Aos vinte e três, tudo é imprevisto.

Em Português:

      

"Aos quinze anos, tudo é infinito". Potente, não? Citar essa frase quando me perguntavam se eu sabia algum dito assim, recitado de cabeça, era estratégia certa minha há uns anos. Machado de Assis. Foi o que li num livro grande, amarelo, velho e posto de escanteio numa das estantes do escritório lá de casa: "Os 100 Maiores Contos da Literatura Brasileira", lia-se. 

    Ironicamente, hoje penso e lembro que dizia isso aos meus quinze anos, e não chegava a entender exatamente o que significava. Às vezes, me acho prepotente por pensar que sei o que isso quer dizer hoje, aos vinte e três. Essa dualidade que eu boto em pauta aqui e agora - do saber e do achar que sei - tem regrado minha vida nos últimos tempos, acho - ou sinto. Muitas vezes, sinto falta da certeza absoluta do meu eu de quinze anos. Quando, realmente, nada parecia ter fim, e quinze anos pareciam tempo demais. Hoje vejo meu sobrinho, recém-cumpridos seus catorze, e lembro de mim mesmo com uma certa graça. E a partir daí nasce a dualidade: passo a me imaginar sendo visto pelos olhos de meus pais e penso que eles também sentem o mesmo do eu de vinte e três sobre meu sobrinho. E aí?

     Não posso me prender eternamente a essa ideia do outro que me olha e vê como menos relevante - ou com menor importância - as experiências que vivo e sinto hoje. É desonesto comigo, penso. Assim como acabo por ser desonesto ao olhar dessa forma para o meu sobrinho agora. Tento não me culpar por isso, tento entender - entender realmente, à fundo - que sou um produto mais das minhas próprias vivências. E que compará-las a dos outros é desonesto comigo e com eles, reduzindo-nos todos a uma psiquê homogênea e sem graça. Tento não fazer grandes juízos de valor. Mas será possível?

     Sinto falta da determinação e de uma certa rigidez das ideias do meu eu de quinze anos. Hoje em dia, tudo parece estar permeado de um 'quê' - ou diversos, incontáveis e estéreis 'quês' - de dúvidas. Pensei em colocar aqui uma pergunta mais, mas me segurei. Valeria de algo? Se não posso ser assertivo nem mesmo num texto feito por mim, o que é que eu posso ser? E daí surgem mais umas quantas questões e eu não evito a tentação do questionar constante. 

     Não quero travar essas palavras que agora transbordam no meio de incertezas e questionamentos. Quero escrever algo sem amarras, simplesmente colocar pra fora sem medo de olhar esse amontoado de palavrinhas daqui a dez anos e julgar a mim mesmo. Digo isso porque chego a pensar que não seria mesmo justa essa falta de cuidado e compreensão comigo. Assim como não é com meu sobrinho, de certa forma. Por mais que vindo ele de um outro tempo, como o eu de antes também realmente veio. Essa dificuldade de compaixão interna, de olhar com olhos carinhosos para um eu de antes, como acabo por fazer com meu sobrinho enquanto aqui escrevo, é um baita de um problemão.

     Há um tempo vivi um terremoto. Vivi mesmo. Tinha uma ideia um tanto deturpada, até mesmo sem noção ou descabida de senso e, sem dúvida, imprudente - poderiam dizer alguns - de pensar que seria curioso viver algo assim. Experienciar a força da natureza diante de si. Ver tudo ao seu redor tremer. Algo assim quase sobrenatural, mas totalmente real. Tinha uma ideia quase mesmo romantizada da coisa, confesso. Sempre me pareceu uma loucura que duas placas tectônicas - dois pedaços de terra incompreensivelmente grandes - se chocassem entre si e fizessem com que tudo ao redor tremesse, perdesse o controle. Não sei. É força demais, que até mesmo enquanto escrevo me chega a faltar um pouco de ar, só de pensar que as montanhas à minha volta são fruto desse choque colossal, abrumador. Pode parecer um pouco descabido falar desse fenômeno agora, parecendo não ter nada a ver com a discussão de antes. Eu também achava há pouco.

     Penso que o romantismo da minha parte ainda conserva resquícios torpes, mesmo depois da experiência. Enfim, descabimento quase total da minha parte. Digo quase porque agora chego a ter compaixão outra vez com a minha ilusão inicial. Tão ingênua. Mas sigo firme no que diz respeito ao descabimento, pois realmente não era nada próximo do que eu esperava ou pudesse encher de flores em minha cabeça imprudente. Era bem pior. Foi bem pior. Nessa fantasia romântica estremecedora eu me imaginava como um observador externo. Como se eu, realmente, de alguma forma, fosse capaz de apenas observar esse fenômeno impressionante diante de mim e não sentir nada. Apenas estar como figurante, não sendo capaz de visualizar a mim mesmo como objeto inescapável do evento. Descabido. Deslocado. Às vezes sou assim. 

    Não são apenas as coisas que tremem, mas eu mesmo perdi o controle do meu próprio corpo naquele momento - e isso foi desesperador. 

     Entre paredes chacoalhando, minha cama imparável e ruídos perturbadores das vigas dos prédios mesclados aos desesperos da rua, me vi com medo. No ponto mais a oeste do mundo que já estive. Enquanto era madrugada para todas as pessoas que eu tinha proximidade nessa vida, tudo ao meu redor tremia. Conto essa história pois hoje me peguei pensando no quanto esse episódio me marcou. Mas eu não o havia visitado sob um outro olhar desde então. Foi a pior noite que vivi em um bom tempo, já que depois do primeiro sismo à meia-noite, vivi outro às cinco e dez e mais um pra fechar com chave de ouro às dez e meia da manhã. No primeiro momento, me senti incapaz. No segundo, tive a certeza. O som das portas a bater, meu colega de apartamento abrindo meu quarto desesperado e eu estremecido, enquanto olhava as estantes do quarto irem de um lado ao outro em choque. Tudo me gritava: vulnerabilidade. 

     E aí vem a ideia de ser vulnerável. Algo que remete à infância, costumava pensar. Esse precisar de ajuda pra tudo, aquele medo de soltar a mão dos pais na rua, aquele temor de andar sozinho pelo corredor do supermercado e até mesmo o frio de atender um telefone sem supervisão. Ali qualquer coisa podia acontecer. Não sabia exatamente pra onde ir, não sabia onde pôr o desespero e não tinha ninguém pra me dar a mão. Eu digo, estranhamente de modo quase envergonhado, que senti muita vontade de chorar.

     Há, nessa ideia, uma imprecisão minha. Parte dessa imortalidade machadiana que estava presente em mim e que se rompeu no dia do terremoto. Passado o primeiro sismo, olhei para a janela do quarto. Olhei todos aqueles prédios daquela cidade desconhecida pra mim, realmente, e os imaginei tremendo. Quis eu mesmo desabar. A imprecisão, explico: ser vulnerável não tem nada a ver com ser jovem. 

    Acabo por pensar que o sentimento de ser imortal, experienciado aos quinze anos, vem de um rompimento primitivo, inicial, com as vulnerabilidades da infância. Deslumbrar-se com a perda abrupta dos medos de criança e sentir-se invencível. Sentir-se imortal. Não pretendo aqui bater o martelo sobre quais foram as reais intenções do Machado ao escrever tal frase, mas faço um exercício geracional individual de revisitá-la sobre um olhar de hoje. 

    Deixar a vulnerabilidade de lado e enfrentar com todo esse vigor quinceañero os desafios da vida é - ou foi - de uma coragem importante em seu momento. É sentir-se livre, dono de si por primeira vez, pensar que seria capaz de encarar tudo, só eu comigo mesmo. Fossem desentendimentos, ou o próprio futuro, e  até mesmo os eventuais descompasses. Ou fossem até mesmo tremores, choques e terremotos inteiros diante de mim. Ou melhor: junto a mim. 

    Penso agora que eu me enganei. Ainda não tenho certeza. Retirei-me dos próprios perigos e adversidades da vida, como se pudesse ser capaz de ultrapassá-los como um observador, somente. Criei para mim mesmo um eu-lírico todo-poderoso aquém do que vivia muitas vezes. Era como se o tempo nunca fosse acabar e que nessa experiência de vida eterna, tudo acabaria por ser tão longo que aquilo que se vive hoje - ou que vivi em diversos 'ontens' - fosse necessariamente se repetir. E aí, nessa infinitude de existências, vivências e experiências caberia espaço e haveria tempo de sobra até mesmo para as minhas negligências. 

    O não ser jamais vulnerável - ou a ideia de não poder sê-lo, melhor dito - tiraria dessa vida a necessidade e a importância inescapáveis dos outros da minha própria vida. Os outros, que ralmente, estão vivendo essa infinitude pela primeira vez como eu. E então chego a pensar que abraçar a vulnerabilidade, o vulnerável, ou permitir sê-lo, é também abrir portas à empatia. Seria perceber que não há uma vida infinita, mas laços. 

    Tive a vontade de fechar este texto dizendo "ao fim de tudo", pretensiosamente, no auge dos meus vinte e três, disposto a colocar um suposto fim da linha e efetivamente obliterar essa imortalidade da minha existência. Mas me contive. Tenho curiosidade em saber como visitarei esse rabisco em alguns anos. Mas hoje, queria dizer que eu não posso ser eu sem você. Quero explorar essa paixão pelo outro, verdadeiramente infinitos. 

    Quero poder ser vulnerável e, assim, sair desse tremor e correr pros seus braços.


En Español:

    “A los quince años, todo es infinito”. Potente, ¿no? Citar esa frase cuando me preguntaban si me sabía algún dicho así, recitado de memoria, era una estrategia segura mía hace unos años. Machado de Assis. De los grandes de la literatura brasileña. Lo leí en un libro grande, amarillo, viejo y olvidado en uno de los estantes del despacho de mi casa: “Los 100 Mayores Cuentos de la Literatura Brasileña”, se leía en la portada.

    Irónicamente, hoy pienso —y recuerdo— que decía eso cuando tenía quince años, y no llegaba a entender exactamente qué significaba. A veces, me siento un poco prepotente por creer que sé lo que quiere decir ahora, a los veintitrés. Esta dualidad que traigo aquí y ahora —entre saber y creer que sé— ha regido mi vida en los últimos tiempos, creo… o siento. Muchas veces extraño la certeza absoluta de mi yo de quince años. Cuando, realmente, nada parecía tener fin, y quince años parecía demasiado tiempo. Hoy miro a mi sobrino, recién cumplidos sus catorce, y me recuerdo a mí mismo con cierta ternura. Y a partir de ahí nace la dualidad: empiezo a imaginarme siendo visto con los ojos de mis padres y pienso que ellos sienten lo mismo del yo de veintitrés que yo siento al mirar a mi sobrino. ¿Y entonces?

    No puedo quedarme eternamente preso a esa idea del otro que me mira y ve como menos relevante —o de menor importancia— las experiencias que hoy vivo y siento. Me parece deshonesto conmigo mismo. Así como también acabo siéndolo al mirar de esa manera a mi sobrino. Intento no culparme por eso. Intento entender —entender de verdad, a fondo— que soy producto, sobre todo, de mis propias vivencias. Y que compararlas con las de los demás es deshonesto, tanto conmigo como con ellos, porque nos reduce a todos a una psique homogénea, sin matices, sin gracia. Intento no hacer grandes juicios de valor. Pero, ¿será posible?

    Extraño la determinación y cierta rigidez de las ideas de mi yo de quince años. Hoy en día, todo parece estar impregnado de un “qué” —o de varios, incontables y estériles “qués”— de dudas. Pensé en dejar aquí una pregunta más, pero me contuve. ¿Serviría de algo? Si ni siquiera puedo ser asertivo en un texto hecho por mí mismo, ¿qué es lo que sí puedo ser? Y de ahí surgen otras cuantas preguntas, y no logro evitar la tentación del cuestionamiento constante.

    No quiero frenar estas palabras que ahora me desbordan en medio de incertidumbres y preguntas. Quiero escribir algo sin ataduras, simplemente dejarlo salir, sin miedo de mirar este montón de palabritas dentro de diez años y juzgarme. Lo digo porque incluso llego a pensar que ni sería justo ese juicio sin cuidado y sin compasión conmigo mismo. Así como tampoco lo es con mi sobrino, de cierta forma. Por más que él venga de otro tiempo, como también venía aquel yo de antes. Esta dificultad de tener compasión interna, de mirar con ternura a un yo de otros tiempos, como sí logro hacer con mi sobrino mientras escribo esto, es un verdadero problemón.

    Hace un tiempo viví un terremoto. Lo viví de verdad. Tenía una idea un tanto distorsionada, incluso algo inconsciente o carente de sentido —e imprudente, podrían decir algunos— de que sería curioso vivir algo así. Experimentar la fuerza de la naturaleza frente a uno. Ver todo temblar alrededor. Algo casi sobrenatural, pero absolutamente real. Lo confieso: tenía una idea casi romantizada de la cosa. Siempre me pareció una locura que dos placas tectónicas —dos pedazos de tierra incomprensiblemente enormes— chocaran entre sí y provocaran que todo temblara, que todo perdiera el control. No sé. Es demasiada fuerza; incluso mientras escribo esto, me falta un poco el aire solo de pensar que las montañas que me rodean son fruto de ese choque colosal, abrumador. Puede parecer un desatino hablar de este fenómeno ahora, como si no tuviera nada que ver con la reflexión anterior. Yo mismo pensaba eso hasta hace poco.

    Creo que ese romanticismo de mi parte todavía conserva residuos torpes, incluso después de la experiencia. En fin, casi un desatino total de mi parte. Digo casi porque ahora logro tener otra vez compasión con esa ilusión inicial. Tan ingenua. Pero sigo firme en lo del desatino, porque realmente no era nada parecido a lo que imaginaba ni algo que pudiera adornar con flores en mi cabeza imprudente. Fue mucho peor. Bastante peor. En esa fantasía romántica y estremecedora, me imaginaba como un observador externo. Como si yo, de alguna manera, fuera capaz de presenciar ese fenómeno impresionante sin sentir nada. Solo estar ahí como un figurante, incapaz de verme a mí mismo como objeto ineludible del evento. Absurdo. Fuera de lugar. A veces soy así.

    No solo las cosas temblaron. Yo mismo perdí el control de mi propio cuerpo en ese momento —y eso fue desesperante.

    Entre paredes que se sacudían, mi cama imparable y los ruidos perturbadores de las vigas de los edificios mezclados con los gritos desesperados de la calle, me descubrí con miedo. En el punto más al occidente del mundo en el que jamás he estado. Mientras era madrugada para todas las personas cercanas a mí, todo a mi alrededor temblaba. Cuento esta historia porque hoy me sorprendí pensando en cuánto me marcó ese episodio. Pero no lo había vuelto a visitar con otra mirada desde entonces. Fue la peor noche que viví en mucho tiempo, ya que tras el primer sismo a medianoche, viví otro a las cinco y diez de la mañana, y otro más —para rematar— a las diez y media. En el primer momento me sentí incapaz. En el segundo, tuve la certeza. El sonido de las puertas golpeando, mi compañero de piso abriendo mi cuarto desesperado y yo, temblando, mientras veía las estanterías moverse de un lado a otro con violencia. Todo me gritaba: vulnerabilidad.

    Y ahí surge la idea de ser vulnerable. Algo que antes asociaba a la infancia, solía pensar. Esa necesidad de ayuda para todo, ese miedo a soltar la mano de los padres en la calle, ese temor de caminar solo por el pasillo del supermercado, incluso ese escalofrío de contestar un teléfono sin supervisión. Cualquier cosa podía pasar. No sabía exactamente hacia dónde ir, no sabía dónde colocar el desespero y no tenía a nadie que me diera la mano. Lo digo —casi con cierta vergüenza extraña—: tuve muchas ganas de llorar.

    Hay, en esa idea, una imprecisión mía. Parte de esa inmortalidad machadiana que habitaba en mí y que se rompió el día del terremoto. Pasado el primer sismo, miré por la ventana del cuarto. Observé todos esos edificios de esa ciudad desconocida para mí y los imaginé temblando. Quise derrumbarme yo también. La imprecisión, explico: ser vulnerable no tiene nada que ver con ser joven.

    Termino pensando que ese sentimiento de ser inmortal, que se experimenta a los quince años, nace de una ruptura primitiva, inicial, con las vulnerabilidades de la infancia. Fascinarse con la pérdida abrupta de los miedos infantiles y sentirse invencible. Sentirse inmortal. No pretendo aquí sentenciar cuáles fueron las verdaderas intenciones de Machado al escribir tal frase, pero hago un ejercicio generacional, individual, de revisitarla desde mi mirada de hoy.

    Dejar la vulnerabilidad de lado y enfrentar con todo ese ímpetu quinceañero los desafíos de la vida es —o fue— un acto de valentía necesario en su momento. Es sentirse libre, dueño de sí por primera vez, pensar que uno es capaz de encarar todo, solo, con uno mismo. Ya fueran discusiones, o el propio futuro, o incluso los eventuales desajustes. O incluso temblores, choques y terremotos enteros frente a mí. Mejor dicho: conmigo.

    Pienso ahora que me equivoqué al atraparme a esta idea de inmortalidad. Aún no tengo certeza. Me alejé de los propios peligros y adversidades de la vida, como si pudiera ser capaz de atravesarlos como un mero observador. Me inventé a mí mismo un yo lírico todopoderoso, por encima de lo que realmente vivía muchas veces. Como si el tiempo nunca fuera a acabarse y que, en esa experiencia de vida eterna, todo acabaría por repetirse. Y que entonces, en esa infinitud de existencias, vivencias y experiencias, habría tiempo —de sobra— incluso para mis negligencias.

    El no ser jamás vulnerable —o la idea de no poder serlo, mejor dicho— me habría arrebatado de esta vida la necesidad y la importancia ineludibles de los otros en mi propia vida. Esos otros que, realmente, están viviendo esta infinitud por primera vez, igual que yo. Y entonces pienso que abrazar la vulnerabilidad, lo vulnerable, o permitirse serlo, es también abrir puertas a la empatía. Es entender que no hay una vida infinita, sino lazos infinitos.

    Tuve la tentación de cerrar este texto diciendo “al final de todo”, pretensiosamente, en la cúspide de mis veintitrés años, dispuesto a poner un supuesto punto final y, efectivamente, obliterar esa inmortalidad de mi existencia. Pero me contuve. Me da curiosidad saber cómo visitaré este garabato dentro de algunos años. Pero hoy, quiero decir que no puedo ser yo sin ti. Quiero explorar esa pasión por el otro, verdaderamente infinitos.

    Quiero poder ser vulnerable y, así, salir de este temblor y correr hacia tus brazos.

 

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