Terapia Express Líquida.
Em Português:
- "Isso, isso aí. Um vermute e uma porção de azeitonas. Das gordas. Sem caroço, que hoje estou meio preguiçoso." - Digo.
- "E a rodela de laranja! O do costume, o senhor tá certo." - Sagazmente adiciona o garçom.
Há algo de terapêutico em assistir ao vermute sair do grifo, observá-lo a minha frente, derretendo o gelo e afogando a fatia de uma laranja e a carcaça de uma azeitona. Bebida terapêutica. Jaz aí uma combinação fatal. Um quê de curioso, um pequeno gostinho do passar do tempo ali mesmo, diante de mim, uma pequena demonstração da vida. Uma experiência sensorial, uma mescla de sabores, dois aperitivos bem marinados como recompensa e uma certeza de quero mais. O vermute é um convite a um algo a mais, é verdade. Vamos, é um anúncio suave de um início de algo com possíveis fins muito pouco definidos. Imprevisível! Isso, é isso mesmo. O vermute é também uma desculpa. Desculpa para sair, pra ver gente, ver sol, ver cor. É uma desculpa pra falar merda também, ou pelo menos pode ser! Coloca aí: Terapia express líquida. Patenteia e embala, isso pega. Eu te prometo.
Encho a boca com uma azeitona e logo o devaneio acaba, acho. Tiro uma caneta do bolso e anoto a ideia, pois é sempre melhor se precaver do que remediar. Ou pelo menos me diziam isso. Olho com uma cara feia pra frente, pensando, bico da caneta perfurando o queixo.
- "Tudo certo, cavalheiro?" - Pergunta cordialmente Juárez, o garçom. Sinceramente, até hoje não peguei muito bem essa ideia do 'cavalheiro'. Quer dizer, sim, mas me parece uns cem anos ultrapassada. É antiquada, vamos. Haviam de inventar um vermute para as expressões populares também. Tá aí, uma bebida neural, isso seria novidade. Não sei, talvez ajudasse com o passar do tempo, das ideias, das palavras.
- "Opa, sem problemas! Terapia express líquida. Que tal? Soa bem? Bem contemporâneo, não é não?" -Brinco, mas no fundo realmente estou querendo pôr em prática, no teste de fogo, por primeira vez aos ouvidos do público, essa ideia tão inovadora. Ideia esta que certamente não verá materialização maior que seu próprio nome escrito em tinta de caneta num guardanapo, penso.
- "Começamos cedo hoje, não?" - Contesta, com uma risada bastante sincera, o querido Juárez. Fico um pouco triste, confesso. Não sei, talvez desta vez fosse algo para mais além do guardanapo. De qualquer maneira, guardo o trapinho rabiscado e desço um gole mais no vermute. Mas não desisto.
Grande, alto, bem apresentado, e com um quê de melancolia. Senta ao meu lado, mas parece não estar muito decidido do que quer. Em todos os sentidos, digo. É ele, penso. O Juárez está ocupado, certamente não daria a importância devida a esta novidade tão nova, novinha, bem recente e inovadora. Isso, isso aí. Tudo muito fresco. É o primeiro cliente perfeito, o paciente número zero do revolucionário método da terapia express líquida. Gostei, é isso. Vai ser isso aí.
- "Um vermute, chefe? Digo por dizer, somente!" - Faço minha primeira aproximação. Despretensioso, vamos.
- "Olha, não é um mau pedido, garoto. Pode ser. Me vê um vermute?" - Suplica o paciente zero. Perfeito, é isso. É hora de colocar em prática.
- "Boa pedida. Prazer, Dante Rio. E o cavalheiro?" - Sim, antiquado. Eu sei. Sim, eu sei. Mas, acho que é a pedida para quebrar o gelo com esta alma tão enrugada. Vai dar certo, eu penso.
- "Encantado. Tomás. Tomás Cruces. Uruguaio." - Responde, pausadamente, o rugoso Tomás Cruces.
Começamos a conversar sem muito mais a partir daí. Me conta um pouco sobre o seu passado uruguaio, mencionado na sua breve e curta apresentação. Figura curiosa, devo admitir. Saiu de lá, terra vizinha, há uns vinte anos. Diz ele que foi meio fugido, meio arrastado, meio por querer. Não tive muita certeza, sinceramente. Era sujeito esses de pouco olhar, meio perdido, pouco foco. Eu sentia que tudo ao redor do bar era mais interessante do que a minha conversa. Caceta, sou chato à beça, concluo. Não vai dar muito certo esta minha aventura empreendedora. Mas calma, sem muito alvoroço, pois o vermute chegou.
Está aí uma outra curiosidade do vermute: não me pertencia, mas o prazer era comparável. O som do estalar dos cubos de gelo, a azeitona buscando o seu ponto fixo, ainda meio flutuante no copo, e a laranja se ajustando no meio da brincadeira. Sinto quase um espasmo. Bom sinal, Tomás também está fixado no fenômeno. Já temos o primeiro precedente, a primeira hipótese. Talvez a bebida esta realmente tenha propriedades hipnóticas singulares. Faço uma nota mental e sigo.
- "Mas que história é essa de sair do Uruguai? Quer dizer, eu entendo. Também ando longe da minha terrinha. Cada um de nós tem seu motivo, não é?" - Sigo com a conversa. Já nem tão somente pela aplicação do método científico, senão por curiosidade. Há algo de bonito também no compartilhar, maneira tão bonita de polir os enferrujados filmes da memória e os ressignificar. Surpreso? Tenho uma certa habilidade para a sensibilidade e a insensatez. Isso. É isso! Começam aqui os efeitos práticos da terapia express líquida. Está funcionando.
Tomás me conta sobre um tempo que passava arrastado. Dores de outro amor. Uma certa tempestade em copo d'água, penso ao princípio, devo dizer. Mas a trama se torna cada vez mais complexa e intrigante. Um amigo da onça no meio, algo sobre uma mulher camaleão e toda uma revolta política por trás. Esse cara era um personagem, sem mais. Vai seguindo com a história, fala das várias cartas que escrevia a uma pessoa amada, parecia viver em dois mundos distintos ao mesmo tempo. Era um tipo bem sentimental, isso era nítido. Deu uma pausa e deu um gole mais no vermute, agora no seu melhor momento. Bem gelado, como deve ser. Isso com certeza influencia nos efeitos da terapia express líquida. Faço uma nota mental a mais.
Dou um gole outro no meu vermute também. Estou envolvido na história, mas tento manter o foco na missão. A verdade é que há algo de familiar no Tomás. Quer dizer, eu também já sofri por amor. Vamos, quem nunca? Mas havia algo de trágico também, algo que nos diferenciava neste sentido. O homem era um caso único de sofrimento amoroso eterno. A história que contava, pelo que eu pude entender, e estava eu bem atento, se prolongava por uns bons trinta anos já. Era grave. Começava a ter dúvidas. O meu método científico começava a apresentar variáveis muito complexas. Estava ficando confuso. Talvez esse realmente fosse o paciente zero e o método era extremamente eficaz. Talvez eu simplesmente acabava de me encontrar com um louco. Isso impacta a aplicabilidade do experimento. Fico meio assustado, mas decido seguir em frente.
- "Calma. Não sei se entendi muito bem a ideia. Marta, é isso? É isso. O que houve com ela? Me perdi, desculpa." - Sigo, movido por uma curiosidade e um certo nervosismo.
O buraco era mais embaixo. Esta tal de Marta era mais ou menos tudo na vida deste homem, mas ao mesmo tempo não tirava dele a sensação de melancolia. A história que contava cheirava e ouvia-se como um Romeu e Julieta latinoamericanizado à la século XX. Tomás, há uns vinte anos atrás, recebeu uma proposta de trabalho e se mudou para Madri. Sim, basicamente largou tudo e foi atrás de um amor que já naquela época tinha por alto uns dez anos de idade. Claramente ele havia feito de tudo por aquela pessoa incapaz de responder a uma carta! Eu estava perplexo. Não sabia mais se continuava com o experimento ou se escrevia um best-seller. Era impressionante. Que figurinha mais rara. Mas eu me assustava um pouco também. Não pela história, em si. Não serei tão exagerado. Mas sim por pensar que talvez eu pudesse estar na mesma posição deste indivíduo. Em outra realidade. Talvez eu estivesse também, quem sabe. Assim, sejamos honestos, todo mundo acaba vivendo alguns amores durante a vida, não é? Cada amor se esvai com o tempo que o convém, é verdade também. Nesse momento, justamente aquele que estava meio mal resolvido surgiu na minha cabecinha. É isso. É isso aí. Penso no tempo, sinto essa aflição de possivelmente me converter num objeto congelado no tempo como Tomás e, num ato de desespero, termino de um gole o vermute. Ajuda com o passar do tempo, não era isso que eu tinha dito?
- "Tudo bem aí, jovem?" - Preocupadamente pergunta o rugosíssimo Tomás Cruces.
Antes de ser consumido por aquele repentino estresse, vejo aquela linda laranja e aquela suculenta azeitona gorda. Me acalmo. Nada como uma recompensa depois de terminar um breve vermute. Delícia. Distraído, respondo:
- "Bem tranquilo, na verdade. Distração boba. Coisas dessas que vêm e vão, sabe?" - Respondo, automática e inconscientemente, realmente. Foi impressionante, eu juro.
Contente com a resposta, Tomás segue com a sua história. Mas eu já estava ali somente em corpo. Minha mente borbulhava. Caceta. É isso. Isso aí! A terapia express líquida realmente funciona. Tudo bem, talvez tenha sido eu o paciente zero. Procurei por um relógio. Reparei no pulso de Tomás. Um relógio quebrado. Bem estranho. Mas pergunto, com uma certa pressa e um sentido de urgência notável:
- "Desculpa interromper. Esse relógio, funciona? Precisava saber que horas são." - Indelicadamente pergunto e interrompo. Mas tudo bem, é em nome da ciência, justifico.
- "Funciona, sim. História curiosa. São as duas e três da tarde, jovem." - Responde, melancólica e rugosamente, Tomás Cruces.
Vinte e três minutos. Aproximadamente. Incrível, funciona. Acho que isso se aplica ao termo express. Em menos de meia hora eu obtive a resposta de uma questão que estava aí por tanto tempo. Quer dizer, antes daquele vermute eu nem mesmo havia pensado nisso. Mas estava aí, é verdade. Um medo este de ser um Tomás para sempre. Não, jamais. Jamais vender sua vida e uma cara sem rugas por qualquer coisa existente nesse mundo. Esse foi o subproduto extraído da primeira sessão da terapia express líquida que se tem registro na história da humanidade.
No meio do meu alvoroço mental, volto a escutar o desenrolar da história. Tomás Cruces chegou a Madri, a encontrou, recebeu migalhas de afeto. Foi recusado, vamos. E seguiu nessa luta interna de um amor meio morto-vivo e decrépito. Nesse momento, vejo uma certa tristeza tomar conta de seu rosto e me compadeço profundamente. Penso nos efeitos que acabo de observar em mim mesmo. Olho em seus olhos, olho para o vermute e digo:
- "Vamos, Tomás. Falta pouco, termine isso." - De modo a receber o feedback imediato do segundo ilustre paciente, efetivamente.
Termina com um gole. Permanece a cara cabisbaixa. Fixo meus olhos nos seus, de modo a analisar o seu foco de visão e receber alguma pista se ele também reparará na recompensa do vermute. Seus olhos baixam um pouco. É isso! Isso aí. Ele notou. Vejo uma mudança de expressão. Por um momento, some de seu rosto a expressão rugosa. É um leve sorriso. Incrível. Tomás Cruces come a azeitona, despedaça a rodela de laranja e ri. Ele dá um riso! Está comprovado. Quase pulo de alegria.
- "Boa pedida, garoto." - Acrescenta, escapando um breve sorriso no canto da boca.
- "Não é? E a recompensa sempre vem no final. Confie." - Digo, feliz e animado. O método funciona, acho.
Dou um beijo na testa de Tomás. Me despeço. Deixo uma nota de cinco com Juárez. Estão pagos os vermutes, com muito gosto. Saio à rua. Por alguma razão, me sinto leve. Tiro o papel amassado e rabiscado do bolso, e num impulso de insensatez, jogo na lixeira o único registro físico da terapia express líquida. Penso que a última coisa que o mundo precisa é de mais um produto sobrevalorizado que faz exatamente o mesmo que algo inventado há séculos. Penso aí também que cheguei a entender um pouco do charme do antiquado. E por fim, penso mais uma vez: amanhã acho que tomarei outro vermute. E sigo.
En Español:
- "Eso, eso mismo. Un vermut y una ración de aceitunas. De las gordas. Sin hueso, que hoy estoy un poco perezoso." - Digo.
- "¡Y la rodaja de naranja! Lo de siempre, señor, está bien." - Añade astutamente el camarero.
Hay algo terapéutico en ver el vermut salir del grifo, observarlo frente a mí, derritiendo el hielo y ahogando la rodaja de naranja y la carcasa de una aceituna. Bebida terapéutica. He ahí una combinación fatal. Un toque de curiosidad, un pequeño sabor del paso del tiempo justo delante de mí, una pequeña demostración de la vida. Una experiencia sensorial, una mezcla de sabores, dos aperitivos bien marinados como recompensa y una certeza de querer más. El vermut es una invitación a algo más, es verdad. Vamos, es un anuncio suave de un comienzo con posibles fines muy poco definidos. ¡Imprevisible! Eso, eso mismo. El vermut también es una excusa. Excusa para salir, ver gente, ver sol, ver color. Es una excusa para decir tonterías también, ¡o al menos puede ser! Ponlo ahí: Terapia express líquida. Paténtalo y envásalo, eso pega. Te lo prometo.
Me lleno la boca con una aceituna y enseguida el ensueño se desvanece, creo. Saco un boli del bolsillo y anoto la idea, pues es mejor prevenir que curar. O al menos eso me decían. Miro al frente con cara de pocos amigos, pensando, con la punta del bolígrafo perforando el mentón.
- "¿Todo bien, caballero?" - Pregunta cordialmente Juárez, el camarero. Sinceramente, hasta hoy no he entendido muy bien esa idea de 'caballero'. Quiero decir, sí, pero me parece cosa de hace cien años. Es anticuado, vamos. Deberían inventar un vermut para las expresiones populares también. He ahí, una bebida neural, eso sería una novedad. No sé, tal vez ayudaría con el paso del tiempo, las ideas, las palabras.
- "¡Tranqui, sin problemas! Terapia express líquida. ¿Qué tal? Suena bien, ¿no? ¿Muy contemporáneo, verdad?" - Bromeo, pero en el fondo realmente quiero poner en práctica, en la prueba de fuego, por primera vez a los oídos del público, esta idea tan innovadora. Idea esta que seguramente no verá materialización mayor que su propio nombre escrito en tinta azul en una servilleta, pienso.
- "Hoy empezamos temprano, ¿no?" - Contesta, con una risa bastante sincera, el querido Juárez. Me siento un poco triste, lo confieso. No sé, tal vez esta vez era algo más allá de la servilleta. De todos modos, guardo el trapo garabateado y doy otro trago al vermut. Pero no me rindo.
Alto, bien presentado, rugoso, y con un toque de melancolía. Se sienta a mi lado, pero parece no estar muy decidido sobre lo que quiere. En todos los sentidos, digo. Es él, pienso. Juárez está ocupado, seguramente no daría la importancia debida a esta novedad tan nueva, nuevita, bien reciente e innovadora. Eso, eso mismo. Todo muy fresco. Es el primer cliente perfecto, el paciente número cero del revolucionario método de la terapia express líquida. Me gusta, es eso. Va a ser eso.
- "¿Un vermut, jefe? ¡Lo digo por decir, nada más!" - Hago mi primer acercamiento. Despreocupado, vamos.
- "Mira, no es mala idea, chico. Puede ser. ¿Me pones un vermut?" - Suplica el paciente cero. Perfecto, es eso. Es hora de poner en práctica.
- "Buena elección. Encantado, Dante Río. ¿Y el caballero?" - Sí, anticuado. Lo sé. Sí, lo sé. Pero creo que es la elección adecuada para romper el hielo con esta alma tan arrugada. Va a salir bien, pienso.
- "Encantado. Tomás. Tomás Cruces. Uruguayo." - Responde, pausadamente, el rugoso Tomás Cruces.
Empezamos a conversar sin mucho más a partir de ahí. Me cuenta un poco sobre su pasado uruguayo, mencionado en su breve y corta presentación. Figura curiosa, debo admitir. Salió de allí, tierra vecina, hace unos veinte años. Dice él que fue medio huyendo, medio arrastrado, medio por querer. No tuve mucha certeza, sinceramente. Era un sujeto de esos de poco mirar, medio perdido, poco enfocado. Yo sentía que todo alrededor del bar era más interesante para él que nuestra conversación. Caramba, soy muy aburrido, concluyo. No va a salir muy bien esta aventura emprendedora. Pero calma, sin mucho alboroto, pues el vermut llegó.
Ahí está otra curiosidad del vermut: mismo no me perteneciendo, el placer era comparable. El sonido del crujir de los cubos de hielo, la aceituna buscando su punto fijo, todavía medio flotante en el vaso, y la naranja ajustándose en medio del juego. Siento casi un espasmo. Buen signo, Tomás también está fijado en el fenómeno. Ya tenemos el primer precedente, la primera hipótesis. Tal vez esta bebida realmente tenga propiedades hipnóticas singulares. Hago una nota mental y sigo.
- "¿Pero qué historia es esa de salir de Uruguay? Quiero decir, lo entiendo. Yo también estoy lejos de mi tierra. Cada uno de nosotros tiene su motivo, ¿no?" - Sigo con la conversación. Ya no solo por la aplicación del método científico, sino por curiosidad. Hay algo hermoso también en compartir, una forma tan bonita de pulir los oxidados filmes de la memoria y resignificarlos. ¿Sorprendido? Tengo cierta habilidad para la sensibilidad y la insensatez. Eso. ¡Es eso! Aquí empiezan los efectos prácticos de la terapia express líquida. Está funcionando.
Tomás me cuenta sobre un tiempo arrastrado. Dolores de otro amor. Una cierta tormenta en un vaso de agua, pienso al principio, debo decir. Pero la trama se vuelve cada vez más compleja e intrigante. Un amigo traidor en medio, algo sobre una mujer camaleónica y toda una revuelta política detrás. Este tipo era un personaje, sin más. Sigue con la historia, habla de las varias cartas que escribía a una persona amada, parecía vivir en dos mundos distintos al mismo tiempo. Era un tipo muy sentimental, eso era evidente. Hizo una pausa y dio otro trago al vermut, ahora en su mejor momento. Bien frío, como debe ser. Eso sin duda influye en los efectos de la terapia express líquida. Hago una nota mental más.
Doy otro trago a mi vermut también. Estoy envuelto en la historia, pero intento mantener el enfoque en la misión. La verdad es que hay algo familiar en Tomás. Quiero decir, yo también he sufrido por amor. Vamos, ¿quién no? Pero había algo trágico también, algo que nos diferenciaba en ese sentido. El hombre era un caso único de sufrimiento amoroso eterno. La historia que contaba, por lo que pude entender, y estaba yo bien atento, se prolongaba por unos buenos treinta años ya. Era grave. Empezaba a tener dudas. Mi método científico comenzaba a presentar variables muy complejas. Me estaba confundiendo. Tal vez este realmente fuera el paciente cero y el método era extremadamente eficaz. Tal vez simplemente acababa de encontrarme con un loco. Eso impacta la aplicabilidad del experimento. Me asusto un poco, pero decido seguir adelante.
- "Calma. No sé si entendí muy bien la idea. Marta, ¿es eso? Eso. ¿Qué pasó con ella? Me perdí, disculpa." - Sigo, movido por una curiosidad y un cierto nerviosismo.
El asunto era más profundo. Esta tal Marta era más o menos todo en la vida de este hombre, pero al mismo tiempo no le quitaba la sensación de melancolía. La historia que contaba sonaba y olía como un Romeo y Julieta latinoamericanizado al estilo siglo XX. Tomás, hace unos veinte años, recibió una oferta de trabajo y se mudó a Madrid. Sí, básicamente dejó todo y fue tras un amor que ya en aquella época tenía por lo alto unos diez años. Claramente había hecho de todo por esa persona incapaz de responder a una carta. Yo estaba perplejo. No sabía si continuaba con el experimento o si escribía un best-seller. Era impresionante. Qué personaje más raro. Pero me asustaba un poco también. No por la historia, en sí. No seré tan exagerado. Sino por pensar que tal vez yo podría estar en la misma posición de este individuo. En otra realidad. Tal vez yo también estuviera, quién sabe. Así, seamos honestos, todo el mundo acaba viviendo algunos amores durante la vida, ¿no? Cada amor se desvanece con el tiempo que le conviene, es verdad también. En ese momento, justo el que estaba medio mal resuelto surgió en mi cabecita. Eso. Eso mismo. Pienso en el tiempo, siento esta aflicción de posiblemente convertirme en un objeto congelado temporalmente como Tomás y, en un acto de desesperación, termino de un trago el vermut. Ayuda con el paso del tiempo, ¿no era eso lo que había dicho?
- "¿Todo bien ahí, joven?" - Pregunta preocupado el rugosísimo Tomás Cruces.
Antes de ser consumido por aquel repentino estrés, veo esa hermosa naranja y esa suculenta aceituna gorda. Me calmo. Nada como una recompensa después de terminar un breve vermut. Delicia. Distraído, respondo:
- "Bien tranquilo, en realidad. Una distracción tonta. Cosas de esas que vienen y van, ¿sabes?" - Respondo, automática e inconscientemente, realmente. Fue impresionante, lo juro.
Contento con la respuesta, Tomás sigue con su historia. Pero yo ya estaba ahí solo en cuerpo. Mi mente borboteaba. Maldita sea. ¡Eso es! La terapia express líquida realmente funciona. Está bien, tal vez haya sido yo el paciente cero. Busqué un reloj. Reparé en la muñeca de Tomás. Un reloj roto. Muy extraño. Pero pregunto, con cierta prisa y un sentido de urgencia notable:
- "Perdona la interrupción. Ese reloj, ¿funciona? Necesitaba saber qué hora es." - Indelicadamente pregunto e interrumpo. Pero está bien, es en nombre de la ciencia, justifico.
- "Funciona, sí. Historia curiosa. Son las dos y tres de la tarde, joven." - Responde, melancólica y rugosamente, Tomás Cruces.
Veintitrés minutos. Aproximadamente. Increíble, funciona. Creo que esto se aplica al término express. En menos de media hora obtuve la respuesta a una cuestión que llevaba tanto tiempo en mí. Quiero decir, antes de ese vermut ni siquiera había pensado en esto. Pero ahí estaba, es verdad. Un miedo este de ser un Tomás para siempre. No, jamás. Jamás vender tu vida y una cara sin arrugas por cualquier cosa existente en este mundo. Este fue el subproducto extraído de la primera sesión de la terapia express líquida que se tiene registro en la historia de la humanidad.
En medio de mi alboroto mental, vuelvo a escuchar el desarrollo de la historia. Tomás Cruces llegó a Madrid, la encontró, recibió migajas de afecto. Fue rechazado, vamos. Y siguió en esa lucha interna de un amor medio muerto-vivo y decrépito. En ese momento, veo una cierta tristeza apoderarse de su rostro y me compadezco profundamente. Pienso en los efectos que acabo de observar en mí mismo. Miro en sus ojos, miro el vermut y digo:
- "Vamos, Tomás. Falta poco, termínalo." - Con el fin de recibir el feedback inmediato del segundo ilustre paciente, efectivamente.
Termina de un trago. Permanece con la cara cabizbaja. Fijo mis ojos en los suyos, para analizar su enfoque de visión y recibir alguna pista si él también notará la recompensa del vermut. Sus ojos bajan un poco. ¡Eso es! Ahí está. Él notó. Veo un cambio de expresión. Por un momento, desaparece de su rostro la expresión rugosa. Es una leve sonrisa. Increíble. Tomás Cruces come la aceituna, desmenuza la rodaja de naranja y se ríe. ¡Se ríe! Está comprobado. Casi salto de alegría.
- "Buena elección, chico." - Añade, dejando escapar una breve sonrisa en la comisura de la boca.
- "¿Verdad? Y la recompensa siempre viene al final. Confía." - Digo, feliz y animado. El método funciona, creo.
Le doy un beso en la frente a Tomás. Me despido. Dejo un billete de cinco con Juárez. Están pagados los vermuts, con mucho gusto. Salgo a la calle. Por alguna razón, me siento liviano. Saco el papel arrugado y garabateado del bolsillo, y en un impulso de insensatez, tiro a la basura el único registro físico de la terapia express líquida. Pienso que lo último que el mundo necesita es otro producto sobrevalorado que hace exactamente lo mismo que algo inventado hace siglos. Pienso ahí también que llegué a entender un poco del encanto de lo anticuado. Y por último, pienso una vez más: mañana creo que tomaré otro vermut. Y sigo.
In English:
- "Yeah, that's it. A vermouth and a portion of olives. Fat ones. Pitted, I'm a bit lazy today." - I say.
- "And a slice of orange! The usual, you're right." - The waiter adds shrewdly.
There's something therapeutic about watching the vermouth come out of the bottle, watching it in front of me, melting the ice and drowning the slice of an orange and the carcass of an olive. A therapeutic drink. Therein lies a fatal combination. Something curious, a small taste of the passing of time right there in front of me, a small demonstration of life. A sensory experience, a blend of flavours, two well-marinated appetisers as a reward and a certainty of wanting more. Vermouth is an invitation to something more, it's true. Come on, it's a gentle announcement of the start of something with very unclear possible endings. Unpredictable! Yes, that's right. Vermouth is also an excuse. An excuse to go out, to see people, to see the sun, to see colour. It's also an excuse to talk rubbish, or at least it can be! Put it there: Express liquid therapy. Patent it and package it, it'll catch on. I promise.
I stuff my mouth with an olive and soon the reverie is over, I think. I take a pen out of my pocket and jot down the idea, because it's always better to be safe than sorry. Or so I was told. I frown, thinking, the nib of the pen piercing my chin.
- "Everything all right, gentleman?" - Juárez, the waiter, asks cordially. Honestly, I haven't quite got the hang of this 'gentleman' idea. I mean, yes, but it seems a hundred years out of date to me. It's old-fashioned, come on. They should invent a vermouth for popular expressions too. There you go, a neural drink, that would be something new. I don't know, maybe it would help with the passage of time, ideas and words.
- "Oops, no problem! Express liquid therapy. How's that? Sounds good? Very contemporary, isn't it?" - I joke, but deep down I really wanted to put this innovative idea into practice, to test it out for the first time in the public eye. An idea that will certainly see no greater materialisation than your own name written in pen ink on a napkin, I think.
- "We got an early start today, didn't we?" - says dear Juárez with a hearty laugh. It makes me a little sad, I confess. I don't know, maybe this time it was something more than the napkin. Anyway, I put the scribbled note away and take another sip of vermouth. But I don't give up.
Big, tall, well presented and with a touch of melancholy. He sits down next to me, but doesn't seem to be quite sure what he wants. In every sense, I say. It's him, I think. Juárez is busy, he certainly wouldn't give this new, up to the minute, newly discovered and innovative thing the attention it deserves. That's it, that's it. All very fresh. He's the first perfect client, patient number zero of the revolutionary express liquid therapy method. I like it, that's it. That'll be it.
- "A vermouth, boss? Just sayin'!" - I make my first approach. Unpretentious, come on.
- "Look, it's not a bad request, kid. It's fine. Can I have a vermouth?" - Begs patient zero. Perfect, that's it. It's time to put it into practice.
- "Good order. Nice to meet you, I'm Dante Rio. And the gentleman?" - Yes, old-fashioned. I know, I know. Yes, I know. But I think it's just the thing to break the ice with this wrinkled soul. It'll work, I think.
- "Charmed. Tomás. Tomás Cruces. Uruguayan." - The rugged Tomás Cruces replies slowly.
We start chatting without much further ado. He tells me a little about his Uruguayan background, which he mentioned in his brief introduction. A curious figure, I must admit. He left his neighbouring country some twenty years ago. He says he left half on the run, half on the urge to, half by accident. I wasn't too sure, honestly. He was one of those guys who didn't look very well, he was a bit lost, not very focused. I felt that everything around the pub was more interesting than my conversation. Damn, I'm boring as hell, I concluded. This entrepreneurial adventure of mine isn't going to work out. But calm down, without too much fuss, because the vermouth has arrived.
That's another curiosity about vermouth: even if it doesn´t belong to me, the pleasure is still comparable. The sound of the ice cubes crunching, the olive seeking its fixed point, still half floating in the glass, and the orange adjusting itself in the middle of that party. I almost feel a spasm. That's a good sign, Tomás is also fixated on the phenomenon. We already have the first precedent, the first hypothesis. Perhaps this drink really does have unique hypnotic properties. I make a mental note and continue.
- "What's all this about leaving Uruguay? I mean, I understand. I've been away from my homeland too. We each have our reasons, don't we?" - I continue the conversation. It's no longer just about applying the scientific method, but out of curiosity. There's also something beautiful about sharing, such a beautiful way of polishing the rusty films of memory and giving them new meaning. Surprised? I have a certain knack for sensitivity and foolishness. That's it! This is where the practical effects of the express liquid therapy begin. It's working.
Tomás tells me about a time that dragged by. The pain of another love. A bit of a storm in a teacup, I thought at first. But the plot becomes increasingly complex and intriguing. A friend of the jaguar in the middle, something about a chameleon woman and a whole political revolt behind it. This guy was a character, that's all. He goes on with the story, talks about the various letters he wrote to a loved one. He seemed to live in two different worlds at the same time. He was a very sentimental guy, that much was clear. He paused and took another sip of the vermouth, now at its best. Very cold, as it should be. That certainly influences the effects of the express liquid therapy. I make an extra mental note.
I take another sip of my vermouth too. I'm caught up in the story, but I'm trying to stay focused on the mission. The truth is, there's something familiar about Tomás. I mean, I've suffered for love too. Come on, who hasn't? But there was something tragic too, something that set us apart in this sense. The man was a unique case of eternal love suffering. The story he told, as far as I could make out, and I was paying close attention, spanned a good thirty years. It was serious. I was beginning to have doubts. My scientific method was beginning to present very complex variables. I was getting confused. Perhaps this really was patient zero and the method was extremely effective. Maybe I'd just met a madman. This impacts the applicability of the experiment. I get a bit scared, but decide to go ahead.
- "Calm down. I'm not sure I understand the idea. Marta, is that it? That's it. What happened to her? I got lost, I'm sorry." - I followed, driven by curiosity and a certain nervousness.
The hole was deeper. This Marta woman was more or less everything in this man's life, but at the same time she didn't take away his sense of melancholy. The story she was telling smelled and sounded like a Latin Americanised Romeo and Juliet à la the 20th century. About twenty years ago, Tomás was offered a job and moved to Madrid. Yes, he basically dropped everything and went in search of a love that was around ten years old at the time. Clearly he had done everything for that person who was incapable of even replying to a letter! I was perplexed. I didn't know whether to continue with the experiment or write a bestseller. It was impressive. What a rare little figure. But I was also a little scared. Not by the story itself. I won't be so exaggerated. But because I thought that perhaps I could be in the same position as this chap. In another reality. Maybe I was too, who knows. So, let's be honest, everyone ends up experiencing a few loves in their lifetime, don't they? Each love fades as it suits it, that's true too. At that moment, the one that had been a bit unresolved popped into my head. That's it. That's it. I think about time, I feel that affliction of possibly becoming an object frozen in time like Tomás and, in an act of desperation, I finish the vermouth in one gulp. It helps with the passage of time, isn't that what I said?
- "All right there, young man?" - Tomás Cruces asks worriedly.
Before I'm consumed by that sudden stress, I see that beautiful orange and that juicy fat olive. I calm down. Nothing like a reward after finishing a short vermouth. Delicious. Distracted, I reply:
- "Quite calm, actually. Silly distraction. Things that come and go, you know?" - I answer, automatically and unconsciously, really. It was impressive, I swear.
Satisfied with the answer, Tomás continues with his story. But I was only there in body now. My mind was bubbling. Holy shit. That's it. That's it! Express liquid therapy really works. All right, maybe I was patient zero. I looked for a watch. I noticed Tomas's wrist. A broken watch. Very strange. But I ask, with a certain haste and a remarkable sense of urgency:
- "Sorry to interrupt. Does that watch work? I need to know what time it is." - I impolitely ask and interrupt. But that's okay, it's in the name of science, I explain to myself.
- "Yes, it works. Funny story. It's 2.3 in the afternoon, young man." - Tomás Cruces replies, melancholically and ruefully.
Twenty-three minutes. Approximately. Incredible, it works. I think that applies to the term express. In less than half an hour I had the answer to a question that had been hanging over me for so long. I mean, before that vermouth I hadn't even thought about it. But it was there, it's true. This fear of being a Tomás forever. No, never. Never sell your life and a wrinkle-free face for anything in the world. That was the by-product of the first express liquid therapy session recorded in human history.
In the midst of my mental turmoil, I listen again to the story unfold. Tomás Cruces arrived in Madrid, met her, and received crumbs of affection. He was turned down, come on. And he continued in this internal struggle of a love that was half-dead and decrepit. At that moment, I see a certain sadness come over his face and I sympathise deeply. I think about the effects I've just observed in myself. I look into his eyes, look at the vermouth and say:
- "Come on, Tomás. It's not long now, finish it." - In order to receive immediate feedback from the second illustrious patient, effectively.
He finishes with a sip. His face remains downcast. I fix my eyes on his, in order to analyse his focus of vision and get some clue as to whether he will also notice the vermouth reward. His eyes drop a little. That's it! That's it. He's noticed. I see a change of expression. For a moment, the rugged expression disappears from his face. It's a slight smile. Incredible. Tomás Cruces eats the olive, breaks off the orange slice and laughs. He laughs! It's proven. I almost jump for joy.
- "Well done, kid." - He adds, letting a brief smile escape from the corner of his mouth.
- "Isn't it? And the reward always comes at the end. Trust me." - I say, happy and excited. The method works, I think.
I kiss Tomás on the forehead. I say goodbye. I leave a fiver with Juárez. I'm happy to pay for the vermouth. I go out into the street. For some reason, I feel light. I take the crumpled, scribbled piece of paper out of my pocket and, on an impulse of foolishness, throw the only physical record of the express liquid therapy into the rubbish bin. I think that the last thing the world needs is yet another overpriced product that does exactly the same thing as something invented centuries ago. I also think that I have come to understand a little of the charm of the old-fashioned. And finally, I think again: tomorrow I think I'll have another vermouth. And on I go.

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