Pise na grama.
Em Português:
O cochilar à tarde é luxo desses que se dá, se desfruta e se deleita quem pode. Eu, particularmente, ao me encontrar com raros momentos esses, me permito viajar. Tenho sonho - não sono - leve e infinito. À tarde, é como se o portal entre o onírico e o real encontrasse leve abertura; e a ponte entre ambos faz-se fina como cílios entrecruzados. No meio dessa leveza, recomendo simplesmente ir.
O encontro, aviso, não tem pauta definida nem destino certo. Em sua maioria, costumo ir de peito aberto. Cruzo o mundo em voo desleixado, me estabaco no chão, toco as marquizes dos prédios do meu bairro, e com um impulso vou do Rio à Sevilha e de aí à Oaxaca. Vou e volto, me surpreendo e me animo, sinto e grito numa onda de desejos inconscientes e consciências indesejáveis. Tudo se encontra num emaranhado novedoso, por vezes indecifrável. Controle muitas vezes há, e sinto como se fosse um dom poder caminhar com lucidez por dentro de mim mesmo.
Já vi centenas de aviões caírem numa dança espiral ao meu redor. Vivi a explosão de montanhas mortas, vibrei com emoções reprimidas, pintei cabelos e vestidos com um escarlate sem igual - cheguei a encontrar com você. Fui criança e envelheci-me, saltei de pontes e cruzei fronteiras. Num ímpeto do fazer consciente de estar inconsciente, permiti-me conhecer tudo. Corto a abstração pra dizer que, em grande maioria, fui feliz, ao meu modo, à tarde.
Noutro dia, não desfrutei. Olhava à janela e de repente fez-se noite. Senti um medo tomar conta, vi as plantas perderem vida e as cores vivas à vista transformarem-se em breu. Com um golpe rápido, subiu diante do para-peito da varanda um pássaro sombrio, de face e traços bruscos, assustadores e mórbidos. Deforme, com dentes afiados, coluna curvada e penas pútridas, se colocava em posição de ameaça diante de mim. Acordei num impulso, ofegante e, sem entender, nesse abrir dos cílios fechei o portal. Não é ficção, é relato.
Poderia chamar isso de visão? Não sei, e acho que propositalmente busquei nunca saber. Do que importa, realmente? Esse momento de medo, o tal pássaro amedrontador, que me perseguiu ou fez-me perseguir a mim mesmo pode ser fruto de tantas coisas. Um mau presságio? Um aviso? Um medo oculto? Chego a pensar que essas mesmas dúvidas acabam por moldar a realidade. Me explico: tenho para mim que a realidade é coisa mutável, completamente deforme e alterável. Isso é dizer que creio de algum modo na capacidade do medo em transformar o ao redor? De certo modo, sim.
Não só o medo, senão a angústia, a esperança, as crenças e os presságios. Pense em quantas pessoas, há séculos, deixaram de sair de suas terras com medo de dragões, gigantes, ciclopes, deuses plumados, inframundos e tantos outros; suas realidades foram moldadas, neste caso, por medos e crenças, ideias existentes e amplamente aceitas como reais. Elas de fato são reais? Não sei, e não me interesso. O meu ponto é que todas elas, inevitavelmente, foram responsáveis por moldar a realidade de indivíduos e comunidades inteiras. No fim, o que é real, ou "objetivamente real" - se é que existe algo assim - perde aqui a importância.
Essa visão, ou sonho, ou simples delírio afinal, acabou por moldar minha realidade. Mas disso também não estou certo. Vivi os outros dias com um certo medo, com uma angústia ao tentar entender do que se tratava isso e, pasmem, acabei por deparar-me com um medo paralisador dias depois. Teria algo a ver? Sabia meu inconsciente de algo? Foi um aviso do além? Há importância nisso? Pois, deve haver.
Penso nos sonhos como um emaranhado de tudo aquilo que nos atravessa, seja esse atravessamento conscientemente reconhecido ou não. De certa forma, os sonhos seriam como um respaldo intangível de tudo aquilo que constitui a nossa realidade, que de real teria muito pouco. E entre essas travessias que se atravessam sem cuidado, sonhos tornam-se travessos e é aí que sinto falta de travesseiros mais cômodos. Minha cama se tornou um território em disputa.
Afinal, relato que o pássaro de plumas negras me visitou. Em uma tarde qualquer, ensolarada e viva, senti um anoitecer repentino e o cheiro da putridez das plantas em minha varanda. O medo veio, tomou conta, e cheguei a pensar que não aguentaria. A barreira entre o real e o irreal parecia romper-se, e eu vivia agora aquilo que vivi antes. Não serei dissimulado, pois diferença há. O sonho, ou pesadelo, ou visão, ou vivência, realidade, mito ou fantasia parecem diferentes do que entendemos como real: eles têm fim. Quando o pássaro de fato chegou, sem aviso prévio, mas repetindo o roteiro, tive medo de que não haveria o despertar. Queria arrancar fora as pálpebras, de algum modo afastar-me dali e tranquilizar-me num impulso, ofegante e, talvez entendendo agora, abrir novamente o portal.
"E agora que é real, o que eu faço"? Passei o dia com esse questionamento. Quis chorar, não consegui. O que fazemos quando pesadelos se materializam? Busquei consolo, amigos, senti raiva, descabelei-me, frustrado com o mundo, com as expectativas, com a realidade, eu me desmanchei em inúmeras reações. Não quis olhar à janela, queria não dormir, tinha medo do não poder acordar. Estava, como disse antes, convencido de que a diferença entre a realidade e o sonho - se é que podem ser usados como antônimos - é que o último tem fim. Hoje, carregando a cabeça de plumas negras em minhas mãos, entendo que errei.
Errei, pois para a minha surpresa o dia acabou. E eu dormi, e acordei, e dormi, e acordei, e assim sucessivamente até esse momento, pelo que me consta. E o que parecia aterrador, putrificante, inconsolável, castrador e definitivo, esvaiu-se. Olho para quando comecei a escrever esse conto - no mesmo dia em que recebi a desagradável visita em minha janela - e não deixo de pensar que em algum momento, ainda que não num impulso, e muito menos ofegante, eu abri minhas pupilas e fechei a tal porta. Ainda que acordado agora, sei que aquele pesadelo tão material hoje assemelha-se a um sonho. E já não tenho respostas nem termos para diferenciar o irreal do real. Chego a pensar que é tudo coisa só. Mesmo não sendo.
Ainda que disfarçados atrás de metáforas e símbolos, explico um fenômeno que se repetiu algumas vezes na minha vida esse ano. E ainda que eu saiba, por mais que incapaz de explicar, a diferença entre realidade, pesadelos, sonhos e devaneios, acho que mais me valeu entender suas semelhanças: todos têm fim. E eu aqui sigo, e escrevo, e acordo, e durmo, e sonho, e me desespero, me extasio e assim me moldo com uma certeza estranha de que amanhã tudo recomeça e eu continuarei enfrentando pássaros e voos. E estarei aqui, acordando, e dormindo, e acordando, e dormindo, ...
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