanterías de madera, en las que se exhibían, como en un museo, infinidad de tubos de ensayo, beckers, erlenmeyers, balanzas, elementos químicos, tablas diversas y otras multiplicidades de objetos que él sólo había soñado con descubrir tal vez algún día. La verdad es que todo aquello parecía de otro mundo, y fascinaba al muchacho, que se regodeaba en un universo tan complejo, regido sin más ley que las exactas leyes del cálculo, de las medidas matemáticas y los más puros métodos positivistas de hacer ciencia; "hacer verdadero conocimiento", pensaba el chico. Menos aturdido por los encantos del laboratorio, Filho ya estaba sentado, esperando a que el reloj de la pizarra diera las doce y media. Ni un minuto más ni un minuto menos, esa era la puntualidad de su profesor. Como era de esperar, el reloj anuncia la hora en cuestión y, precisamente, la puerta del aula se abre. El profesor entra. Los alumnos se ponen en pie. "Buenos días, Señor Doctor Profesor Haroldo", exclaman juntos. Vuelven a sentarse. Y el silencio se apodera del aula.
El profesor Haroldo era una figura extremadamente controvertida. En una época de tradiciones tan rígidas, de fuerte conservadurismo, de religiosidad sagrada casi unánimemente practicada, adorada, respetada y exigida por todos, Haroldo se posicionaba firmemente como ateo. ¡Era un escándalo! Todo el mundo solía comentar este hecho por las esquinas, a veces susurrando, a veces simplemente mirándose. La verdad es que no se esforzaba en ocultarlo y, como profesor, literato, maestro en ciencias e indudablemente respetado, lo conseguía con éxito. A Filho, la posición del Doctor siempre le pareció escandalosa, una verdadera afrenta a todo lo que conocía, desde las costumbres de la casa, hasta la forma en que pensaba de sí mismo, pasando por la manera en que estaba organizada la sociedad en la que vivía. No podía esperar que ese mismo día, Haroldo, tal vez el individuo más "gris", en términos maniqueos, conocido por nuestro personaje, viniera a sacudir unos cimientos tan consolidados en el núcleo mismo de Filho.
Al cabo de unos tres minutos en completo silencio, con la mirada fija en toda la sala, Haroldo se levantó. Saludó a la clase, se dio la vuelta sobre la enorme mesa que tenía delante, repartiéndola entre él y los alumnos, que le observaban como en un espectáculo, y empezó a escribir tranquilamente con su tiza la siguiente frase: "La existencia de Dios". Como era de esperar, todos los alumnos se sorprenderon, pero en silencio. Filho intercambió miradas con sus amigos, soltó una leve risa, que se le escapó por la comisura de los labios, y no pudo evitar deleitarse con semejante barbaridad, era una auténtica burla y por eso le hacía tanta gracia. Haroldo era un hombre muy inteligente, eso estaba claro, y ese día decidió aprovecharse para escandalizar a su público, que estaba atento como nunca. En realidad, la lección versaba sobre termodinámica, más concretamente sobre el proceso de electrólisis del agua. Pero Haroldo no pensaba darla de forma convencional, en absoluto. Así que se puso a recoger, de entre aquellas infinitas estanterías adornadas con los objetos más milagrosos, algunos de los artificios necesarios para este experimento - Desgraciadamente, no soy el químico adecuado para proporcionaros los detalles más sórdidos de esta magistral peripecia, pero intento contarlo con la misma vislumbre de cómo me lo contaron a mí -. Me contaron que aquella imponente figura, que en realidad era el profesor Haroldo, colocó sobre su enorme mesa de experimentos un gran compartimento de cristal, algunos pequeños recipientes metálicos, una especie de batería eléctrica y algunos tubos de plástico; toda una serie de objetos que parecían salidos de algún antiguo cuento sobre misteriosos alquimistas.
- "Hoy todos aquí conocerán a Dios. Así es, no se sorprendan. Presten mucha atención, porque el Todopoderoso no suele darse el lujo de hacer apariciones como ésta. No sabéis el tremendo esfuerzo que he tenido que hacer para conseguir este encuentro. Espero un mínimo de gratitud", exclamó el gran Señor Doctor Profesor Haroldo ante sus alumnos, con un aire sumamente irónico.
Entonces empezó a encajar unas piezas por aquí, otro tubo por allá, conectó la batería en algún sitio y ahí estaba. Todo estaba listo para el experimento, pero sintió que tenía que hacerlo un poco más dramático y reclamó la atención de los alumnos. A estas alturas, nuestro sorprendido muchacho casi tenía miedo de algo. Realmente no entendía lo que estaba a punto de suceder y temía que Dios lo reconociera y lo castigara delante de todos sus amigos. Sin embargo, hoy estaba muy disgustado con el Señor y estaba seguro de que Él lo sabría, ¡porque Él sabía todo lo que había que saber! Sudó un poco mientras el profesor le daba los últimos retoques, incluso sintió un ligero temblor en su mano izquierda y sabía que le delataría. "¡Claro que verá que soy zurdo!", se desesperó el chico en silencio. Sin saber muy bien qué hacer, se sentó sobre su propia mano en un vano intento de neutralizarla y ocultarla, y así permaneció. Entonces el profesor reclamó atención y dijo que "ahora era el momento". Pidió a todos que abrieran bien los ojos, que miraran profunda y atentamente aquel compartimento de cristal y que no dejaran escapar de sus ojos un encuentro tan singular. Lo juro, realmente creo que Filho fue incapaz de pestañear en aquel momento. El profesor encendió entonces las herramientas y comenzó la química; en el interior de aquel cubo de cristal, lleno de hidrógeno gaseoso, se produjo un proceso de combustión, revelando como resultado luz y un intenso calor, antes de dar paso a vapor, que no era otra cosa que agua. Sí, Haroldo había producido agua a partir de un recipiente de vidrio aparentemente vacío. En ese momento, los sentimientos de asombro de la clase no pudieron contenerse, habría sido imposible. Gritos de preocupación, sorpresa, incredulidad, excitación e descreimiento resonaron por todo el laboratorio. Filho se rió, no podía creer lo que acababa de vivir. Había visto cómo se creaba agua de la "nada", delante de sus ojos. Pero se reía de verdad, porque había comprendido el juego irónico del profesor. A pesar del susto, había tenido la decepcionante sensación de que Dios no había estado allí. Y eso fue precisamente lo que Haroldo empezó a explicar unos instantes después de que el ambiente en la clase se hubiera normalizado. El profesor no cabía en sí de su ironía, así que se volvió hacia la pizarra, borró la "A" que había escrito, la reescribió un poco más a la izquierda y añadió un "NO" en mayúsculas entre esa frase, que ahora decía: La NO existencia de Dios. Atónitos, todos siguieron hasta el final la disertación del profesor, que rápidamente pasó a términos más técnicos y así se desarrolló la lección sobre la termodinámica.
Filhio volvió a casa ese mismo día todavía en estado de shock. Empezó a cuestionarse todo lo que le rodeaba. Este regreso, que a la ida se había caracterizado por un cierto asombro casi ingenuo, se caracterizó ahora por una serie de preguntas más brutales, de carácter verdaderamente naturalista y cientificista. Estaba decidido a pensar en cuántos otros fenómenos aún más complejos que la propia existencia y aparición del agua podrían explicarse con términos tan ingeniosos como "electrólisis" o "termodinámica", y pasó gran parte del día orbitando en torno a estas cuestiones. Con el temperamento ya encendido, decidió que, al llegar a casa, confrontaría a su padre con los conocimientos adquiridos y, con ello, soñaba con liberar su mano, su destino y su forma de ver y percibir el mundo. Eso es lo que iba a hacer, y eso es lo que hizo.
Mário Filho se dio cuenta empíricamente de que Haroldo no era más que un maestro del ilusionismo. La existencia de Dios volvió a quedar demostrada allí mismo, de una forma menos grácil, mágica e impresionante. Fue derribado del pedestal pedante e insolente en el que su maestro lo había colocado. Tras sentir por primera vez el determinismo de acero del Señor cuando descubrió ser el primogénito, y después de su segundo encuentro cuando se topó cara a cara con Su intemperancia ante su oscuro miembro, se encontró por tercera vez ante el Padre de Todos, esta vez en la forma de su propio padre biológico, que se empeñó en darle una lección aún más completa que la que había presenciado antes en la escuela. Así, la furia divina se hizo realidad ante sus ojos y sobre su piel. Allí descubrió la innegable materialidad de la vida, a la que poco - o nada - importaban las fórmulas matemáticas que se pueden escribir con tiza. Dios existía, porque él lo sentía, ardiendo en su cuerpo, esta realidad era dura, le gustara o no. Hasta hoy se dice que fue realmente ese día, en los lejanos años cincuenta, cuando Mário descubrió la existencia de Dios.
In English:
Today I'm telling you the story of an individual who met the divinity we commonly call God; in an encounter that was nothing short of atypical and thought-provoking. He met Him in all His different nuances, from the laws written in iron and fire to His Motherly embraces and consolations, which both punish and caress. However, perhaps because of the abstraction of the Divine or - others would argue - his ill-founded faith, our subject of analysis, a young boy of 14, had a hard time understanding, believing in and feeling such an imposing and omnipresent figure. There are those who say that it was precisely for this reason of doubt and difficulty that the boy even allowed itself to receive the supreme gift they call 'freedom'; others would say that, for exactly the same reasons, he was never able to truly know the 'freedom' promised by God. I don't propose here to explain the many facets of this term, which to this day seems to insist on being an obstacle in the dictionaries that are published around the world. Not at all. My desire here is to tell a story, certainly far from being one of the most astute adventures of this character, dating back many years, traced in other times, but which stubbornly holds up so well until the moment in question.
Just as I heard it for the first time, I'm transcribing it in this short story. It was a unique episode, which, in order to be truly understood, requires personal context about the object that experienced it. I'm afraid I'm not able to provide strictly accurate data about the time frame of this story, but I have the notion that it was written in the mid-fifties, around 1957, I believe; however, the months, weeks and days I feel have been lost with the passing of the clocks that have carried us to this day and, therefore, I lack them. For this very reason, I beg the curious reader's pardon for the historical inaccuracy of the facts, but I like to think that such a fatality does not stand in the way of understanding what happened in these remote times. So let's move on at once.
The story takes place in the suburbs of Rio de Janeiro, at a time when Brazil was still called the United States of Brazil and the flag was missing four stars. In the neighborhood of Pilares, marked at the time by its strong commerce and the activities of the association called Centro de Comércio e Indústria de Pilares, or CCIP, the family of our relaxed character stood out, hidden among the swarm of people. A family with Portuguese roots, formed in the northern region of the country's capital at the time, it was strongly hierarchical, marked by the presence of a strong father, a mother who accompanied him, and their four children, including our character, who was the only male among his three sisters. This status guaranteed him a series of benefits and demands, and it is said that when he took note of this, he experienced the inflexibility of God and his unyielding determinism for the first time. The responsibilities, demands and benefits of this burden - or gift - of being found as the future patriarch of the family at such a young age were present with the boy from a very early age, and were constantly reaffirmed, reminded and demanded by his father, who appealed to God's fire and iron to ensure that the firstborn never forgot his obligations. Not long after that, but on top of that, he suffered the terrible condition of being born left-handed, and so he witnessed in his life, right in front of him and in him, the clash between Heaven and Hell, God and the Devil, the Sacred and the Profane. Everything was wrong; he himself was all wrong, he had been born cursed, kissed by the Beast and condemned to write with his clumsy left hand. Obviously, God's determinism would never allow a blasphemy of these proportions to go unpunished, and through his father and his tutors at the College he was forced to abandon this satanic practice and saw the power of God a second time. Spankings, punishments and insults were some of the sacred remedies prescribed to our young man, who took them, thanking them and making himself understand that he suffered from a very serious pathology: he was disgraced by the Beast with the unforgivable condition of being left-handed, it is true. "Damn!" he thought every time a slight impulse to use that nefarious limb arose. Today, they say that due to a lack of discipline, courage or rebellion, he consciously uses his dirty, irreverent left hand.
What I say here and from now on has no confirmation other than my own suppositions and wandering imaginations. I will say, then, that I believe this moment, described above, was the genesis of our protagonist's embrace with the doubtful, the contradictory and the murky. Filho - we'll call him that for now - discovered at that moment that there were things inside him that weren't so sacred. I'm not saying that he was proud of this, because I tend to think that it really didn't please him to realize the hypocritical condition of being human: being so sacred, a divine creation, and yet exposed so crudely to the wills and desires of evil. But even then, from an early age, he abandoned the Manichean duality of good and evil, black and white, and continued his life in a gray tone and pace. "How would the omnipotent react to such an affront?" we might ask ourselves, as he did.
The truth is that such divine, exoteric and often abstract concerns went, I suppose, unnoticed by the young boy sometimes. Filho was a restless, artful, ingenious, intelligent and gallant boy, all this from a very young age, yes. He had an inexplicable fondness for study; he would spend hours upon hours with his head mired in books, feeding his hungry curiosities that ranged from the brazilian republican revolts to the variables of a mathematical function, it's true. He came to be known among his classmates as the "C.D.F" - or "Cu De Ferro" (Iron's ass, in english) for those who aren't so keen on acronyms, as was the one who once told me this anecdote - a definition more than fitting for an element capable of sitting for hours on end in those cold wooden chairs at his school. It's worth telling you that this school will be the scenery of a great unholy discovery by our astute protagonist, who is a prominent figure in the student milieu. Impeccable uniforms, consisting of elegant white shirts with four beautiful black buttons, ocean blue pants - or skirts, as our character has always been keen to point out - and, on the left side of the chest, the symbol of the institution bearing the name of the first, and only, truly Brazilian Emperor - not that such a title says much outside of the unrealistic abstractions that are created within these circles, much drowned in their own monarchical fantasies, I add here unpretentiously -. This is how the students of Colégio Pedro II paraded, elegantly, like brilliant young people; the various futures of the nation, along Avenida Marechal Floriano, day after day, embellishing the city of Rio de Janeiro. I'm sure I'm transcribing with almost the exact words with which this scene was described to me. But after describing this jovial, vivid and hectic scene that was unfolding in the center of the city of Rio de Janeiro, let's return to our little boy, who, despite being confused in the midst of such a crowd of charming individuals, found himself facing a great discovery that very day.
The day had dawned clear, blessed - you could say - with a blue sky, the smell of coffee powder in the house, and birds watching out of the window. In fact, it wasn't even that early anymore. Filho woke up at nine o'clock, usually overcome by a laziness that took over and almost no desire to start the day. He knew that his lessons took place religiously and strictly at noon and that he had to be on time at ten in front of the electric streetcar station that took him to the bustling city, if he didn't want to suffer another punishment himself: the dreaded spanking, which in cases like this of indiscipline was applied democratically to both his hands, without distinction! You can already imagine that haste and a sense of urgency were what drove our boy around the house; looking for his shoes in the corner of the room, still without his socks on; buttoning up his shirt while brushing his teeth; drinking his coffee quietly to the desperate sound of his mother's screams, who was trying - without much success - to put some sort of order into the usual disorder. She combed the boy's hair a few moments before he left, while she said the Lord's Prayer to him, scolded him for holding his coffee cup with his putrid hand and warned him about what his father would say if he were home in the morning and saw that shambolic scene. "You wouldn't do all this vexatious stuff, would you?" she told him. Filho was already adept at filtering his mother's words; he would kiss her on the forehead, ask for her usual blessing and then walk off in disarray in the direction of the yellow streetcar, carrying his utensils in an exaggeratedly large brown leather bag, and then he would get on it; this streetcar which Filho never ceased to be fascinated by its ingenuity and practicality, he confessed to me a few times.
The boy always used to sit on the left-hand side of the streetcar, glued to the window, driven to this by his insatiable desire to catch a glimpse of the immensity of the city he had always explored. The journey to the Colégio was rather long, about an hour and a few broken minutes, if I remember the details correctly; a time often taken up by a jovial and frivolous introspection that allowed him to travel through many thoughts along the way. On this beautiful day, Filho stretched his left hand out of the window to play an almost timeless game: he pretended his hand was a bird, flying and gliding through the vast expanse of people, buildings, green, blue and strangeness. But this time, likein many others, he was caught up in his thoughts as he sadly realized that once again he was truly enjoying that unworthy member of his. He pulled his hand out of the transport, looked at it with a certain melancholy air, looked away a few times and asked himself: "Maybe God would be a little happier if I sat on the other side". He was saddened to see all the seats occupied and wondered, indelicately - some will say - what was the reason for such a boorish punishment imposed on him by the Father of All. In fact, on the same trip, this ended up triggering a series of rather profound thoughts for a young man like that. First, he turned to the left window and almost surrendered to the impulsive urge to put his damn hand out again, but this time he repressed it, gripped both hands tightly together, pressing quite hard on the 'forbidden' one, with a certain anger - almost resentment, you could say. At this point, as if to keep himself focused on the repressive act, he stared quite seriously at the floor and began to notice himself with singular attention. He took a good look at those shoes, those indigo pants, caught a quick glimpse of the small pack of cigarettes he was hiding to impress his young classmates and ended up assuming a dangerously self-conscious, fearful face. He saw himself as a fourteen-year-old adult, and so the sacred obligations of a future patriarch came to the fore; the pants made him feel trapped at that moment, he even wondered why he was wearing them in the heat, and realized once again that the explanation was as shallow and weak as not being able to write left-handed. Then, already a little bewildered, he looked once more at the pack of cigarettes and nausea took hold of him; he remembered the beating his father had given him the time he discovered such carelessness, and at that moment he almost fainted. Then the streetcar abruptly stops and he sees from a distance the immensity of little creatures, like him, in blue and white, walking in packs, and then he comes back to reality and jumps out into the street.
When he found himself near the façade of the monumental Colégio Pedro II, at eleven o'clock and a few minutes later, I suppose, Filho approached his mutual friends with a slight but weak smile; he handed out cigarettes and cautiously lit them for some of the young hustlers who called him friend, spending his last five minutes before entering the building. They were feeling serious at the moment. They were talking about the day, their future plans, the young women they were falling in love with and sharing their difficulties and challenges with regard to the demands of the institute. Many asked Filho for advice, questioned him, tried to get their hands on some of the answers to the day's homework, things that usually worked, but not today. Filho, a confused young man, smoked that dirty cigarette with distaste. In truth, he still hadn't completely escaped from the tangle of questions he'd asked himself earlier, and he continued to look rather serious, unnoticed, staring at the rosary his companion was carrying in front of him. However, it wasn't long before the school bell rang eloquently and dispersed everyone there. It was time to start the school routine, to enter that separate universe and try to put aside at least a fraction of these bewildering worries. So off they marched, full of a certain pomp, towards the entrance doors, which were always hotly contested at this time.
Classes started differently for our character today. Not because it was some kind of miraculous or surprising event, but because it was the day of an experimental lesson in the chemistry laboratory. The truth is that our C.D.F. was tremendously excited about his regular visits to the lab. For him, that universe seemed as advanced as possible, modernism was expressing itself vividly in front of him, it was the complete embodiment of the future, of excellence and progress. The chaotic moment of arriving at the laboratory felt more like a great adventure. Walking through those wide beige tiled corridors, with their endless wooden shelves, displaying, as in a museum, an infinitude of test tubes, beckers, erlenmeyers, scales, chemical elements, various tables and other multiplicities of objects that he had only dreamed of perhaps one day discovering. The truth is that it all seemed out of this world, and it fascinated the young boy, who was delighted by such a complex universe, governed by no other law than the exact laws of calculations, measurements and the purest positivist methods of doing science; "doing true knowledge", the boy thought. Less dazed by the charms of the laboratory, Filho was already sitting down, waiting for the clock at the top of the blackboard to strike half past noon. Not a minute more or less, that was his teacher's punctuality. As expected, the clock announces the time in question and precisely the classroom door opens. The teacher enters. The students stand up. "Good morning, Mr. Doctor Professor Haroldo," they exclaim together. They sit down again. Silence takes over the room.
Professor Haroldo was a figure of extreme controversy. At a time of such rigid traditions, strong conservatism, sacred religiosity that was almost unanimously practiced, adored, respected and demanded by all, Haroldo was firmly positioned as an atheist. It was a scandal! Everyone usually commented on this fact in corners, sometimes whispering, sometimes just looking at him. The truth is that he didn't make a point of hiding it and, as a professor, a literate man, a master of the sciences and undoubtedly respected, he managed to do so successfully. To Filho, the professor's position always seemed scandalous, a real affront to everything he knew, from the manners of the house, to the way he thought about himself, to the way the society in which he lived was organized. He couldn't have expected that on this very day, Haroldo, perhaps the most 'gray' individual, in Manichean terms, known to our character, would come to shake such consolidated foundations in Filho's very core.
After about three minutes in complete silence, staring at the whole room, Haroldo stood up. He greeted the class, turned around on the huge table in front of him, dividing it between himself and the students, who were watching him like in a spectacle, and calmly began to write the following saying with his chalk: "The Existence of God". As expected, all the students were amazed, but silently. Filho exchanged glances with his friends, gave a slight laugh, which escaped from the corner of his mouth, and couldn't help delighting in such an outrage, it was a real mockery and that's why he was so amused. Haroldo was a very clever man, that's a fact, and on this day he decided to use that to shock his audience, who were attentive as never before. The lesson, in fact, was about thermodynamics, more specifically about the process of electrolysis of water. But Haroldo didn't plan to give it in a conventional way, not at all. He then began to pick up, from among those endless shelves adorned with the most miraculous objects, some of the devices needed for this experiment - Unfortunately, I am not the chemist to provide you with the most sordid details of this masterful peripeteia, but I try to tell it with the same glimpse of how it was told to me -. I was told that this imposing figure, who really was Professor Haroldo, placed on his huge experimental table a large glass compartment, some small metal containers, a kind of electric battery and some plastic tubes; a whole series of objects that seemed to have come from some kind of ancient tale about the mysterious alchemists.
- "Today everyone here will meet God. That's right, don't be surprised. Pay close attention, because the Almighty doesn't usually have the luxury of making appearances like this. You don't know what a tremendous effort I had to make to get this meeting. I expect a minimum of gratitude", exclaimed the great Mr. Doctor Professor Haroldo in front of his pupils, with a highly ironic air.
He then began to fit together a few pieces here, another tube there, connected the battery somewhere and exited. Everything was ready for the experiment, but he felt he needed to make it a little more dramatic and demanded the pupils' attention. Our shocked boy was almost afraid of something at this point. He didn't really understand what was about to happen and he was afraid that God would recognize him and punish him in front of all his friends. He was still very angry with the Lord and he was sure that He would know about it, because He knew everything that could be known! He sweated a little as the teacher put the finishing touches to it, he even felt a little tremble in his left hand and he knew it would give him away. "Of course He'll see that I'm left-handed!" the boy despaired silently. Not really knowing what to do, he sat on his own hand in a futile attempt to neutralize it and hide it, and remained that way. The teacher then demanded attention and said that "now was the time". He asked everyone to open their eyes very wide, to look deeply and attentively into that crystal compartment and not let such a unique encounter escape their eyes. I swear, I really believe that Filho was unable to blink at that moment. The professor then switched on the tools and the chemistry began; inside that glass cube, filled with hydrogen gas, a combustion process took place, revealing light and intense heat as a result, and then giving way to steam, which was nothing more than water. Yes, Haroldo had produced water from an apparently empty glass container. At this point, the class's feelings of amazement could not be contained, it would have been impossible. Shouts of concern, surprise, disbelief, excitement and incredulity rang out across the laboratory. Filho laughed, he couldn't believe what he had just experienced. He had seen the creation of water from 'nothing', right before his eyes. But he was really laughing, because he had understood the teacher's ironic game. Despite his fright, he had had the disappointing realization that God had not passed by. And that was precisely what Haroldo began to explain a few moments after the mood in the class had normalized. The teacher couldn't get enough of his irony, so he turned to the blackboard and added a "NON" in capital letters between that sentence, which now read: The NON-Existence of God. Stunned, everyone followed the professor's lecture to the end, which quickly turned to more technical terms and so the lesson on thermodynamics unfolded.
That same day, Son returned home still in shock. He began to wonder about everything around him. This return, which on the way out had been marked by a certain almost naïve amazement, was now marked by a series of more brutal questions, of a non-technical nature, of a truly naturalistic and scientific nature. He was determined to think about how many other phenomena even more complex than the creation of water itself could be explained by terms as ingenious as "electrolysis" or "thermodynamics", and he spent much of the day orbiting around these questions. With his temper already flaring, he had decided that, when he got home, he would confront his father with the knowledge he had acquired and, with this, he dreamed of freeing his hand, his destiny and his way of seeing and perceiving the world. He was really going to do it, and so he did.
Mário Filho empirically realized that Haroldo was nothing more than an illusionist. The existence of God was proven again right there, in a less graceful, magical and impressive way. He was knocked off the pedantic and insolent pedestal on which his teacher had placed him. After first feeling the Lord's steel determinism when discovering himself as the first-born son, and then his second encounter when he was faced with His intemperance in the face of his dark hand, he found himself before the Father of All for the third time. This time in the form of his own biological father, who made a point of giving him an even more complete lesson than the one he had witnessed earlier at school. Thus, the divine fury became true before his eyes and in himself, on his skin. There he discovered the undeniable materiality of life, which cared little - or nothing - for the mathematical formulas that one can write with chalk. God existed, because he felt it, this reality was hard, whether he liked it or not. It is said to this day that it was really on this moment, in the distant 1950s, that Mário discovered the existence of God.
Nesse aí você deu aula demais! Viva Seu Mário!
ResponderExcluirGrande Mário! O maior contador de firula que conhecemos
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