Se soubéssemos.

E se eu te contasse que também tenho medo. 
Uma cautela ao pôr em palavras o que me alcança.
Sentir-se errado em saber aquilo que concebo.
Mesmo vestido e armado com a lança.

E se dissesse que eu ainda assim vejo.
Verdades que se provam em tanta mudança.
Olhos mil num mundo assim cego. 
Sendo ainda um pouco torto quando se dança. 

E se eu confesso que por vezes beijo. 
Um sonho real sem muita confiança.
Certeza profunda sem muito jeito.
Revoltas totais sem uma segurança.

E se revelo que há um lar nesse leito.
Saber-se um nessa terra de festança.
Entender que ainda há que ser feito.
O que nos livraria dessa matança.

E se eu te mostro que me dói. 
Sermos tão velhos e ainda crianças.
Num eterno dessaber que nos corrói.
Qual o preço de não conhecer semelhanças?

E se dessas palmeiras eu grito: 
'Sou também eu parte dessa herança!'.
Soluçaria esperando um veredito. 
Em meio ao vento que desfaz essa lembrança.

E se confesso que ainda assim tenho medo. 
Ao dizer então que há esperança.
Onde o mar devora o sol tão cedo.
Daqui de baixo, ainda creio na vizinhança.






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