Onças que não vemos.

    Em Português:


    Quando ainda menino, passava horas a fio discutindo com meu tio. À beira da calçada, com os pés tocando o chão, íamos longe. Em Todos os Santos, as tardes por vezes passavam com monotonia crua, esbanjando lá um encanto que hoje me custa sentir. Ao seu lado, viajava aos quatro cantos do mundo, desbravando segredos e mistérios de vários e tantos “outros”, fazendo minha própria ideia do real ser constantemente desafiada. Meu tio era homem já feito, achava eu. Desses que sabe muito de tudo; e de tudo quase um pouco. Sim, isso mesmo. Deixava meus medos, dúvidas, inseguranças e curiosidades escaparem ao lado seu na travessia que fazíamos do Prata ao Grande, em três frases e alguns tantos vocativos. 

    Chego do colégio esbaforido, carregando mil e uma dúvidas e uns quantos papéis. Louco para estar ao pé da calçada e derramar-me em perguntas, chegava a não lembrar de tudo ao redor. As aulas de biologia sempre me encantaram de um modo específico: sentia mesmo como se, na minha cabeça, meu corpo fosse capaz de transmutar-se em qualquer animal e eu fosse ser capaz de transformar-me em cada um deles somente com a pura força do pensar. Devia chegar a esquecer que era homem quando em casa.

    Pés de marreco, olhos de harpia, dentes de guará, língua de tamanduá, asas de arara e caudas de onça. Eram todos parte minha e tudo tornava-se um ateliê glamuroso de possibilidades e vivências ímpares dentro de mim. Questiono, até hoje, se não cheguei a trocar as células do meu cérebro com as de um quati e meu senso de direção com os de uma cotia. Sou confuso e arredio. Miau? Fechava-me dentro de uma carapaça de jabuti e custava a sair. 

    Tio Nelson nunca esboçou susto ou surpresa. Suas reações faziam-me sentir comum. Visitava meu zoológico, com toda a paciência e sabedoria que eu mesmo acho que nunca cheguei a ter comigo. Nesse dia, ao ver-me chegar desbaratado, esparramando minhas coisas pela sala e proferindo uma série de nomes de animais que se extendia exponencialmente, não conteve-se e riu. Disse lá suas coisas, destas raridades que saíam de sua boca. “Está em fase de crescimento. Se Barrabás fosse criança, seria assim como você. E eu seria sua Clara!”. Devo dizer que, apesar de entreter-me profundamente com suas “nelsonzices”, como dizia minha mãe, muitas das coisas que só senti tempos depois. Hoje, decido que quero contar uma delas, dessas que me marcou e que justo hoje pus-me a pensar outra vez. 

    Neste mesmo dia, descemos até a calçada, como de costume. Depois de completa a lista de bichos da fauna americana – fiz questão de listá-los todos – perguntou-me se algum deles me havia chamado especial atenção. Parei um pouco, lembro de viajar entre sapos e capivaras até parar por um momento e decidir. Sim, havia um que eu não chegava a entender muito bem. “Tio, há um desses que me revira um pouco a cabeça, muito mesmo. A onça não faz sentido algum! Como pode ser que, com tantas pintinhas, ninguém consegue fugir dela”? Tio Nelson não era lá especialista em animais, é bem verdade. Mas, para tudo tinha uma história, e então me perguntou: “você gostaria de ser assim também, colorido, chamativo e ao mesmo tempo implacável e respeitado, como a onça?”. 

    Respondi que sim, sem nem pensar duas vezes. Já aí, meus dentes cresceram, fiz-me peludo e minhas unhas ansiavam por algo que perfurar. Senti poder, vida, anseio e delirei por uns instantes. No meio da transformação, meu tio pergunta se eu sabia como foi que a onça se tornou o que era. Os dentes encolheram, voltei a ficar careca e minhas garras retrocederam. “Como assim?”. 

    Nelson tinha passado os últimos 4 meses do ano na Colômbia, e logo foi ao Pará. Participava lá de uns grupos de pesquisa, coisa essa que nunca me interessei muito. A verdade é que ele não contava muita coisa. Tio Nelson falava sobre tudo e sobre todos, com uma paixão e um conhecimento invejáveis, mas raras vezes se permitia incluir na história. Tudo era familiarmente impessoal, de modo estranho. Ainda que confortável e aconchegante. Nesse dia, permitiu que algo escapara, e me confessou que em sua ida ao rio Xingu, ao sul do Pará, tinham lhe contado a origem da onça. Dizia que era história conhecida por todos os povos da América Latina e que eu mesmo não podia ficar por fora. Tocou-me as costas e pediu que eu tivesse atenção. Segurei na beira da calçada, um pouco aflito e curioso. Atentei-me ao gato calico que passava ao outro lado da rua e me despedi. Era hora de deixar Todos os Santos e voar para bem longe. Ou talvez perto demais, penso agora. E começou. 

    Disse, assim de uma vez, que a onça costumava andar pela floresta caçando, com seu arco e flecha sempre à postos. Isso em tempos que já ninguém consegue lembrar. Um dia, quando encontrou uma sombra, quis, com toda sua destreza, capturá-la. Não conseguiu. Caído, enganado e envergonhado, levantou a cabeça e fez-se notar que o dono da sombra era um jovem,. Com traços frágeis aos seus olhos, chamava-se Botoque. O menino era da comunidade kayapó, e estava quase morto no alto de uma pedra. Não tinha forças para mexer nem um músculo sequer, e simplesmente pôde balbucear uma meia dúzia de palavras sem sentido. Não que achasse, de todas as formas, que a onça fosse entender o que fosse capaz de dizer. Comovida, baixou sua guarda, descansou seu arco e flecha no chão e convidou o jovem rapaz a comer carne assada em sua casa. Nesse momento, eu já andava confuso, mas segui na história. Olhava para mim com ânimo, e lembro-me bem de apertar levemente meu pescoço, como para chamar minha atenção. Eu ia. 

    Contava que Botoque sequer sabia o significado da palavra “assada”. Ainda assim, ele aceitou - imprudentemente, pensei - o convite, e se deixou levar nos braços do caçador. “Você está trazendo o filho de outra!”, gritou a companheira em tom firme de reprovação ao anunciar sua chegada. A onça respondeu, dizendo que Botoque agora era seu filho também. Cabia a ela aceitar. Foi aí que viu o fogo pela primeira vez, também chegoua a conhecer o forno de pedra e o sabor da carne assada, tanto de anta como de veado. Ele aprendeu com as onças que o fogo é capaz de iluminar e aquecer. A onça, encantada com o espanto do menino, o presenteou com um arco e flechas e o ensinou a defender-se. 

    Um dia, contava meu tio, em tom mais sério: Botoque fugiu. Matou a companheira da onça. Correu, desesperado, e não parou até chegar a sua casa; sua verdadeira casa. Lá, compartilhou sua história e mostrou todos os segredos que havia aprendido: a arma nova, os mistérios do fogo e a carne assada. Os kayapó, disse, decidiram se apoderar do fogo e das armas, e Botoque levou todos eles à remota casa da onça. Desde então, ela odeia os homens. Do fogo, não sobrou mais nada além do reflexo que brilha em suas pupilas. Para caçar, usa apenas seus dentes e garras, e até os dias de hoje come crua a carne das suas vítimas. 

    Nelson me olhou por inteiro, da cabeça aos pés. Viu na minha cara a expressão de pena, confusão e estranhamento. Senti pena pela onça. Conflito interno tomou conta por não ter essa história nada que ver com as minhas aulas de biologia. Comecei a questioná-lo: “Como pode ser que todas as onças do mundo tenham sofrido do mesmo destino”? Com calma, tentou explicar naquele momento que havia muito mais nessa vida do que aquilo que a biologia ou outras ciências podem explicar. Disse-me que a ciência da terra, do povo e do tempo também podem ensinar muito. De formas que por vezes parecemos não considerar. Pediu para que eu pensara um pouco sobre Botoque e a onça. Fez questão de dizer que tudo aquilo era parte de mim, ainda que eu não fosse capaz de ver. Lembro-me de levantar, inquieto, desajeitado e desequilibrado, fazendo de tudo para pôr-me de pés e fazer ainda mais perguntas calorosas. Tentava colocar-me sobre os dois pés, talvez até para impor respeito e atenção. Observando a triste cena, diz: “É mesmo como Barrabás, esculpido e escarrado”. Relevei. 

    Passei muitos anos sem revisitar esse episódio em concreto. Ainda que constantemente tenha me encontrado pensando sobre a história de Botoque e a onça. Havia algo que me movia por dentro ao pensar na transformação pela qual passara a grande felina. A partir desse dia, dei mais atenção às metamorfoses do corpo e cheguei muitas vezes a ver com olhos de condor e a andar com patas de saguí. No fundo, passei a acreditar que também eu podia ser, com o passar da vida, algo novo. Como a onça. Em meus próprios moldes, aprendi a ver ainda mais beleza e compaixão nelas, e passei a sentir-me conectada com uma rede de histórias e ideias que jamais havia podido imaginar. Busquei saber também a origem do jabuti, do morcego, das araras, dos coelhos e de todo outro animal que houvera. Conheci suas histórias, não suas classificações. Conheci mais sobre mim mesma e de onde sou. 

    Hoje mulher, revisito com cuidado e respeito esse episódio. Saí de Todos os Santos, às cinco e quinze, pronta para desfilar pela Paraíso do Tuiutí. Despreocupada, ansiosa e um pouco aflita. Nunca havia desfilado. No meio da avenida, ao mesclar-me com a música, permiti-me fusionar também no tempo e no espaço. Lembrei do Tio Nelson e de nossas conversas. Senti, ao gritar sobre a história de minha região, os dentes crescerem, as unhas afiarem-se e meu pelo florescer. Eu brilhava colorida, chamativa e ao mesmo tempo implacável e respeitada, como a onça. Durante aqueles quase 20 minutos, percebi minha transformação. Senti, por fim, que todos eram capazes de sentir o fogo no brilho de minhas pupilas e fui parte de algo maior. Toda a Sapucaí se transformou em onça, e ao chegar na enorme boca apoteótica do animal, me soube livre. Fui apenas capaz de saber-me parte de um todo e única. 

    Hoje, sabendo-me um pouco Isabel Allende e muito onça, chego a ter certeza de que todos nós somos um pouco Barrabás. E no meio desse desengonço atrapalhado, há espaço para transformação.


En Español:


    Cuando todavía era niño, pasaba horas enteras conversando con mi tío. Sentados al borde de la acera, con los pies tocando el suelo, viajábamos muy lejos. En Todos os Santos, las tardes a veces transcurrían con una monotonía desnuda, derrochando un encanto que hoy me cuesta sentir. A su lado recorría los cuatro rincones del mundo, descubriendo secretos y misterios de tantos y tantos “otros”, haciendo que mi propia idea de lo real fuera constantemente desafiada. Mi tío era un hombre hecho y derecho, pensaba yo. De esos que saben mucho de todo; y de todo, casi un poco. Sí, exactamente eso. Dejaba escapar mis miedos, dudas, inseguridades y curiosidades junto a él en la travesía que hacíamos del Plata al Grande, en tres frases y unos cuantos vocativos.

    Llegaba del colegio jadeando, cargando mil y una dudas y varios papeles. Ansioso por sentarme junto a la acera y desbordarme en preguntas, llegaba a olvidarme de todo lo que había a mi alrededor. Las clases de biología siempre me fascinaron de una manera especial: sentía realmente como si, dentro de mi cabeza, mi cuerpo pudiera transformarse en cualquier animal y yo fuera capaz de convertirme en cada uno de ellos con la pura fuerza del pensamiento. Debía incluso olvidar que era humano cuando estaba en casa.

    Patas de pato, ojos de arpía, dientes de guará, lengua de oso hormiguero, alas de guacamayo y colas de jaguar. Todos formaban parte de mí y todo se convertía en un glamuroso taller de posibilidades y vivencias únicas dentro de mí. Me pregunto, hasta hoy, si no llegué a intercambiar las células de mi cerebro con las de un coatí y mi sentido de la orientación con el de una agutí. Soy confuso y esquivo. ¿Miau? Me encerraba dentro de un caparazón de jabutí y me costaba salir.

    El tío Nelson nunca mostró sobresalto ni sorpresa. Sus reacciones me hacían sentir común. Visitaba mi zoológico con toda la paciencia y sabiduría que yo mismo creo que nunca llegué a tener conmigo. Ese día, al verme llegar desordenado, esparciendo mis cosas por la sala y pronunciando una serie de nombres de animales que se extendía exponencialmente, no pudo contenerse y se echó a reír. Dijo una de esas rarezas que salían de su boca: “Estás en plena etapa de crecimiento. Si Barrabás fuera un niño, sería como tú. ¡Y yo sería su Clara!”. Debo decir que, aunque sus “nelsonadas”, como decía mi madre, me divertían profundamente, muchas de ellas solo llegaron a tener sentido mucho tiempo después. Hoy decido contar una de esas historias, una de las que me marcaron y sobre la que justamente hoy volví a pensar.

    Ese mismo día bajamos a la acera, como de costumbre. Después de completar la lista de animales de la fauna americana - me aseguré de nombrarlos a todos - me preguntó si alguno de ellos había llamado especialmente mi atención. Me quedé pensando un momento; recuerdo haber viajado entre sapos y capibaras antes de detenerme y decidir. Sí, había uno que no lograba entender muy bien. "Tío, hay uno de esos animales que realmente me da vueltas en la cabeza. ¡El jaguar no tiene ningún sentido! ¿Cómo es posible que, con tantas manchas, nadie consiga escapar de él?". Mi tío Nelson no era precisamente un especialista en animales, eso es cierto. Pero para todo tenía una historia, y entonces me preguntó: "¿Te gustaría ser así también, colorido, llamativo y al mismo tiempo implacable y respetado como el jaguar?"

    Respondí que sí sin pensarlo dos veces. En ese mismo instante mis dientes crecieron, me cubrí de pelo y mis uñas ansiaban perforar algo. Sentí poder, vida, deseo, y deliré durante unos instantes. En medio de la transformación, mi tío me preguntó si sabía cómo el jaguar había llegado a ser lo que era. Los dientes se encogieron, volví a quedarme calvo y mis garras retrocedieron. "¿Cómo así?", dije.

   Nelson había pasado los últimos cuatro meses del año en Colombia y luego había ido a Pará. Participaba en algunos grupos de investigación, algo que nunca me interesó mucho. La verdad es que contaba muy poco sobre sí mismo. El tío Nelson hablaba de todo y de todos, con una pasión y un conocimiento envidiables, pero rara vez se permitía incluirse en la historia. Todo era familiarmente impersonal, de una manera extraña. Aunque también cómoda y acogedora.

    Ese día permitió que algo se escapara y me confesó que, durante su viaje al río Xingú, al sur de Pará, le habían contado el origen del jaguar. Decía que era una historia conocida por todos los pueblos de América Latina y que yo no podía quedarme sin conocerla. Me tocó la espalda y me pidió atención. Me aferré al borde de la acera, un poco inquieto y curioso. Presté atención al gato calicó que pasaba al otro lado de la calle y me despedí de él. Era hora de dejar Todos os Santos y volar muy lejos. O quizás demasiado cerca, pienso ahora. Y entonces comenzó.

    Dijo, de golpe, que el jaguar solía recorrer la selva cazando, siempre con su arco y sus flechas listos. Eso ocurría en tiempos que ya nadie puede recordar. Un día, al encontrarse con una sombra, quiso capturarla con toda su destreza. No lo consiguió. Caído, engañado y avergonzado, levantó la cabeza y se dio cuenta de que el dueño de aquella sombra era un muchacho. Con rasgos frágiles a sus ojos, se llamaba Botoque. El niño pertenecía al pueblo kayapó y estaba casi muerto sobre una roca. No tenía fuerzas para mover un solo músculo y apenas pudo balbucear media docena de palabras sin sentido. No es que creyera que el jaguar pudiera entender lo que decía. Conmovido, el jaguar bajó la guardia, dejó su arco y sus flechas en el suelo e invitó al joven a comer carne asada en su casa.

    Para entonces yo ya estaba confundido, pero seguí escuchando. Mi tío me miraba con entusiasmo y recuerdo perfectamente cómo me apretó suavemente el cuello, como para llamar mi atención. Yo seguía allí.

    Contaba que Botoque ni siquiera sabía qué significaba la palabra “asada”. Aun así aceptó - imprudentemente, pensé - la invitación y se dejó llevar en brazos por el cazador. "¡Estás trayendo al hijo de otra!", gritó la compañera del jaguar con firme desaprobación al verlo llegar. El jaguar respondió que Botoque ahora también era su hijo. Tendría que aceptarlo.

    Fue entonces cuando el muchacho vio el fuego por primera vez. También conoció el horno de piedra y el sabor de la carne asada, tanto de tapir como de venado. Aprendió de los jaguares que el fuego puede iluminar y calentar. El jaguar, encantado por el asombro del niño, le regaló un arco y unas flechas y le enseñó a defenderse.

    Un día - contaba mi tío con tono más serio - Botoque huyó. Mató a la compañera del jaguar. Corrió desesperado y no se detuvo hasta llegar a su casa; su verdadera casa. Allí compartió su historia y mostró todos los secretos que había aprendido: el arma nueva, los misterios del fuego y la carne asada. Los kayapó, dijo, decidieron apoderarse del fuego y de las armas, y Botoque los condujo a todos hasta la remota casa del jaguar. Desde entonces, el jaguar odia a los seres humanos. Del fuego no le quedó nada más que el reflejo que brilla en sus pupilas. Para cazar usa únicamente sus dientes y sus garras, y hasta el día de hoy come cruda la carne de sus víctimas.

    Nelson me miró de pies a cabeza. Vio en mi rostro una mezcla de pena, confusión y extrañeza. Sentí pena por el jaguar. Un conflicto interno se apoderó de mí porque aquella historia no tenía nada que ver con mis clases de biología. Comencé a cuestionarlo: "¿Cómo puede ser que todos los jaguares del mundo hayan sufrido el mismo destino?".

    Con calma intentó explicarme que en esta vida existe mucho más de lo que la biología o cualquier otra ciencia pueden explicar. Me dijo que la ciencia de la tierra, de los pueblos y del tiempo también puede enseñar mucho. De maneras que a veces parecemos no considerar. Me pidió que reflexionara un poco sobre Botoque y el jaguar. Se aseguró de decir que todo aquello también formaba parte de mí, aunque yo no fuera capaz de verlo. Recuerdo haberme levantado inquieto, torpe y desequilibrado, haciendo todo lo posible por ponerme de pie para seguir haciendo preguntas. Tal vez intentaba imponer respeto y atención. Observando la escena, dijo: "Es exactamente como Barrabás, igualito.". Lo dejé pasar.

    Pasaron muchos años sin que volviera a pensar específicamente en aquel episodio. Aunque constantemente me encontraba reflexionando sobre la historia de Botoque y el jaguar. Había algo que me conmovía profundamente al pensar en la transformación por la que había pasado el gran felino. Desde ese día presté más atención a las metamorfosis del cuerpo y muchas veces llegué a mirar con ojos de cóndor y caminar con patas de tití. En el fondo, comencé a creer que yo también podía convertirme, con el paso de la vida, en algo nuevo. Como el jaguar.

    A mi manera, aprendí a ver aún más belleza y compasión en ellos, y empecé a sentirme conectado con una red de historias e ideas que jamás habría podido imaginar. También busqué conocer el origen de la tortuga, del murciélago, de los guacamayos, de los conejos y de todos los demás animales que existían. Conocí sus historias, no sus clasificaciones. Conocí más sobre mí mismo y sobre el lugar de donde vengo.

    Hoy, siendo mujer, vuelvo a visitar este episodio con cuidado y respeto. Salí de Todos os Santos a las cinco y cuarto, lista para desfilar con Paraíso do Tuiuti. Despreocupada, ansiosa y un poco nerviosa. Nunca había desfilado.

    En medio de la avenida, al fundirme con la música, me permití también fundirme con el tiempo y el espacio. Recordé al tío Nelson y nuestras conversaciones. Sentí que, al gritar la historia de mi región, mis dientes crecían, mis uñas se afilaban y mi pelaje florecía. Brillaba colorida, llamativa y al mismo tiempo implacable y respetada, como el jaguar.

    Durante aquellos casi veinte minutos comprendí mi transformación. Sentí, por fin, que todos podían percibir el fuego en el brillo de mis pupilas y fui parte de algo más grande. Todo el Sambódromo se transformó en jaguar y, al llegar a la enorme boca apoteósica del animal, me sentí libre. Solo fui capaz de saberme parte de un todo y, al mismo tiempo, única.

    Hoy, sabiéndome un poco Isabel Allende y mucho jaguar, llego a tener la certeza de que todos somos un poco Barrabás. Y que, en medio de esta torpeza desgarbada, siempre hay espacio para la transformación.

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